Estamparia digital, mais popular

Veículo: Valor Econômico
Seção: Empresas
Página:

Estamparia digital, mais popular

A estamparia digital, um dos segmentos mais promissores do mundo da moda, está ficando mais popular. Ainda não alcançou o mercado fast-fashion, mas, ao que tudo indica, isso é só uma questão de tempo. A cada nova temporada, mais grifes estão adotando o novo processo, que, segundo especialistas, deverá substituir a forma tradicional de se estampar tecidos, em rotativas.

Prevê-se o mesmo fenômeno que ocorreu com a fotografia, onde a tecnologia digital mudou os hábitos dos consumidores e o modelo de negócios de fabricantes de máquinas e de varejistas.

O método digital de estampar tecidos ainda é mais caro do que o tradicional, mas já há empresários brasileiros adotando-o. Com 20 anos de mercado, a Malhas Artec, do grupo Adar Tecidos, investiu US$ 600 mil em máquinas para, a partir do segundo semestre, oferecer estampas digitais em suas malhas. A Artec, que produz 650 toneladas de malhas por mês, detectou aumento de demanda e prepara-se para atender grifes mais sofisticadas e grandes magazines.

"O grande diferencial está na possibilidade de fazer estampas exclusivas para cada cliente", diz Paulo Cardim, diretor comercial da Artec. Outra vantagem é a produtividade. No processo de estamparia por rotativas, perde-se cerca de 50 metros de tecido no início do processo, quando a máquina ainda está "esquentando". No digital, as perdas são inexistentes, diz ele, e pode-se imprimir quantidades muito pequenas de tecido - com apenas um metro.

A estamparia tradicional é feita em máquinas com rotativas. Cada cilindro é carregado com uma cor - e as máquinas têm até oito cilindros (o que significa que o desenho escolhido para decorar o pano terá esse número máximo de cores). O tecido vai sendo estampado ao passar pelos cilindros. "Essa operação só é viável se a quantidade de tecido a estampar for superior a 500 metros", diz Cardim. "Do contrário, ela dá prejuízo."

A estampa digital é "impressa" sobre o tecido, como ocorre com o papel nas impressoras domésticas. "Os desenhos ficam muito mais nítidos e pode-se usar, no mínimo, 16 cores", diz Cardim.

Há quatro anos, quando as primeiras máquinas começaram a chegar ao Brasil, o processo digital custava vinte vezes mais que o tradicional, segundo Cardim. Hoje, essa diferença baixou para uma vez e meia. O custo, em média, é de R$ 15 por metro de tecido, diz ele.

De origem italiana e com oito meses de atuação no mercado nacional, o grupo têxtil Miroglio aposta que a concorrência fará o preço da estamparia digital baixar. "Esse processo é o futuro. Quando tiver um custo mais acessível, ele vai dominar e acabar com os tradicionais", diz Giovanni Barroero, diretor da Miroglio do Brasil Têxtil. Segundo ele, a vantagem de poder produzir pequenas tiragens é imbatível. Em São Paulo, além de um showroom, a Miroglio tem uma fábrica de amostras com três impressoras digitais vindas da Itália.

A empresa tem estrutura capaz de desenvolver, em apenas 48 horas, a amostra da estampa no tecido escolhido pelo cliente, para futura produção na Itália. No Brasil, a Miroglio tem, entre os clientes, as grifes M.Officer, Redley, Morena Rosa e Mob. O escritório no Brasil atende toda a América Latina. Entre os maiores grupos têxteis da Europa, o Miroglio divide-se entre a Miroglio Textile e a Miroglio Fashion. O grupo tem sede em Alba (Itália) e atua em mais de 50 países. A receita é de € 930 milhões. Entre os seus clientes, estão Zara, Benetton e H&M.

Com 26 anos de atuação e 53 lojas no Brasil, a grife feminina Folic, do Rio de Janeiro, utilizou estampas digitais em sua coleção de inverno 2011, inspirada na princesa de Mônaco, Grace Kelly. As peças receberam um desenho abstrato e rico em cores. De tão vivo, o desenho parece ter relevo. "Compramos o desenho de um bureau estrangeiro e ainda fizemos modificações aqui. Ou seja: ninguém mais terá um igual", diz Talita Romano, coordenadora de estilo da Folic. O custo, no entanto, ainda assusta, o que faz com que a grife ainda se utilize muito mais do método tradicional para decorar seus tecidos.

Tigresse, marca de roupa feminina fundada em São Paulo há sete anos, aboliu a estamparia tradicional em suas roupas - a maior parte feita de seda - para adotar de vez o método digital. "De dois anos pra cá, o custo desse processo caiu 50%", justifica Fábio Inoue, diretor criativo da marca.

Com foco no público A, a Tigresse optou por ter uma variedade maior de estampas, a cada coleção. Dessa forma, a repetição é pequena, o que minimiza as chances de suas clientes encontrarem "clones" por aí. "Era inviável estampar pequenas quantidades de tecido pelo meio tradicional, com rotativas", diz Inoue. A grife tem lojas no bairro dos Jardins e no shopping Cidade Jardim, em São Paulo, e distribui suas criações em cerca de 100 multimarcas no país.

No exterior, uma das precursoras no uso da estamparia digital, é a grife inglesa Basso & Brooke , que apresentou sua mais recente coleção de inverno esta semana, durante a London Fashion Week. A grife ficou conhecida pelas padronagens cheias de cores e personalidade e tem entre os estilistas o brasileiro Bruno Basso. A opção pela estampa digital já virou uma marca da empresa inglesa.