O que Dilma quer da China

Veículo: Valor Econômico
Seção: Brasil
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O que Dilma quer da China Já são milhares, pelo menos 2 mil, os trabalhadores brasileiros "exportados" por empresas do setor calçadista, para produzir lá calçados que antes saíam do Brasil - e de lá serem vendidos a clientes tradicionais. O setor têxtil já ensaia movimento semelhante, e é cada vez maior a parcela de componentes e maquinário chineses na produção industrial brasileira. Desencorajar empresas, no Brasil, que planejam seguir esse caminho é uma das razões de ameaças de barreiras contra os chineses feitas por autoridades brasileiras nas última semanas. Os chineses estarão em uma das últimas escalas da série de viagens da presidente Dilma Rousseff neste semestre, mas nem de longe têm menor importância para a política externa do novo governo. Dilma herda de Luiz Inácio Lula da Silva projetos de parceria com a China, em áreas tão diversas quanto finanças internacionais e ambiente. Quer manter esses projetos enquanto também vê o país asiático como parte de sérias preocupações com as contas externas do Brasil. O governo, que se incomoda com a proporção cada vez maior de bens de baixo valor agregado na pauta de exportações, impulsionada pela demanda chinesa de commodities, teme, ainda, a tendência de migração de empresas e fornecedores para a China, e quer mudar a situação. Mas não é só desestimular a migração de fábricas e troca de fornecedores nacionais por asiáticos a estratégia da equipe de Dilma, ainda embrionária. O ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, auxiliado pelo novo secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex), Emílio Garófalo, já começou a investigar a pauta de exportações da China ao Brasil, para identificar mercadorias compradas dos chineses em grande quantidade, com peso expressivo na balança comercial brasileira. A intenção, nesse caso, é mudar o procedimento usual das ações de defesa comercial, como sobretaxas punitivas aplicadas sobre mercadorias acusadas de dumping - venda a preço abaixo do normal. São as empresas ameaçadas quem acionam o governo para aplicar barreiras sobre os concorrentes acusados de deslealdade. Sob o argumento de que há muito desconhecimento no setor privado sobre mecanismos de defesa contra importados, o governo tomará a iniciativa, e buscará setores empresariais para indicar produtos com potencial para sofrer barreiras de entrada no Brasil. O interesse governamental será, evidentemente, despertado por aqueles produtos com maior peso na balança, cuja substituição por fornecedor nacional seria capaz de ter impacto nas contas externas. Restringir compras chinesas pode ser um tiro no pé Paralelamente, o Ministério do Desenvolvimento e o Itamaraty devem agregar à discussão com os chineses a reivindicação para mudar a pauta de vendas à China e aumentar a percentagem de produtos industriais e mais sofisticados. Não é tarefa fácil. O especialista em China da Strategus Consultoria, Rodrigo Maciel, que esteve em Brasília recentemente, chamado pela embaixada chinesa para saber o que esperar do governo brasileiro, lembra que, além de haver pouco interesse do setor privado em desbravar o mercado chinês, a maioria das grandes exportadoras industriais do Brasil é de multinacionais, com suas próprias estratégias logísticas de venda ao país. Vale a pena negociar com os chineses compensações, vantagens como financiamento local para importações de mercadorias brasileiras e facilidades de entrada, reconhece Maciel. Essa estratégia é particularmente interessante no setor automotivo, onde poderia se tentar incluir fabricantes de autopeças brasileiras na cadeia produtiva das montadoras chinesas que cobiçam o mercado brasileiro. Mas é preciso saber o que queremos vender, e as barreiras oficiais de entrada no mercado chinês estão em produtos básicos como carnes, aponta o especialista. Ele alerta ainda que restringir importações chinesas pode ser um tiro no pé, já que são principalmente componentes eletrônicos, partes e peças, e maquinário, que dão competitividade a indústrias brasileiras. É consenso a falta de uma estratégia para a China. Ela será definida pela Camex, cuja primeira reunião, na segunda quinzena de fevereiro, deverá ter a presença da própria Dilma Rousseff. Hoje, Pimentel se reúne com o ministro de Relações Exteriores, Antônio Patriota, para discutir o assunto. Patriota, que já serviu na China como diplomata, tem duas aulas semanais de mandarim, língua que já domina razoavelmente. Obsessivo e disciplinado, Patriota é um auxiliar bem informado para aconselhar Dilma sobre a relação Brasil-China. O diplomata foi secretário-executivo da Comissão de Alto Nível Brasil-China (Cosban), criada em 2006, que só se reuniu uma vez, embora suas subcomissões tenham realizado acordos como o de cooperação em matéria de transgênicos, de 2010. Patriota quer buscar pontos de aproximação com os chineses, capazes de "encapsular" as desavenças comerciais e evitar que sejam um grande foco de atrito nas relações bilaterais. Uma das prioridades, diz ele, é pôr a Cosban para funcionar, o que a crise financeira e as eleições no Brasil dificultaram nos últimos anos. Foi a aliança com China, Índia e Rússia no chamado Bric que garantiu ao Brasil maior poder de voto no FMI, exemplifica Patriota, para quem temas como a competitividade chinesa e sua moeda desvalorizada são preocupação do governo, mas tendem a receber tratamento nos fóruns internacionais dos quais o Brasil participa ativamente. "Queremos elevar o nível do debate político", diz Patriota, que, em março, deve viajar a Pequim. "Enfrentamos questões da abundância, a China cresce muito, nós também, temos superávit de US$ 5 bilhões com eles", lembra. Desde o ano passado, o Brasil tem um Plano de Ação Conjunta, que prevê medidas para favorecer o comércio também do Brasil para a China. A fase de criação de planos e grupos bilaterais passou. Dilma deve saber que necessita de pragmatismo.