Geithner quer apoio do Brasil contra China

Veículo: Estadão
Seção: Economia e Negócios
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Geithner quer apoio do Brasil contra China

Os Estados Unidos querem o apoio do Brasil contra a China na próxima reunião do G-20. O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner, tentou convencer ontem o ministro da Fazenda, Guido Mantega, de que o "yuan desvalorizado é um problema maior para o Brasil do que para os Estados Unidos".  

Secretário do Tesouro dos EUA se reuniu com Dilma em Brasília (Foto: Uselei Marcelino/Reuters)

O argumento de Geithner é que o yuan artificialmente atrelado ao dólar exarceba os fluxos de capital que já chegam com abundância ao Brasil por causa dos juros altos e do bom desempenho da economia do País. Esse movimento provoca uma forte valorização do real, que prejudica a indústria brasileira. Uma mudança na política cambial chinesa aliviaria esse problema.  


Uma fonte presente à reunião entre as duas autoridades contou ao Estado que Mantega disse apenas que "o Brasil é contra manipulação de moedas de forma geral", mas não se comprometeu em apoiar os EUA. Nos próximos dias 18 e 19 , ocorre encontro de ministros da Fazenda do G-20 em Paris.

O governo brasileiro está bastante preocupado com a "invasão de produtos chineses" e já se comprometeu com a indústria a tomar medidas de defesa comercial. Mantega cogita questionar a China na Organização Mundial de Comércio (OMC), argumentando que a manipulação cambial distorce o comércio.

O problema do Brasil em apoiar os Estados Unidos, no entanto, é que Mantega também considera os americanos responsáveis pela "guerra cambial". Para reaquecer sua economia, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) emitiu uma grande quantidade de recursos, que acabaram canalizados para os mercados emergentes.

Geithner tentou tranquilizar o ministro e argumentou que dificilmente os EUA vão precisar de uma nova flexibilização da política monetária dessa magnitude. Os EUA estão crescendo a 18 meses seguidos, em um ritmo melhor que Europa e Japão.

Obama  

Oficialmente, Geithner veio ao País preparar a visita do presidente Barack Obama em março. Além de Mantega, ele se reuniu ontem com o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, e foi recebido pela presidente Dilma Rousseff. Pela manhã, tomou café com empresários em São Paulo e conversou com estudantes na Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Aos estudantes, Geithner responsabilizou três fatores pela valorização excessiva do real: a confiança dos investidores no bom desempenho da economia local, as taxas de juros muito altas do Brasil e as políticas de países emergentes de fora da região, que mantêm suas moedas artificialmente enfraquecidas.

"Um número significativo de economias emergentes pratica uma política designada para manter sua moeda desvalorizada, o que exacerba fatores básicos no Brasil", disse Geithner. Ele afirmou ainda que a taxa de juros do País ainda é "muito, muito alta", o que atrai capitais.  

Dilma  

O porta-voz do Planalto, Rodrigo Baena, relatou que a presidente Dilma Rousseff manifestou preocupação com o desequilíbrio na balança comercial entre Brasil e Estados Unidos na audiência concedida na segunda-feira, 7, ao secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner. A presidente, segundo Baena, disse que a solução para o problema está no aumento da exportação de produtos manufaturados. Para a presidente, é preciso um comércio equilibrado. Dilma avaliou que a relação entre Brasil e Estados Unidos é estratégica.  

Na audiência, de acordo com o relato do porta-voz, Geithner disse a Dilma que o presidente dos EUA, Barack Obama, mandou que fosse transmitida a sua "grande expectativa" da visita ao Brasil, que ocorrerá em março, em dias ainda não definidos.  

Dilma e o secretário do Tesouro norte-americano trocaram impressões sobre a economia mundial. Ao falarem sobre o G-20, Dilma disse que não se deve responsabilizar as commodities pelo desequilíbrio na economia mundial e também ressaltou a importância da retomada da Rodada Doha.

Por fim, o secretário do Tesouro disse que teve uma percepção positiva do Brasil ao conversar com empresários em São Paulo.  

(Com Leonêncio Nossa, de O Estado de S.Paulo)