Saldo zero em Davos?

Veículo: Brasil Econômico
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Saldo zero em Davos?

Faltou arrojo aos participantes do Fórum Econômico Mundial deste ano, que se encerrou sem avanços significativos. Não se pode dizer que o encontro foi decepcionante já que as expectativas eram reduzidas, mas, de novo, perdeu-se a chance de enfrentar o impasse que pode provocar danos ao mundo.

Em meio ao sentimento de certo alívio pelo ensaio de retomada do crescimento nos EUA e Europa e ao consenso de que o mundo atravessa fase de pressões inflacionárias, deixou-se de buscar soluções para os desarranjos cambiais e as disputas comerciais que se desenham.

Nicolas Sarkozy, presidente da França e do G20, declarou que os emergentes produtores de alimentos -citou Brasil e Índia- devem ficar atentos porque a alta das commodities pode se inverter e causar instabilidade.

O dispensável "alerta" oculta o interesse francês de proteção à atividade agrícola francesa e europeia -não é de hoje que se dissemina na Europa a prática de subsidiar o setor agropecuário para impedir o acesso das economias emergentes aos seus mercados.

Em Davos, o indicativo de que a Rodada Doha será retomada e alcançará resultados concretos ainda em 2011 demonstra, de fato, que esse debate urgente ficou para o futuro, assim como o dos movimentos cambiais e comerciais de EUA e China, que desequilibram as relações de forma especialmente perniciosa às economias emergentes.

Passaram ao largo, igualmente, regulamentações mais profundas à atividade bancária e especulativa, principais vilãs da crise de 2008-2009. Alguns dados apresentados no fórum são ilustrativos: na Alemanha, por exemplo, o volume de capital especulativo circulante correspondia a 3,5 vezes o PIB nacional; na Irlanda, que enfrenta um dos piores cenários econômicos e sociais da região, era oito vezes a riqueza nacional.

Em suma, os problemas sistêmicos do capitalismo financeiro seguem sem o devido enfrentamento.

Ainda que as atenções estivessem voltadas às economias emergentes, pelas taxas de crescimento de 2010, faltou colocar em prática o discurso de que as respostas para recuperar a economia mundial podem advir desses países.

A representação dos EUA, por exemplo, falou em "fim da era keynesiana", dando novo fôlego às políticas que têm causado instabilidade na Europa: corte de gastos, com incidência direta nos programas sociais.

O resultado dessa doutrina, que foi imposta pelo FMI à América Latina nos anos 1990, será "mais do mesmo": uma recuperação tímida a longo prazo, ao custo do agravamento da vulnerabilidade social da população.

Há inúmeros exemplos por toda a Europa de governos que, mesmo convivendo com altas taxas de desemprego, vêm reduzindo benefícios -seguro-desemprego, aposentadorias e programas sociais-, piorando o cenário de aperto sobre os trabalhadores.

Isso representa exatamente o oposto da concepção de desenvolvimento que vigora no Brasil desde o início do governo Lula e que nos levou a enfrentar a crise como poucas potências foram capazes: um Estado ativo, indutor do crescimento e redutor de desigualdades. É um exemplo que as nações que participam do Fórum Econômico Mundial não devem ignorar.



José Dirceu é advogado e ex-ministro da Casa Civil