Não a uma nova guerra fria

Veículo: O Globo
Seção:
Página:

Não a uma nova guerra fria

Uma comparação entre as duas últimas viagens de Hu Jintao aos EUA: há quatro anos, o governo Bush classificou a visita de oficial e ofereceu-lhe apenas um almoço. Agora, Barack Obama estendeu o tapete vermelho para uma visita de Estado, com direito a salva de 21 tiros e banquetes. O fato não reflete apenas o aumento avassalador da importância da China. Revela também a atitude mais inteligente do atual presidente de contribuir para que a relação bilateral caminhe, não no sentido de nova guerra fria, mas da criação de mecanismos de consulta e de entendimento.

 

Hu se disse partidário de aumentar os contatos e a colaboração com os EUA, intensificar e agilizar “o intercâmbio entre os exércitos” e “facilitar também a relação direta entre as sociedades”. Obama afirmou não ter qualquer temor de que a China mantenha seu crescimento (mais de 10% em 2010, frise-se) durante muitos anos. “A ascensão da China é boa para os EUA e para o mundo”, afirmou.

 

Ficou claro que a visita de Hu demonstrou a vontade do governo chinês de fazer valer sua nova condição de potência ascendente. Coube a Obama a tarefa de lembrar ao visitante o quanto decepciona o Ocidente a conduta chinesa em relação aos direitos humanos. O presidente americano se referiu ao Prêmio Nobel Liu Xiaobo, preso e impedido por Pequim de ir à cerimônia de premiação por ser um dissidente. Numa entrevista, repórteres insistiram com Hu sobre o tema e o líder chinês saiu-se com a inédita admissão de que “ainda há muito o que fazer em termos de direitos humanos” em seu país. Como num lembrete do abismo entre a democracia americana e a ditadura chinesa, a imprensa de Pequim omitiu a declaração.

 

A China, com parte de sua reservas composta por quase 1 trilhão de dólares, é a principal financiadora dos déficits americanos e tem, portanto, todo o interesse em que a economia dos EUA se recupere. Essa disposição ficou expressa na visita de Hu, com a assinatura de acordos de exportação de produtos americanos para a China no valor de US$ 45 bilhões. Obama pôde anunciar que esses negócios garantem 235 mil empregos nos EUA — um dos principais desafios de seu governo. Outras medidas importantes foram o anúncio da disposição chinesa de fazer mais para proteger a propriedade intelectual e de modificar a política que favorece produtos chineses nas enormes compras governamentais. Por outro lado, houve pouco progresso na meta americana de convencer Pequim a permitir a valorização de sua moeda. O yuan subvalorizado barateia os produtos chineses no exterior e encarece os americanos (e de qualquer país) no mercado chinês. Algo semelhante ao que ocorreu com o Japão na década de 70 e que obrigou Washington a pressionar pela valorização do iene. A diferença é que o Japão, além de uma democracia, é um aliado.

 

Os dois lados tiveram dificuldades com o tema da Coreia do Norte, mas um comunicado pediu diálogo entre as duas Coreias, algo que os EUA defendem, enquanto a China prefere o reinício das conversas multilaterais. Pela primeira vez, Pequim expressou preocupação com a usina de enriquecimento de urânio norte-coreana. Sinal de que sua liderança está mais disposta a assumir suas responsabilidades junto à comunidade internacional.