Queda do dólar esquenta o debate sobre a desindustrialização no Estado de Santa Catarina

Veículo: Jornal Floripa
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Indústria aumentou as exportações em 17,9% este ano


Desindustrialização – palavra que tem frequentado os discursos de economistas, políticos e empresários nos últimos meses. Este termo foi cunhado para definir o temor de que o país comece a entrar em um processo de enfraquecimento da indústria em detrimento do setor de serviços, que segue em franca ascensão.


O medo é sustentado por alguns números. A indústria já foi responsável, por exemplo, pela geração de 34% das riquezas que constituem o PIB (Produto Interno Bruto). Hoje, este índice está perto dos 25%. Mas por que só agora ouvimos falar em desindustrialização? Porque o dólar está baixo.


A moeda americana passou o ano na casa de R$ 1,70. Neste patamar, os importados ficam bem mais acessíveis e inundam as prateleiras dos brasileiros. E pior: com o real valorizado, os produtos feitos por aqui ficam mais caros para os estrangeiros, o que impõe uma barreira gigantesca para a exportação. Assim, a indústria brasileira perde clientes e competitividade lá fora, reduzindo os lucros aqui dentro.


Para barrar a desindustrialização, as entidades representativas veem uma solução clara, porém complexa.


Segundo Glauco José Côrte, vice-presidente da Fiesc (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina), o Brasil precisa de uma reforma estrutural profunda – uma série de mudanças que poderiam deixar o país mais competitivo e moderno.


Na lista da reivindicações estão a redução dos gastos públicos, queda acentuada dos juros, diminuição da burocracia e unificação das leis do ICMS – imposto que costuma ser usado nas guerras fiscais entre Estados.


“A desindustrialização é recente, mas não a sua causa. Agora está aflorando porque a desvalorização do dólar acelerou e expôs um problema que tem origem na estrutura da economia brasileira”, alerta Corte.


Segundo corte, Santa Catarina precisa ficar ainda mais alerta a esses problemas. Afinal, é um estado altamente industrializado e a fragilidade deste setor pode contaminar toda a economia da região.


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Serviços concentram o PIB nos países desenvolvidos


Olhando-se para os países mais ricos do mundo, como Estados Unidos, Japão e Inglaterra, o processo de desindustrialização aparentemente é positivo. Lá, a maior parte do PIB é produzida pelo setor de serviços e a indústria deixou de ser o motor da economia há muito tempo, ou seja, desindustrialização é vista como um passo da evolução.


Porém, especialistas acreditam que não se pode fazer um paralelo direto entre a história dos países ricos com a do Brasil.


“A desindustrialização tem seu lado positivo, mas no Brasil ela está ocorrendo cedo demais. O setor ainda tem muito o que produzir e muito o que enriquecer o país”, afirma Glauco José Côrte.


Para o professor e coordenador da pós-graduação em Economia UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Hoyêdo Nunes Lins, a perda da importância da indústria foi sinônimo de modernização no passado, mas isso não significa que a mesma trajetória tenha validade para todos os países.


“A história mostrou que as etapas do desenvolvimento nem sempre se repetem. Um país pode ter uma economia terciária (focada nos serviços), mas apresentando uma situação de geração de renda e emprego muito precária”, alerta o professor.


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Temor não freia investimentos em SC


Apesar do temor da desindustrialização assustar muita gente, o futuro próximo tende mais para a prosperidade do que queda na produção. Uma recente pesquisa da CNI (Confederação Nacional da Indústria) levantou que 90% das empresas industriais planejam investir em 2011. Os recursos miram, principalmente, no mercado interno que deverá concentrar 77,8% do total do dinheiro.


Em média, as empresas deverão investir cerca de R$ 6,8 milhões. Esse valor é 7% a mais do que os R$ 6,344 milhões registrados neste ano. Se compararmos com 2009, o crescimento é ainda mais substancial. Naquela época, ano de crise, o investimento médio foi 80% maior, o que fez a produção levar um tombo significativo.


Esses dados comprovam que o otimismo ainda tem espaço no setor. A principal alavanca de crescimento é o mercado doméstico. Para a indústria, a esperança de aumento na produção vem da necessidade de garantir o abastecimento da demanda interna, e não mais para atender a exportação.


Dólar, os dois lados da moeda
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Kuhn afirma que ainda não há risco para a indústria de SC


O dólar em baixa, considerado um dos maiores vilões da indústria, tem também seu lado positivo e favorece outros setores da economia. Entre eles, o varejo, composto por supermercados, lojas e shopping centers. Graças ao real valorizado, o comércio tem acesso a produtos importados com preços bem mais em conta. Além disso, algumas matérias primas vêm de outros países e ajudam a conter a inflação. É o caso do trigo. Cerca de 70% do grão consumido no Brasil vem da Argentina. Com o câmbio em condições favoráveis, produtos do dia a dia como pães e massas são beneficiados e os consumidores conseguem bons preços.


