Mesmo com cortes de gastos, BC levará tempo para baixar inflação

Veículo: Globo.com
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Mesmo com cortes de gastos, BC levará tempo para baixar inflação

Há pouco mais de dez anos o Brasil vivia desequilíbrios macroeconômicos que exigiam rigidez nos gastos públicos. Naquela época era preciso cumprir uma meta de superávit primário, a economia que o governo faz, para reduzir o tamanho da dívida publica sobre o PIB. Hoje, esta relação é uma das mais baixas do mundo, de 40%, não representando mais perigo de solvência do país.

O desequilíbrio agora está no excesso de crescimento e de expansão do gasto público. Quem diria?! A correção dos rumos passa pela redução do ritmo da economia para evitar mais inflação. Reduzindo gastos, o governo reduz a demanda geral da economia e ajuda o Banco Central na tarefa de controlar a inflação.

Um ex-ministro do governo FHC chama atenção para um ponto importante sobre os anúncios feitos pelos ministros da Fazenda e Planejamento. Mais do que falar em quantidade, o quanto será cortado do orçamento, é preciso melhorar a qualidade do gasto público no Brasil.

O que se espera do governo federal é que os cortes no orçamento sejam capazes de gerar um superávit primário na ordem de 3% do PIB este ano. Mas, segundo esse ex-ministro que preferiu não se identificar, “a qualidade do ajuste fiscal não pode se deteriorar. É preciso cessar a criação de compromissos futuros e permanentes, principalmente para os gastos correntes”. Os gastos correntes são dos que mais pesam na lista de despesas do governo e também mais difíceis de mexer.

O mercado financeiro recebeu as notícias sobre os cortes com atenção mas desconfiança. Uma boa parte de economistas ouvidos pelo Blog elogia a atitude do governo em fazer anúncios, dar transparência às medidas. Mas ainda há um clima de “ver para crer”. Para o economista Roberto Troster,  “a credibilidade fiscal do governo ainda precisa se provar. Vamos ver o impacto na real expectativa do mercado pelo comportamento da curva de juros futuros. Se ela se mexer para baixo, é porque o mercado acredita que o corte será para valer”.

Segundo um analista de mercado, “mesmo se o governo entregar de fato um superávit primário da ordem de 3% do PIB, ainda assim, o BC pode demorar quase 2 anos para trazer de volta a inflação para a meta. Hoje ela está  na casa dos 6% ao ano, beirando o teto da meta de 6,5% para 2011

E o trabalho do BC recomeça daqui a pouco, em mais uma reunião do Copom. Nesta segunda-feira, o fechamento do mercado de juros futuros com prazo curtíssimo, indicava que a maioria do mercado espera 0,50 pontos porcentuais de aumento na taxa Selic. Há quem acredite que o detalhamento dos cortes orçamentários deverá ser levado em conta pelo BC, mostrando que o outro lado da Esplanada dos Ministérios em Brasília está ajudando a combater a inflação.