Pimentel deve reafirmar prioridade ao mercado interno

Veículo: Valor Econômico
Seção: Politica
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O economista Fernando Pimentel, 59 anos e nascido em Belo Horizonte em um 31 de março, estava destinado a ser ministro num governo de Dilma Rousseff antes mesmo da campanha eleitoral começar. Sua participação na Esplanada começou a se desenhar entre março e abril, quando tornou-se evidente que o PT não teria candidatura própria ao governo mineiro. Sua escolha para a Pasta de Desenvolvimento, Indústria e Comércio foi definida há três semanas e o anúncio se retardou porque o PT mineiro ainda tentava contemplar suas duas alas no primeiro escalão: além da de Pimentel, a chefiada pelo ex-ministro do Desenvolvimento Social Patrus Ananias. Embora o presidente do PT mineiro, o deputado Reginaldo Lopes (MG), ainda falasse na hipótese de Patrus receber uma cadeira no ministério, a possibilidade já era descartada por outros expoentes petistas, que chamavam a atenção sobre o tamanho do desastre que foi a participação do partido na eleição deste ano no Estado: Minas Gerais é o único caso no país entre os maiores Estados onde o PT não conseguiu eleger representante algum para governador, vice ou senador. O partido elegeu os governadores do Rio Grande do Sul e Bahia, além de senadores no Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo, Ceará e Pernambuco. Em Minas, Patrus perdeu a eleição para vice ao lado do senador Hélio Costa (PMDB-MG), que concorria ao governo, enquanto Fernando Pimentel conheceu sua primeira derrota eleitoral ao disputar o Senado. O ex-prefeito de BH entre 2001 e 2008 irá se tornar ministro de Dilma sobretudo por sua relação pessoal com a presidente. No ministério, Pimentel deverá se ausentar do debate político por pelo menos três anos. O petista comentou com alguns interlocutores que voltará à economia, sua área de origem. Na Pasta, deverá afirmar que a economia brasileira não deve ter como eixo condutor a exportação de commodities mas a produção industrial voltada ao mercado doméstico. A ligação entre Pimentel e Dilma é amplamente conhecida: os dois foram colegas do à época curso clássico no Colégio Estadual Central em BH, no começo dos anos 60. Ambos foram juntos para a luta armada e militaram na VAR-Palmares entre 1969 e 1970. Dilma foi presa em janeiro daquele ano. Pimentel, que saíra da VAR-Palmares para retornar à VPR, foi preso em abril, em Porto Alegre. Ficou dois anos e nove meses em regime de isolamento, seis meses em regime prisional normal e foi solto, sob condicional, em 1973. Como Dilma, Pimentel é egresso de uma família sem tradição em BH, mas que prosperou rapidamente. O pai de Dilma foi um imigrante búlgaro que tornou-se advogado da multinacional Mannesmann. O pai de Pimentel, um pastor da Igreja Metodista, que tornou-se dono de uma bem sucedida loja de estofados e cortinas, a BH Couros. A empresa ainda existe e em sua carteira de clientes, disponível na internet, são relacionadas empreiteiras como Andrade Gutierrez, Cowan e Odebrecht, e grandes empresas como Fiat, Vale, AngloGold Ashanti, Magnesita e Cemig. Durante a campanha deste ano, Pimentel disse que a empresa foi administrada pelo pai até sua morte, em 2008, e depois por irmãos e sobrinhos. Ele afirmou jamais ter participado da gestão da BH Couros. Com a redemocratização, Pimentel tornou-se professor assistente de economia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Da mesma forma que Dilma, também economista, desenvolveu obra acadêmica pequena, mas centrada na área em que vai atuar: em coautoria, escreveu em 1990 o livro "Balança comercial brasileira anos 80: uma hipótese sobre a origem dos megasuperávits" e a monografia "Avaliação do esforço exportador: Brasil e Minas Gerais 1980/1988". Fez ainda uma análise comparativa entre as estratégias comerciais do Brasil e da Coreia do Sul e publicou o folheto "comportamento da balança comercial: do ajustamento do início dos anos 80 ao Plano Cruzado", este em coautoria com o hoje diretor do BNDES, Mauricio Borges Lemos. Com Mauricio Borges, no anos 90, Pimentel começou a frequentar as reuniões do núcleo de economia do PT, coordenado pelo hoje ministro da Fazenda, Guido Mantega. A vitória de Patrus Ananias à Prefeitura de BH levou Pimentel para a Secretaria de Finanças em 1993, cargo em que ficou por sete anos. Pimentel conseguiu a proeza de permanecer no cargo mesmo com a divisão entre o PT e o PSB em 1996, que provocou a derrota do partido para Célio de Castro (PSB). Mas Célio aliou-se ao PT antes mesmo do segundo turno. Em 2000, Pimentel teve o apoio do candidato derrotado do PT à prefeitura quatro anos antes, Virgílio Guimarães, e venceu o então deputado Nilmário Miranda na disputa pela vice na chapa de reeleição de Célio de Castro. A vaga era disputada porque era sabido por todos que Célio não terminaria o mandato: o prefeito iria disputar o governo de Minas ou a Vice-Presidência em 2002. Mas Célio de Castro teve um acidente vascular cerebral em setembro de 2001 do qual jamais se recuperou. Pimentel assumiu a prefeitura e meses depois reencontrou Dilma, então uma das assessoras do presidente eleito naquele ano, Luiz Inácio Lula da Silva. Pimentel passou sete anos na prefeitura em conflito permanente com a ala comandada por Patrus, que não aceitou a sua decisão de aliar-se ao então governador mineiro, Aécio Neves, na eleição para sua sucessão em 2008, da qual resultou eleito Márcio Lacerda (PSB). Na ocasião chegou a ser convidado para deixar o PT e ingressar no PSB. Pimentel comentou a interlocutores que jamais considerou a hipótese, mesmo sabendo do risco de não conseguir ser candidato ao governo de Minas, como de fato não foi, dois anos depois. Ao longo deste ano, Pimentel dividiu-se entre duas disputas internas: a pública, contra a ala de Patrus Ananias, pelo controle do partido em Minas e a subterrânea, para garantir espaço no comando da campanha de Dilma, com o deputado estadual paulista Rui Falcão. Pimentel afastou-se de Brasília para ser candidato ao Senado. O resquício das brigas internas acabou fazendo chegar à imprensa um dos episódios mais polêmicos da campanha, a suposta articulação para se ter acesso a dados sigilosos de tucanos e parentes do candidato presidencial derrotado José Serra, que haviam sido vazados da Receita Federal.