Alta do algodão põe em teste modelos de varejistas

Veículo: Valor Econômico
Seção: Empresas
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Alta do algodão põe em teste modelos de varejistas


Bolland, CEO da inglesa M&S, que, ao lado da espanhola Inditex, parece estar enfrentando melhor o aumento dos custos
Marc Bolland, executivo-chefe da Marks and Spencer estava em astral combativo, na quarta-feira, insistindo que a varejista britânica manterá suas margens, apesar dos custos mais elevados das commodities e da fragilidade da confiança dos consumidores.

Altas nos preços do algodão estão produzindo um impacto menor sobre a M&S do que nas varejistas que trabalham com artigos de vestuário mais baratos, sustentou ele. "Estamos tentando amenizar [os aumentos de custos], gerenciando a base de fornecedores e promovendo eficiências", diz ele.

Suas palavras ressaltam os dilemas enfrentados pela indústria do vestuário em todo o mundo, quando um aumento nos custos de produção - inclusive preços recordistas para o algodão - testam a eficiência das cadeias de suprimentos em todo o setor varejista.

As empresas estão inseguras sobre quanto desses custos poderão repassar - se é que poderão repassar algum -, aos seus clientes em dificuldades, que se acostumaram a comprar roupas baratas. Eles também estão analisando uma diversidade de estratégias para espremer mais valor de seus fornecedores. Muitos varejistas já estão fazendo pedidos antecipadamente aos fornecedores, para assegurarem preços mais baixos.

A Gap, maior varejista dos Estados Unidos, informa que está fazendo mais pedidos de longo prazo a um preço fixo para nivelar os custos. A Gap já redirecionou mais pedidos para países onde pode beneficiar-se de acordos de livre comércio para reduzir seu custo de fazer negócios. A Gap também tem experimentado diferentes misturas de tecidos em suas lojas Old Navy, onde está usando mais rayon e modal (uma forma de fibra de celulose) em algumas das malhas de algodão. A empresa está pondo mais linho em alguns vestidos.

Outros varejistas também estão experimentando materiais baratos, inclusive fibras sintéticas ou artificiais como viscose, como substituto para o algodão. Entretanto, as iniciativas do emprego de mais fibras artificiais já elevou o preço de produtos sintéticos.

A Primark cadeia de moda de lojas de descontos britânica tem absorvido o aumento do custo do algodão, que está comendo suas margens. Lord Wolfson, diretor executivo da Next, varejista de moda do Reino Unido, disse que os preços nas lojas aumentaram cerca de 8% nesta temporada, mas diz que teriam subido 18%, não fossem medidas como a emissão antecipada de pedidos.

Não é apenas o aumento do preço do algodão que está testando os modelos de negócios dos varejistas. Altos custos trabalhistas na China deram início a "uma nova era de importações a preços mais altos", disse a Li & Fung, de Hong Kong, em março, uma trading fornecedora bens de consumo.

"O aumento dos preços do algodão são um fenômeno mais temporário porque os fornecedores sempre podem plantar mais algodão, ao passo que os custos trabalhistas crescentes na Ásia são mais estruturais", disse Caroline Gulliver, analista da Execution Noble.

Algumas varejistas estão transferindo-se de regiões costeiras e do sul da China em busca de mão de obra mais barata no oeste e no norte, embora alguns analistas acreditem que esse diferencial já está sendo minado. Outras varejistas estão abandonando a China, preferindo Bangladesh e sul da Índia.

A Inditex, companhia espanhola que é dona da marca Zara, e a sueca Hennes & Mauritz (H&M) ajudaram a inaugurar a tendência do "fast fashion", em que os modelos mais recentes na passarela são rapidamente produzidos em massa para o varejo popular.

E as tensões criadas pelo aumento dos preços dos insumos puseram em nítido foco modelos de negócios contrastantes.

A Inditex destaca-se da maioria das rivais por obter cerca de 50% de seus insumos para produção de roupas perto de suas instalações, em Portugal, Espanha e Norte de África. Mantém todos os seus armazéns na Península Ibérica. Isso difere da prática da H&M, que produz 75% de seus produtos na Ásia.

Até recentemente, a Inditex parecia estar assumindo um risco, ao abrir mão das vantagens de usar mão de obra asiática barata, mas analistas dizem que sua estratégia está dando resultados, e que a empresa parece enfrentar a alta dos custos melhor do que outras.

Na semana passada, a H&M anunciou uma queda de 30% no lucro líquido do primeiro trimestre, em comparação com um ano atrás, devido ao estreitamento das margens. Isso contrasta com 14% de aumento no lucro líquido anunciado pela Inditex poucos dias antes.

Em parte, a diferença reflete a recusa da H&M, assim como da Primark, de repassar a alta nos custos dos insumos para os clientes, numa uma tentativa de defender a sua imagem de "chique barato".

Karl-Johan Persson, CEO da H&M, diz que a empresa "está buscando incessantemente implementar melhorias " em sua cadeia de suprimentos, mas insiste em que a Ásia continua a ser o local mais competitivo para a produção de roupas. Argumenta que, embora outras varejistas tenham elevado os preços ou baixado a qualidade, a H&M será recompensada no longo prazo por não ter feito o mesmo. Caroline Gulliver diz existirem até agora pouca evidências em apoio à teoria de Persson, observando que as vendas da Inditex têm crescido mais rapidamente do que as da H&M. "O risco é que os consumidores acabem se revelando não tão sensíveis a preços e que a H&M acabe investindo em preços mais baixos sem registrar um aumento proporcional nos volumes", diz a analista. (Tradução de Sergio Blum)