Melhor para a China

Veículo: Revista Época
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Melhor para a China

A Casa Branca assistiu na semana passada a um jogo diplomático do mais alto escalão possível. Aparentemente, terminou empatado, mas na prática quem ganhou foi o visitante. No encontro do presidente chinês, Hu Jintao, com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em Washington, cada um sabia bem seu papel. Obama tinha de desfazer a impressão de fraqueza deixada por sua ida a Pequim em 2009. A Hu cabia, então, se defender da esperada ofensiva de Obama sobre a desvalorização artificial da moeda chinesa (iuane), que desequilibra a seu favor a balança comercial com os Estados Unidos. E, principalmente, driblar as cobranças na questão dos direitos humanos. Ambos executaram bem suas missões. Como o líder chinês saiu sem fazer concessões, porém, voltou para Pequim com ar de vitorioso. 

Não que Hu tenha feito só um passeio por Washington. Ele foi constrangido publicamente durante uma coletiva de imprensa ao lado de Obama ao ser questionado sobre o “histórico da China na questão dos direitos humanos”. A princípio, fingiu que não ouviu. Indagado pela segunda vez, culpou uma falha na tradução da pergunta e fez uma rara declaração. “Muito ainda precisa ser feito na China em termos de direitos humanos”, disse Hu, diante de Obama, o penúltimo vencedor do Nobel da Paz – ironicamente, Hu mantém na cadeia o último premiado, o dissidente Liu Xiaobo. Como protesto, o presidente da Câmara, o republicano John Boehner, e o líder democrata no Senado, Harry Reid, se recusaram a ir ao jantar de gala oferecido pela Casa Branca ao líder chinês. Reid chegou a chamá-lo de “ditador”. Depois, desculpou-se. 

Para Hu, pouco importou. O que valia era os chineses esquecerem que, em sua passagem anterior por Washington, em 2006, o então presidente, George W. Bush, só lhe serviu um almoço, o que foi visto como desprezo. Agora, apesar das saias justas, Hu foi tratado como um igual. A dócil imprensa chinesa simplesmente ignorou a parte dos direitos humanos. Destacou, é claro, as declarações de respeito mútuo às diferenças entre os países. 
Questionado sobre direitos humanos, Hu Jintao disse apenas que “muito ainda precisa ser feito” 

O presidente chinês voltou a Pequim sem ter cedido quase nada aos americanos. Além do frágil reconhecimento de problemas com seus opositores, Obama só arrancou de Hu a assinatura de acordos comerciais que devem elevar as exportações americanas à China em US$ 45 bilhões. Mas o acerto já estava feito bem antes da visita, e o montante é pouco diante do déficit comercial dos EUA nas relações com Pequim: US$ 252 bilhões em 2010. Obama pode incluir em sua conta o fato de Hu ter dito a uma plateia de empresários que seu país não tem uma política militar expansionista nem quer “ameaçar ninguém”. Pode ser algo que tranquilize o Pentágono e o Departamento de Estado, mas só ressalta o verdadeiro foco chinês: ultrapassar os EUA como maior economia do mundo (algo que deverá ocorrer entre 2020 e 2030). Ganhar o respeito do principal rival nessa disputa era o que faltava, especialmente quando o regime comunista inicia um período de transição até o fim do mandato de Hu, em março de 2013. Ouvir perguntas incômodas ou ser rejeitado por convidados em um jantar foi um preço pequeno, ainda mais quando se sabe que isso em nada vai mudar o rumo chinês.