“Este cenário faz com que muitos produtos feitos em outros países, como a China, cheguem aqui com preços altamente competitivos. Além disso, indústrias nacionais importam grande parte da produção e apenas embalam a mercadoria no Brasil”, afirma Sílvio Lummertz Silva, consultor da área do varejo.


Cabe ressaltar que a própria indústria se aproveita do dólar baixo. Como? Importando maquinário e equipamentos com preços mais acessíveis para modernizar as fábricas.


Segundo Ulrich Kuhn, presidente do Sintex-Blumenau (Sindicato das Indústrias de Fiação, Tecelagem e do Vestuário), a grande parte dos importados que chegam hoje ao Brasil vem em forma de matéria-prima para abastecer a indústria, como algodão e tecidos. Já os produtos acabados (pronto para consumo), ainda estão longe de dominar o mercado.


De acordo com Kuhn, apenas 5% dos produtos acabados vendidos no Brasil vêm do exterior.


“A desindustrialização é uma ameaça ao futuro do Brasil, mas se fizermos uma radiografia hoje, ela não vale, ainda não está presente”, afirma.


O que é desindustrialização?


Em geral, o termo se refere ao processo em que o setor industrial perde força e espaço na economia de um país. Porém, também pode se referir quando o setor, em busca de modernização, adquire bens e materiais do exterior e deixa de comprar produtos feitos no país, enfraquecendo a cadeia de comércio


O Brasil está em desindustrialização?


Apesar da representação da indústria no PIB ter caído, o país ainda possui uma indústria forte e que consegue manter-se em crescimento. Porém, o temor é que problemas crônicos de hoje levem a uma desindustrialização amanhã


O que causa a desindustrialização?


São vários fatores. Em geral, as entidades reclamam dos altos impostos, da precária infraestrutura (como estradas e portos) e das questões trabalhistas que encarecem a mão de obra. O resultado disso tudo é queda na competitividade e preços de produtos nacionais mais caros do que os praticados em outros países


O real forte também é culpado?


Sim. Isso porque com o dólar baixo os brasileiros optam mais em comprar produtos do exterior. Além disso, o real forte deixa os produtos nacionais mais caros para os outros países, inibindo a exportação


Por que o dólar está tão baixo?


Um dos principais motivos é que o Brasil atrai muitos investimentos estrangeiros. Com dólares chegando ao mercado, o preço da moeda cai. Outra explicação é que os EUA emitiram US$ 600 bilhões. A ideia deles é inundar o mundo com dólar, baixar a cotação da moeda e incentivar as exportações americanas


A desindustrialização pode levar ao desemprego?


Sim. Com uma indústria fraca, o setor irá produzir pouco, venderá pouco e, por isso, precisará de menos empregados. Com demanda fraca, serão gerados menos postos de trabalho, ocasionando até mesmo demissões


Uma sociedade com muito serviço e pouca indústria não é sinal de desenvolvimento?


Sim, mas isso vale para Europa e Estados Unidos, onde a população tem alto poder aquisitivo. No Brasil, temem os empresários, a desindustrialização pode ocorrer cedo demais, quando o setor de serviços ainda não está sólido o suficiente para sustentar o crescimento econômico


- Como mudar a situação


Redução de impostos: diminuir a quantidade de impostos fará com que o preço final dos produtos fique mais baixo. Isso porque o custo de todas as taxas, alíquotas e impostos são repassados para o consumidor final e encarecem todas as etapas da produção


Infraestrutura: melhorar o sistema de portos, ferrovias, aeroportos e estradas permite que a indústria escoe seus produtos mais rapidamente. O custo de logística e a demora no transporte são componentes de peso no preço final da mercadoria


Custos trabalhistas: além do salário, a indústria brasileira paga outros encargos ao trabalhador que, somados, pesam no caixa da empresa. Esse leque de encargos aumenta o custo da produção e faz o industrial pensar duas vezes antes de contratar alguém


Juros: baixar os juros pode ser um bom remédio. Com juros baixos, há mais crédito na praça. Na prática, esse crédito significa mais dinheiro para ser investido na indústria, no emprego e na produção


Cotação do dólar: há pouco o que se fazer para fortalecer o dólar. Em alguns casos, o governo tenta controlar o câmbio comprando dólares no mercado ou subindo impostos no sistema financeiro para inibir a chegada de investimentos do exterior. Mas esses medidas têm pouco efeito prático


Educação: investir na educação significa preparar um país inteiro para ser mais competitivo. A educação melhora o desempenho dos trabalhadores e das empresas, seja pelo ensino básico, fundamental, médio superior ou técnico


Desempenho em 2010


Produção industrial: +6,9%


Venda industrial: +2,2%


Exportação: +17,9%


Emprego: +8,6%


Fonte: Fiesc