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Pesos da exportação

Veículo: O Globo
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Pesos da exportação

Até Timothy Geithner, o secretário de Tesouro americano, admite: o real está valorizado. Ele diz que um dos motivos é que certos países emergentes têm moeda desvalorizada demais. Não falou em China, mas todo mundo entendeu. Por muito pouco, o Brasil não registrou déficit comercial com a Ásia. Nosso saldo comercial com a região, em 2010, caiu de US$4 bi para US$130 milhões e não foi culpa da China.

 

Com os chineses, o Brasil teve superávit de US$5,2 bilhões. A piora veio de Coreia do Sul, Tailândia e Índia. Com os três, o déficit foi de mais de US$6,5 bilhões. Com os sul-coreanos, o déficit cresceu 120%, de US$2,1 bi para US$4,6 bi. As importações subiram 75%, de US$4,8 bi para US$8,4 bi. Já com os indianos, saímos de superávit de US$1,2 bilhão para déficit de US$750 milhões. Para o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, os números mostram a fragilidade de nosso saldo comercial, porque mesmo com a disparada dos preços das matérias-primas, o superávit com os asiáticos foi muito reduzido:

 

— O problema no comércio com a China é que o superávit ficou praticamente igual de um ano para o outro, mesmo com a explosão de preços das commodities. Isso significa que aumentamos muito as importações, em 60%. Com a Índia, o superávit virou déficit porque importamos muito óleo diesel. Com a Coreia do Sul, a importação é basicamente de automóveis e eletroeletrônicos. Enquanto vendemos matérias-primas para eles, compramos itens com valor agregado.

 

Os números revelam outros dados surpreendentes. Com os Estados Unidos, nosso déficit comercial disparou 75% de um ano para o outro, de US$4,4 bilhões para US$7,7 bi. Já no Oriente Médio, a surpresa é o Irã, que virou o segundo maior comprador de produtos brasileiros, ultrapassando os Emirados Árabes. Aproveitando o embargo promovido pelos americanos, nossas vendas para os iranianos subiram 74%, de carne, açúcar e milho, principalmente, chegando a US$2,1 bilhões.

 

— Com os EUA, o déficit disparou por motivos ideológicos, porque não demos atenção a esse mercado. Sempre tivemos superávit com os americanos. Em 2008, por exemplo, foi de US$1,8 bi. A participação dos americanos no nosso comércio era de 25% e foi reduzido a 9,6%. Um mau resultado, em se tratando da principal vitrine para o comércio internacional — explicou Castro.

 

As principais queixas dos exportadores continuam sendo câmbio e Custo Brasil. O real valorizado tira competitividade, e a precária infraestrutura, alta carga tributária e carência de mão de obra especializada encarecem custos de produção. A China, apesar do superávit comercial, ainda é considerado país ultrafechado. Se, por um lado, o mercado chinês é forte comprador de matérias-primas, por outro, mantém restrita a compra de itens com maior valor agregado. No setor de aviação civil, por exemplo, é o governo chinês quem decide de quais companhias estrangeiras as empresas do país podem comprar. Essa é uma das dificuldades que a Embraer tem, apesar de ter conseguido exportar mais em 2010, chegando a US$4,16 bilhões, e fechar o ano em quarto lugar no ranking de exportações.

 

— Gostaríamos de ter mais negócios com a China, uma abertura maior. Temos parceria com uma empresa chinesa, onde temos controle, mas o problema é que o governo chinês é quem decide de quem as empresas do país podem comprar. Elas precisam de autorização governamental para suas decisões de compras. Há um controle muito forte do mercado — explicou Paulo César de Souza e Silva, vice-presidente-executivo da Embraer para o Mercado de Aviação Comercial.

 

A BR Foods e a Sadia exportaram juntas US$4,4 bilhões em 2010. Arábia Saudita e Japão foram os principais compradores. A China aparece apenas como 10º mercado. A queixa com os chineses, neste caso, é a lentidão das inspeções sanitárias. A empresa detém 20% do mercado mundial de frango e 9% do mercado de proteína, em geral. De cada cinco frangos exportados no mundo, um é da BR Foods. O dólar fraco e os gargalos de infraestrutura são queixas da empresa.

 

— Nossos portos não possuem o mesmo padrão de custo de Estados Unidos e Europa. As taxas são altas e a produtividade, baixa. As estradas também são muito ruins, ferrovias, toda a cadeia de transporte — disse Antonio Augusto de Toni, vice-presidente de mercado externo da BR Foods.

 

A Cargill exportou US$3 bilhões em 2010, o sétimo melhor resultado do país. A Ásia é o principal mercado comprador, e a soja representa 80% da pauta de exportações da empresa. O aumento da renda dos asiáticos tem puxado a compra de proteína. Paulo Sousa, líder da unidade de Negócio Complexo soja da Cargill, e Luiz Preti, diretor de finanças, dizem que a empresa poderia exportar mais, não fosse o alto custo de se produzir no país.

 

— O Custo Brasil é muito pior que o real valorizado. Mesmo se tivéssemos o dólar valendo R$2,20, ainda assim nossos custos seriam maiores que de Argentina e Estados Unidos, por exemplo. A soja poderia ser exportada pelo porto de Santarém, que fica a 700 quilômetros da produção. Mas a BR-163 está para ser asfaltada desde o ano 2000. Entrou na lista de obras do PAC, teve cronograma adiado para 2009, depois para 2010, e agora fala-se em 2012. Por isso, temos que ir até o porto de Santos, a 2.000 quilômetros, e passar por ferrovia, que no Brasil tem custo de rodovia, porque há poucos trilhos e a demanda é muito alta — explicaram.

 

Ouvimos alguns dos principais exportadores para saber deles o que mais atrapalha a exportação. Todos reclamam do câmbio, mas todos acham que as dificuldades resumidas na expressão “Custo Brasil” são uma barreira muito mais poderosa.



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