Medo de inflação leva empresas a estocar suprimento

Veículo: Valor Econômico
Seção: Impresso
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Medo de inflação leva empresas a estocar suprimento

Várias empresas americanas que enfrentam a alta de preço das commodities estão estocando pneus, roupas de algodão e outros produtos, numa manobra destinada a protegê-las da inflação, mas que pode acabar alimentando-a.

A fabricante de temperos McCormick & Co. aumentou seu estoque de alguns ingredientes e a Monro Muffler Brake Inc. comprou pneus e óleo para motores a mais, apostando que os preços desses produtos vão continuar subindo. A Anton Sport, uma pequena varejista de roupas esportivas de Tempe, no Arizona, aumentou as compras de tecidos para evitar a alta de preços.

Essas compras antecipadas são um pequeno porcentual da atividade econômica como um todo, mas a tendência está sendo observada por economistas e executivos de empresas. O acúmulo de estoques acontece num momento crucial para a economia mundial, quando os bancos centrais estão tendo dificuldade para julgar o impacto dos aumentos das matérias-primas e decidir se, e quando, devem aumentar os juros.

As compras feitas mais como resposta a uma percepção de pressão inflacionária do que à demanda são importantes porque indicam que as expectativas de inflação estão subindo. Os economistas geralmente se concentram na expectativa de inflação, porque ela pode levar as pessoas a antecipar suas compras, o que por sua vez pressiona os preços para cima.

"Aí o aumento de preços vira uma profecia autorrealizável", disse Zach Pandl, um economista da Nomura Securities. Quando o ciclo se encerra, os preços podem desabar, disse ele.

A parte mais difícil é apontar com precisão quando este ciclo começa e descobrir quando agir para combatê-lo.

John Anton, o fundador da Anton Sport, viu que o preço do algodão estava disparando e decidiu agir. No mês passado, quando seus fornecedores de camisetas anunciaram o quarto aumento de preço em seis meses, ele tomou emprestados US$ 300.000 de uma linha de crédito garantida por imóvel e comprou o equivalente a mais de um ano do produto. Anton tem geralmente 30 caixas de camisetas em mãos, mas agora está com mais de 2.500.

"Simplesmente caiu a ficha que eu posso tomar um empréstimo a 2,45% anuais e, se o algodão vai subir entre 10% e 12%, por que não faria isso?", disse Anton. O preço do algodão subiu 92% ano passado e 22% desde o início deste ano.

Anton espera outro aumento de preço em março. Se muitas outras empresas tomarem atitudes semelhantes, isso pode gerar um dilema para o Federal Reserve, o banco central americano. O Fed precisa decidir se os aumentos nas compras ocorreram para atender a uma demanda em alta ou um esforço para ganhar da inflação.

"Somente os próprios compradores do estoque sabem de verdade o que está acontecendo", disse Pandl. "Isso complica de fato o cálculo do Fed."

A McCormick, que tem sede em Sparks, Maryland, elevou suas compras quando os preços dos temperos começaram a disparar. O pó de alho desidratado mais que triplicou de preço e a pimenta-do-reino mais que dobrou desde março de 2009, de acordo com a firma, que entretanto se recusou a especificar quais ingredientes adquiriu.

O preço da canela também está em alta.

Ao mesmo tempo, as mercearias que são clientes da McCormick fizeram encomendas de cerca de US$ 10 milhões no quarto trimestre do ano passado que normalmente fariam este ano, para poder escapar de um aumento de preço de 3%, estimam funcionários da empresa. A empresa divulgou um aumento de 5,6% nas vendas; sem essas compras adicionais, o aumento teria sido de 3,9%.

A Monro Muffler, uma empresa de Rochester, no Estado de Nova York, que opera quase 800 oficinas mecânicas em 19 Estados americanos, também antecipou compras, principalmente para escapar de aumentos de preço, segundo funcionários da empresa.

O estoque total da empresa subiu 11% de março a dezembro, crescendo para US$ 95,6 milhões de US$ 85,8 milhões, e cerca de dois terços desse aumento se devem às antecipações de compras, disse o presidente da Monro, John Van Heel.

"Comprar antes de aumentos de preço é uma parte regular de nossa maneira de administrar a empresa", disse Van Heel. Segundo ele, a Monro usou mais essa estratégia em 2010 do que no ano anterior.