Para governo, inflação não vai furar teto da meta

Veículo: Estadão
Seção: Economia e Negócios
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Para governo, inflação não vai furar teto da meta

Mesmo identificando componentes sazonais na inflação atual, o governo avalia que os índices de preços deverão se manter elevados nos próximos meses, mas sem ultrapassar o teto da meta (6,5%) no acumulado em 12 meses. Este cenário considera, inclusive, o momento de maior risco, quando o período de três meses de inflação zero em 2010 (junho, julho e agosto) forem substituídos em 2011 por resultados maiores.

No esforço de combate à inflação, além dos juros e da promessa de uma política fiscal mais forte, o governo enfatiza a relevância das medidas macropudenciais, adotadas em dezembro de 2010, e não descarta uma nova rodada para conter ainda mais o crédito.

Os empréstimos devem ter uma expansão em torno de 15% este ano, um nível considerado elevado por muitos (ainda que inferior ao ritmo de alta dos últimos anos). Em 2010, a oferta de crédito cresceu 20,5%.

A taxa de câmbio, que muitos economistas apontam como um possível auxiliar no combate à inflação, é um recurso considerado de impacto muito pequeno, quase nulo, a partir do atual nível (entre R$ 1,60 e R$ 1,70).

A aceleração da inflação neste início de ano foi influenciada pela alta dos alimentos, bebidas e transportes e também pela alta das commodities, que mantêm pressão sobre os preços domésticos.

Economistas do governo estão convencidos de que o real está "fora do lugar", ou seja, como o País está acumulando um rombo crescente na conta que registra as transações de bens e serviços do Brasil com o exterior, o dólar já deveria estar em outro nível.

Esse déficit (em conta corrente) será de cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano. E o fator dessa valorização excessiva é a enorme oferta de dólares no mundo. O Brasil e outros emergentes continuam correndo na frente, recebendo esses dólares e enfrentando a sobra de dinheiro no mundo.

Apesar da ação ofensiva do Banco Central (BC) para estabilizar o câmbio, sempre restam dólares no mercado. E essa sobra estimula a euforia e apostas na eterna valorização do real.

A estratégia de atuar fortemente no mercado cambial - por meio de compras de dólares à vista e no mercado futuro, limitação de exposição dos bancos, entre outras - é para evitar a euforia, a sensação de que o dólar só se move para um lado.

O que aconteceu no Brasil em 2008, quando o banco Lehmann Brothers quebrou e levou a uma disparada súbita do dólar e à quebra de algumas empresas, está vivo na memória. O governo quer evitar que isso se repita.

Enquanto alguns integrantes da área econômica avaliam que o mercado tem subestimado o impacto das iniciativas macroprudenciais adotadas pelo Banco Central, outros transmitem confiança de que os índices de preços e as expectativas do mercado vão recuar ao longo do ano. Isso em resposta não só a essas medidas, como às outras iniciativas anti-inflacionárias. A avaliação é de que o aperto prudencial do crédito potencializa os efeitos da alta da taxa de juros.

Afinal, desestimula o tradicional drible que o mercado de crédito dava no BC por meio do alongamento de prazos dos financiamentos.

Remédio amargo. O Relatório trimestral de Inflação, que será divulgado em março, tornará mais transparente o cenário percebido pelo Banco Central não apenas em relação a inflação, mas também para a taxa de câmbio e o crescimento econômico.

Até lá, o mercado financeiro não terá muitas informações sobre se o Banco Central reforçará ou não o uso da taxa básica de juros (Selic) para combater a inflação.

Os números do crédito de janeiro, ainda desconhecidos, vão ajudar o mercado a calcular, com mais precisão, os efeitos das medidas adotadas.

O governo já enxerga uma desaceleração econômica e aposta que, em algum momento, alguns analistas vão dizer que o Banco Central exagerou na dose. Enquanto isso não é percebido pelo mercado, o governo convive com a ansiedade e com a crença de analistas do setor financeiro de que a inflação superará o teto da meta neste ano.

A equipe econômica reconhece que reverter rapidamente a atual conjuntura de preços em alta é uma tarefa que, por si só, é difícil, mas é ainda agravada pelas indefinições do cenário internacional. Na crise mundial, os países optaram pelo uso de remédios "doces" (redução de juros e liberação de dinheiro para a economia). Agora, no entanto, a aposta do Brasil é a de que o momento exige remédios "amargos", que estão sendo usados e produzirão os efeitos desejados: manter a inflação na meta e a economia estável.