Mercado de trabalho em 2011 será puxado pela construção civil e comércio

Veículo: Correio Braziliense Online
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Mercado de trabalho em 2011 será puxado pela construção civil e comércio Os setores que mais impulsionaram o crescimento da economia no ano passado também abriram o maior número de postos de trabalho. Essa lógica tem tudo para se repetir em 2011. O mercado será promissor para as atividades ligadas diretamente ao desenvolvimento do país, como construção civil, comércio, infraestrutura, tecnologia da informação e educação. Grandes eventos como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 devem esquentar ainda mais a demanda por profissionais qualificados. Não faltam motivos para apostar na expansão das vagas formais. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados ontem pelo Ministério do Trabalho, revelam que, entre janeiro e dezembro de 2010, o país criou 2,52 milhões de empregos com carteira assinada — novo recorde histórico da série iniciada em 1992. O melhor resultado para o ano havia sido registrado em 2007, quando foram abertos 1,61 milhão de postos. Entre 2003 e 2010, o total chegou a 15 milhões. A meta estabelecida pelo ministro Carlos Lupi era de alcançar 2,5 milhões de empregos. A marca foi atingida, mas para isso o governo contabilizou, pela primeira vez, empregos declarados fora do prazo de entrega da declaração que é encaminhada às empresas e depois recolhida pelo governo. Essas informações, geralmente anexadas à Relação Anual de Informações Sociais (Rais) no segundo semestre de cada ano, somaram 387,7 mil vagas em 2010. Caso a metodologia tivesse sido alterada, teriam sido registrados 2,13 milhões de empregos com carteira assinada em 2010. Lupi justificou que não houve manipulação. “Não sou leviano para maquiar números. Quem sabe ler sabe que o governo não brinca com números. Apenas fizemos uma antecipação dos dados”, reagiu o ministro. O saldo projetado pelo Ministério do Trabalho para 2011 é de 3 milhões de vagas. Mestre de obras há quatro anos, Damião Salviano está confiante. A construção civil será um dos carros-chefes do emprego neste ano. “Indico a profissão para qualquer um. Temos muitas chances de crescer. Comecei como carpinteiro e hoje estou aqui”, disse. Salviano trabalha cerca de nove horas por dia e recebe quase cinco salários mínimos por mês. Especialistas acreditam que o bom momento do mercado de trabalho virá marcado não apenas por mais vagas, mas também por renda. A equação é simples: com a criação de postos, o número de profissionais qualificados disponíveis ficará menor. Para conseguir pessoas capacitadas, as empresas terão de oferecer salários melhores ou fazer o treinamento de sua própria equipe. “Não há profissionais qualificados. Para a empresa, é difícil segurar um bom trabalhador. Ele logo recebe uma proposta melhor e vai até para o exterior”, disse o engenheiro civil Gustavo Rondon. Com a necessidade de investimentos na formação dos trabalhadores, o próprio setor de educação deve crescer e abrir mais vagas. Previsões da Euromonitor, empresa de pesquisas e análises de mercado, indicam que a expectativa de crescimento da área será de 9,6% ao ano no Brasil até 2020. Para o professor de história Eduardo Resende Rocha, 29 anos, esse movimento já pode ser sentido no dia a dia. “Quando me formei, em 2007, recebia R$ 3,50 por hora/aula. Hoje, ganho R$ 15”, resumiu. Anselmo Luiz Santos, diretor-adjunto do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas (Cesit/Unicamp), ressaltou que outra medida importante para melhorar a qualidade do emprego é tirar do papel a reforma trabalhista. “Ela não aumentaria o número de vagas, mas aperfeiçoaria as relações de trabalho, a produtividade dos empregados e a capacidade do país de gerar riquezas”, destacou. A solução para a falta de pessoas capacitadas passa, necessariamente, por mais investimentos em educação e formação profissional. “O governo precisa fazer uma definição rápida sobre a política de qualificação profissional, para corrigir as mazelas do ensino. Se, nos anos 1980 e 90, a capacitação podia ser um peso, pois sobravam trabalhadores com formação, hoje a realidade é diferente”, justificou o especialista da Unicamp. O avanço do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano cairá quase à metade na comparação com 2010 — de 7,5% para 4,5% —, mas nem isso chega a preocupar os analistas. “As perspectivas são boas. O setor de serviços vai continuar puxando a criação de vagas. Além disso, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o Minha Casa Minha Vida vão impulsionar a construção civil”, completou Anselmo Luiz dos Santos. Dúvida Especialistas acreditam que, embora o Brasil continue a abrir vagas de emprego em 2011, é pouco provável que o país alcance a marca de 3 milhões de postos estipulada pelo ministro Carlos Lupi, dado o cenário econômico esperado para este ano. Além das projeções que mostram a queda no crescimento do país, a expectativa é que hoje o Banco Central aumente a taxa básica de juros (Selic) em 0,5 ponto percentual (de 10,75% para 11,25% ao ano) para controlar a inflação — um tranco na atividade. Serviços lideram a criação de vagas O setor de serviços liderou a criação de empregos com carteira assinada em 2010, com a abertura de 1 milhão de vagas. Depois dele, destacam-se comércio (601,8 mil), indústria de transformação (536 mil) e construção civil (329,1 mil). Para o Ministério do Trabalho, os serviços foram influenciados pelo desempenho do turismo, devido à movimentação em restaurantes, bares e hotéis, entre outros segmentos. “Puxado pelo consumo das famílias, o setor de serviços deve permanecer como o carro-chefe do aquecimento da economia”, avalia o economista da Fundação Getulio Vargas (FGV) Aloisio Campelo. De fato, dados do Produto Interno Bruto (PIB) revelam que o setor de serviços já representa mais de 60% da geração de riquezas do país. O segmento movimentou R$ 529,8 bilhões entre julho e setembro, com aumento de 1% ante os três meses anteriores. A agropecuária e a indústria apresentaram quedas de 1,5% e 1,3%, respectivamente. No balanço do governo, o único setor que registrou queda na criação de vagas foi a agricultura, com a redução de 2.580 postos de trabalho no ano. “Há mecanização no campo, principalmente nas culturas sucroalcooleiras. Além disso, como o mercado está muito aquecido, há muitas admissões e muitas demissões, e o resultado acabou negativo”, reforça o ministro Carlos Lupi. Na comparação entre as Regiões, o Sudeste criou o maior número de postos (1,2 milhão), seguido do Sul (444,7 mil), do Nordeste (488,5 mil), do Centro-Oeste (178,2 mil) e do Norte (136,2 mil).