Bovespa abriu semana em baixa e dólar caiu a R$ 1,682

Veículo: Folha de São Paulo
Seção: Geral
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A semana começou sem rumo claro nos mercados locais e externos. Sem indicadores de primeira linha na agenda, os agentes acompanharam as notícias que cercaram a reunião dos ministros de Finanças dos 16 países unidos pelo euro, que discutiam medidas que podem ser adotadas para estabilizar a região. Entre as propostas aventadas estavam a ampliação do pacote de estabilização de 750 bilhões de euros e a criação de uma agência de dívida europeia. A Alemanha não teria se mostrado favorável às indicações. Os agentes também assimilaram a entrevista que o presidente do Federal Reserve (Fed), banco central americano, Ben Bernanke, deu no fim de semana. Ele não descartou a possibilidade de ampliar o plano de compra de US$ 600 bilhões em títulos do Tesouro caso a economia não mostre reação. Também comentou que a taxa de desemprego, atualmente em 9,8%, pode levar de quatro a cinco anos até voltar para um patamar natural, que alguns estimam entre 5% a 6%. Ainda no mercado externo, chamou atenção a demanda por ouro e outros metais preciosos, o que indica mercado mais avesso ao risco. A onça de ouro negociada em Wall Street subiu 0,7%, para US$ 1.416, nova máxima histórica. A prata atingiu cotações não registradas nos últimos 30 anos, acima de US$ 30 a onça. No mercado local, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) teve um pregão de baixa oscilação e pouco volume de negócios. O Ibovespa variou apenas 554 pontos entre máxima e mínima até fechar com leve baixa de 0,31%, a 69.551 pontos. O giro foi de R$ 4,64 bilhões. O assessor de investimentos da corretora Souza Barros Luiz Roberto Monteiro assinala que, até o fim do ano, o movimento das bolsas deve ficar reduzido. “Vamos ficar vivendo de eventos corporativos, porque a recuperação da economia americana e de países europeus e a situação dos juros na China não devem sem resolver até o fim de 2010. O ano já acabou”, comentou. No cenário corporativo brasileiro, enquanto papéis de bancos e de empresas ligadas ao cenário doméstico pressionaram o Ibovespa, ações de companhias atreladas a commodities impediram perdas mais expressivas do mercado. Rumo definido apenas no câmbio. A cada pregão, uma nova baixa. Essa foi a regra para o preço do dólar nas últimas seis jornadas. No período, a moeda já perdeu 2,66%. Depois de ensaiar alta e subir a R$ 1,695, o dólar comercial fechou a jornada com depreciação de 0,29%, a R$ 1,682 na venda. Tal cotação é a menor desde 5 de novembro, quando a moeda fechou a R$ 1,680. O volume negociado no interbancário foi elevado, somando US$ 3,5 bilhões. Grande parte do dinheiro foi movimentado no período da tarde, quando o dólar firmou movimento de baixa. Na roda de pronto da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), o dólar pronto declinou 0,36%, para R$ 1,679. O volume subiu de US$ 129,25 milhões para US$ 130,75 milhões. Com mais essa queda, o dólar confirmou a perda da linha de R$ 1,70, preço que era considerado piso técnico e psicológico, após as medidas adotadas pelo governo para conter a valorização do real durante o mês de outubro. O diretor da Corretora Futura, André Ferreira, afirmou que, dada à transição de governo, o mercado não espera que o governo volte a tomar medidas para conter a valorização do real. Vale lembrar que, em outubro, o governo subiu o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) duas vezes, até atingir alíquota de 6%, para ingressos externos em renda fixa. Instituiu o mesmo percentual de tributação para os depósitos de margens necessários às operações na BM&F feitos por não residentes. Na visão de Ferreira, o dólar pode voltar a testar preço na linha de R$ 1,65, mínimas do ano. Segundo o especialista, não há incentivo à redução das posições vendidas (aposta pró-real) feitas no mercado futuro já que a previsão é de alta na taxa básica de juros. Fora isso, o Brasil continua bem avaliado pelos investidores internacionais. Ainda