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Veículo: O Globo
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Algodão naturalmente colorido, Bio Denim, manteiga de cupuaçu. Esses são alguns dos materiais que chegaram com tudo à moda nesta última edição do Fashion Rio e sua bolsa de negócios, o Rio-à-Porter, realizada entre 10 e 13 de janeiro. A indústria fashion sustentável brasileira tem chamado tanto a atenção que o comprador da Selfridges Gary Edgley veio ao Rio para conhecer de perto a produção daqui.

 

A agenda carioca de Edgley incluiu o desfile da Natural Cotton Color, um grupo brasileiro que estreou nas passarelas do Rio-à-Porter, no Píer Mauá. O comprador inglês gostou tanto do que viu que deu início às negociações para vender peças da marca em Londres. Ficou combinada, inclusive, uma visita de Francisca Vieira, coordenadora do grupo, à Inglaterra, em fevereiro, para apresentar a coleção lá.

 

Fundada na Paraíba, o Natural Cotton Color é uma marca que trabalha com algodão naturalmente colorido a partir de sementes desenvolvidas pela Embrapa. O material “nasce” em quatro cores: cru, nude, ferrugem e musgo. E exatamente por já nascer com cor, ele não agride o ambiente, pois dispensa tingimento químico, economizando 70% da água que seria consumida no processo convencional.

 

O grupo paraibano costuma trabalhar com artesãs locais e presidiárias (a cada três dias de produção, são menos 24 horas da pena). Além disso, o algodão é plantado por pequenos produtores para incentivar a agricultura familiar. No desfile, eles lançaram uma linha de peças feitas em macramê, técnica utilizada normalmente para fazer redes.

 

Conhecida no mercado fashion por promover a moda ética mundo afora, a francesa Isabelle Quéhé, que também veio ao Rio este mês, explica que a sustentabilidade na indústria fashion vai além da preservação do meio ambiente:

 

— A moda ética é aquela que respeita o ser humano, além de ajudar e incentivar os países a criarem novos empregos, ajudando as pessoas necessitadas. Ela se propõe a ajudar a proteger o futuro da nação. Ou seja, é moda para um mundo melhor.

 

Isabelle esteve no Rio este mês para apresentar um desfile coletivo com 20 grifes de diversos países, como Vietnã e França. A apresentação foi realizada dentro do Fashion Business, salão de negócios de Eloysa Simão que ocorreu simultaneamente ao Rio-à-Porter. Além de mostrar a coleção ética, a francesa também fez uma palestra para propor, aos estilistas e empresários, um modo de ampliar os negócios e, ao mesmo tempo, combater a pobreza e contribuir para o desenvolvimento de comunidades carentes.

 

— Ainda é mais caro investir em moda sustentável se compararmos com algumas marcas, principalmente as de fast fashion — explica Isabelle, que promove a Ethical Fashion Show, em Paris, paralelamente à semana de moda francesa. — Os tecidos são especiais, como o algodão orgânico e o PET. Então, como o mercado ainda é pequeno, pode ser que custe mais caro, mas isso é questão de tempo. Não acho que a moda sustentável seja mais cara do que muitas grifes por aí.

 

Outra grife que mostrou seus produtos sustentáveis, com um estande no Rio-à-Porter, foi a Raiz da Terra Green, especializada em peças ecologicamente corretas. Entre as novidades, um tênis feito com borracha de látex da Amazônia e tecido de Bio Denim, cujo desenvolvimento custou à empresa mais de R$1 milhão. Criada em 2003, a Raiz da Terra Green produz cerca de 100 mil peças ao ano — incluindo uma calça que leva manteiga de cupuaçu e tem ação hidratante — e exporta para Espanha, Itália, Reino Unido e França.

 

Aproveitando o interesse pelo tema, a consultora de moda e apresentadora Chiara Gadaleta, em parceria com a ativista e designer carioca Viviane Martins, lançou, durante a semana de moda do Rio, o Instituto Ser Sustentável com Estilo (o #SSE), com uma apresentação no Palácio Gustavo Capanema. O projeto se consolidou depois de quatro anos de pesquisa no setor. Um dos principais objetivos, diz, é organizar o mercado para receber o que chama de “nova era da moda”, ou seja, a moda ética.

 

— Falta união e força nesse mercado de moda sustentável. Estamos escrevendo essa história juntos. Então, precisamos de controvérsias e ajustes no setor. O mais importante é provocar questionamento, promover discussões e mostrar como a moda pode ser agente de transformação — afirma Chiara, que ensina ainda como o consumidor pode contribuir para o crescimento da moda ética. — O primeiro passo é escolher bem as peças para comprar: verificar a etiqueta, ver onde foi a roupa foi feita. É preciso pressionar e questionar.