Cotada abaixo de R$ 1,70, dólar muda o perfil dos gastos dos brasileiros

Veículo: Correio brasiliense
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Cotada abaixo de R$ 1,70, dólar muda o perfil dos gastos dos brasileiros

O mesmo real valorizado que tira o sono de exportadores e também a competitividade da indústria faz a alegria do brasileiro que consegue satisfazer o desejo de viajar ao exterior ou de fazer compras diferenciadas. Desde o início de 2009, a divisa brasileira valorizou-se 40% frente ao dólar, chegando ao patamar atual de R$ 1,70 — ontem, fechou a 
R$ 1,673. Tal qual ocorreu noutros momentos de moeda forte no país, pacotes turísticos, equipamentos eletrônicos, vinhos e outros produtos ficaram mais baratos em reais e tiveram as vendas turbinadas. 

O acesso maior a serviços e a produtos sofisticados — ou simplesmente mais baratos que os similares nacionais — segura um pouco da inflação a curto prazo e ainda impulsiona negócios no país, como viagens internacionais e comércio de artigos importados. Mas analistas lembram que ter moeda muito valorizada traz benefícios ao consumidor, mas prejudica a economia do país. 

“O câmbio tem impacto direto na balança comercial, deixando o produto brasileiro mais caro para vender lá fora e, na contramão, estimulando a invasão de qualquer importado, com efeitos danosos para a produção industrial e os empregos”, resumiu Flávio Basílio, professor de economia da Universidade de Brasília (UnB). Ele acrescenta que a escolha pelo importado é racional, porque a diferença de preços entre os produtos reflete muito mais que o câmbio. “O consumidor, sobretudo de classe média, é inteligente ao comparar e perceber a chance em aproveitar a vantagem, considerando que nossa economia não é completamente aberta”, disse.



Vantagem

Desde 1997, ano marcado pelo chamado “boom dos importados”, diversas novas marcas passaram a fazer parte do cotidiano do país e deram percepção mais larga de qualidade aos consumidores, como Francisco Maia Farias, 60 anos. Ele sempre compra vinhos e foi estimulado pela redução dos preços. “Agora, tenho acesso a rótulos sul-africanos e californianos, que eram caríssimos. Posso até presentear amigos com bebidas que antes não compraria nem para mim”, comentou. A seu ver, há diferença expressiva entre os valores. Garrafas que custavam R$ 150, por exemplo, podem ser encontradas por R$ 60. “Quase todas as bebidas e os alimentos importados, até chocolate, estão muito baratos. Acaba não sendo vantagem comprar produto nacional.” 

Carolina Moraes, diretora comercial da Vintage — rede especializada em vinhos —, explica que o produto importado é mais competitivo não apenas em razão do câmbio. O concorrente brasileiro tem ainda de arcar com custos altos de produção, que não se vê no exterior. “Atualmente, revender importados é um excelente negócio”, observou. Vários itens importados chegam ao Brasil com preços menores não só em função do enfraquecimento do dólar, mas também porque têm estruturas de custos (tributos e encargos) menores ou ficaram mais baratos em seus próprios mercados em razão da queda da demanda.



Dinamismo

Simão Davi Silber, professor de economia da Universidade de São Paulo (USP), avalia que a expansão acelerada do consumo de importados é o resultado da soma de aumento do poder de compra do brasileiro com sua compulsão consumista. “Somos culturalmente mais inclinados a gastar do que poupar”, observou. Ele reconhece que o real forte confere maior “bem-estar material” e melhoria do padrão de vida, além de dar novo dinamismo ao comércio em geral. Esse aspecto esconde, contudo, o efeito negativo sobre as contas externas do país. 

O saldo comercial ainda é positivo, mas está diminuindo com o avanço de manufaturados da China, que mantém o câmbio desvalorizado artificialmente. Só em 2010, o real valorizou-se 5%, bem menos do que outras moedas, como o iene japonês (14,68%). Entretanto, com a economia doméstica superaquecida, empresários dizem que o câmbio está levando a um processo de desindustrialização no Brasil.



ALERTA DO BC

Na primeira coletiva de imprensa que deu, no começo do mês, o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, alertou os consumidores para o risco de se endividarem em moeda estrangeira. “O câmbio é flutuante e flutua para cima e para baixo”, lembrou. O aquecimento do mercado de trabalho e o câmbio favorável foram as razões apontadas pela autoridade monetária para a expansão acelerada do consumo de importados e de viagens ao exterior.



Viagens são preferência 

Para muitos, real forte é sinônimo de viagens internacionais. “Fica mais barato ir para fora do que ir para o Nordeste. Quando fui pela primeira vez aos Estados Unidos, em 2007, paguei mais de R$ 2 mil pelas passagens. Ano passado, saiu por R$ 1,3 mil”, contou a nutricionista Daniele Martinez de Sena, 27 anos. Ela trabalhou no país e voltou depois a passeio, graças à queda do dólar. “O ideal é ir uma vez por ano, tanto pelo lazer, quanto pelas compras”, sugeriu Daniela, que pretende comprar o enxoval de seu futuro bebê no exterior. “Com o dólar caro, não teria condições.” 

A advogada Flávia Tavernard Braz, 35 anos, também comprou passagem para os EUA. Será a sua primeira viagem ao país, em outubro. “Aproveitei que o dólar está valendo menos. Desembolsei R$ 933. Achei muito barato”, disse. Flávia geralmente fazia encomendas aos amigos que deixavam o país. “Pedia principalmente itens de maquiagem e perfume. Agora, eu mesma vou comprar.” 

O Office of Travel and Tourism Industries, autarquia do Departamento de Comércio do governo americano, informa que o número de turistas brasileiros nos EUA alcançou em 2010 a marca histórica de 1,2 milhão, com a maioria desembarcando em Miami e Nova York. Outros 900 mil escolheram Buenos Aires, o dobro do ano anterior. Os gastos dos brasileiros no exterior também bateram novo recorde no ano passado. O Banco Central estima um total de despesas de US$ 16,5 bilhões, o maior valor da série iniciada em 1947 e um crescimento estimado superior a 50% sobre 2009. 

Apesar do aumento dos valores das tarifas aéreas em razão da demanda elevada, a valorização do real deverá continuar sustentando o aquecimento das vendas. A Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav) prevê expansão de 15% este ano.