Brasil precisa de uma política monetária, diz Tim Geithner

Veículo: DCI
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Brasil precisa de uma política monetária, diz Tim Geithner

As relações bilaterais entre o Brasil e os Estados Unidos serão intensificadas, principalmente pelo bom desempenho do País frente à economia mundial e à crise financeira que assolou o mundo há 18 meses. A afirmação foi feita pelo secretário do Tesouro americano, Tim Geithner, em debate para universitários e mediado pelo ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, na Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EAESP-FGV).

De acordo com Geithner, quem procura melhorar seu desenvolvimento amplia sua liderança frente às demais nações. "Nos últimos anos, a importância das transformações brasileiras foi significativa para que o Brasil ocupasse, hoje, um destaque. E tivesse voz ativa em instituições como o Fundo Monetário Internacional [FMI]", declarou.

O secretário sinalizou que as duas economias são muito semelhantes, com dinamismo frente aos problemas econômicos e abertura dos mercados para o comércio exterior. "Temos interesse em expandir nossas relações com o Brasil. Tentaremos encontrar pontos em comum para enfrentarmos os desafios em conjunto."

Ele afirmou ainda que os Estados Unidos tem interesse que países como o Brasil elevem sua credibilidade frente ao mundo, pela estratégia de desenvolvimento e produção. "Os Estados Unidos cresceram muito rápido, agora estamos crescendo de maneira mais ponderada, estamos em transição, precisamos que as outras economias cresçam rápido, como o Brasil e os demais países em desenvolvimento. Vamos trabalhar em conjunto, de preferência com uma taxa cambial mais equânime", frisou.

Questionado sobre as taxas chinesas e a variação cambial do país asiático, Geithner alegou que a China está também em um momento de transição, que será difícil e complicado, mas que precisa do apoio do Brasil para agilizar a valorização do iuane. "Agora eles perceberam que precisam entrar na economia mundial, ou seja, precisam mudar os aspectos econômicos, relaxar o controle do seu câmbio e tornarem-se mais dinâmicos para atender não somente o mercado internacional, mas também o seu mercado interno. Juntos podemos tentar encontrar maneiras de cooperar para convencer a China a permitir que o iuane se valorize mais rápido", ponderou.

Geithner destacou ainda que a guerra cambial e seus efeitos no Brasil ocorrem pela alta taxa de juros (Selic) que atrai inúmeros investidores, pelo alto rendimento. "Hoje o foco econômico é o Brasil, é mais rentável e lucrativo investir aqui, a economia é sólida e tem uma alta taxa de juros, menor do que nos anos anteriores, graças ao Meirelles. Isso causa uma desproporcionalidade, volto a pedir um equilíbrio econômico mundial, gerenciar fluxo de capital não é uma tarefa fácil. O fato é que é muito difícil usar somente ferramentas de política monetária para combater a inflação, sem colocar mais pressão no câmbio."

Outro ponto abordado pelo secretário americano foi o equilíbrio das balanças comerciais brasileira, americana e chinesa e o foco das exportações de commodities do Brasil .

"As relações comerciais devem ter equilíbrio, não podemos registrar déficits e superávits muito disparates. Com relação às exportações brasileiras, posso afirmar que a economia é forte e muito diversificada, mais do que muitos países juntos, e hoje as exportações de commodities devem atender a demanda mundial, e as mudanças devem ser feitas com calma, as mudanças econômicas devem ser atreladas as mudanças políticas", discursou. Frente a proposta do presidente Nicolas Sarkozy, atual presidente do G-20 (grupo das maiores economias mundiais), que prevê regular os preços dos produtos agrícolas com o objetivo de reduzir a forte oscilação da cotação das commodities no mundo, Geithner foi diplomático e disse que os EUA precisam analisar a proposta, mas estão ao lado da França para criar um equilíbrio mundial, mas também estão do lado do Brasil, que não pode perder espaço e lucro com a medida.

"Estamos próximos da França, a reforma ajudará a criar um equilíbrio mundial e controlará o preço das commodities, mas também estamos do lado do Brasil, que poderá perder a estabilidade financeira e prejudicar seu setor exportador", explicou.

O secretário se encontrou com o ministro da Fazenda, Guido Mantega e na saída ele se limitou a dizer que a reunião foi "interessante" e que agora ele iria se encontrar com a presidente Dilma Rousseff e com o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini. Nos encontros ele cumpriu o seu papel de agilizar os acordos bilaterais, além de aparar as arestas entre os dois países.