de acordo com Ferreira, as medidas tomadas pelo governo para conter a valorização do real também impedem que os agentes apostem contra a moeda brasileira quando o cenário é desfavorável. Afinal, a tributação imposta aos depósitos de margem na BM&F não fazem distinção entre posição comprada ou vendida. Com isso, o comprador de última instância continua sendo o Banco Central (BC), que mantém a política de compra diária no mercado à vista. O especialista também não descarta algum ingresso tardio de dinheiro rumo à Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). No mercado de juros futuros, passado o firme movimento de baixa que pautou o pregão de sexta-feira, os contratos ajustam para cima na BM&F. Vale lembrar que, na manhã da sexta-feira passada, o Banco Central anunciou uma série de medidas, como elevação dos depósitos compulsórios (fatia de recursos que os bancos não podem emprestar) e medidas restritivas ao crédito à pessoa física. As medidas classificadas de “macroprudenciais” levaram a uma reavaliação de expectativas, já que era crescente a percepção de que o BC poderia subir os juros já na reunião desta semana do Comitê de Política Monetária (Copom). O economista-chefe do Banco Schahin, Sílvio Campos Neto, nota que, sem novos eventos capazes de mudar a visão dos agentes, segue a expectativa de que o BC manterá a Selic estável em 10,75% na reunião desta semana. No entanto, como ficou barato apostar na alta dos juros, alguns agentes montam posições mesmo com baixa probabilidade de alteração da política monetária agora em dezembro. Na visão de Campos Neto, o BC ganhou tempo com as medidas anunciadas na sexta-feira e, assim, poderá esperar para ver o impacto delas sobre a economia e o que será feito, de fato, em termos de ajuste fiscal. O economista aponta que o mercado continua trabalhando com alta de juros já no primeiro encontro do Copom em 2011, mas pondera que uma definição dependerá da evolução de dados que serão apresentados até o encontro de 18 e 19 de janeiro. “A questão fiscal é crucial”, diz Campo Neto, apontando que o mercado acompanha as discussões sobre salário mínimo, orçamento e como será feito o corte de gastos que o governo vem propagando. Na agenda do dia, o Boletim Focus mostrou nova piora no prognóstico para inflação de 2010. A mediana para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu de 5,72% para 5,78%. Para 2011, no entanto, a previsão permaneceu em 5,20%, após três semanas seguidas de alta. Mesmo após 12 revisões para cima na projeção de IPCA para 2010, a expectativa é de Selic estável em 10,75%. A última reunião do Copom acontece na terça e quarta-feira. Para 2011, o juro previsto permaneceu em 12,25%. Dentro do Top 5 (grupo que mais acerta), o IPCA projetado para 2011 voltou a subir e supera 6%. A mediana saiu de 5,91%, para 6,05%. Cabe lembrar que tal previsão de inflação bem acima do centro da meta de 4,5%, contempla Selic a 12% no fim de 2011. Também na agenda do dia, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostrou que o nível de utilização da capacidade da indústria brasileira subiu a 82,2% em outubro, em termos dessazonalizados, após marcar 82% em setembro. Essa foi a primeira alta após cinco meses. Sem ajuste, o indicador se encontrou em 84,1% em outubro, contra 83,2% um mês antes. Antes do ajuste final de posições na BM&F, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2011, o mais líquido do dia, sinalizava avanço de 0,01 ponto, a 10,69%. Abril 2011 ganhava 0,03 ponto, a 11,11%. Julho de 2011 aumentava 0,04 ponto, a 11,60%. E janeiro de 2012 apontava 12,04%, valorização de 0,03 ponto. Ente os mais longos, janeiro de 2013 recuava 0,01 ponto, a 12,33%. Janeiro de 2014 mostrava estabilidade, a 12,19%. Janeiro de 2015 se encontrava em 12,05%, baixa de 0,02 ponto. E janeiro de 2016 caía 0,01 ponto, a 11,99%. Até as 16h10, foram negociados 1.562.950 contratos, equivalentes a R$ 150,21 bilhões (US$ 88,79 bilhões), decréscimo de 75% sobre o registrado no pregão anterior. O vencimento janeiro de 2011 foi o mais negociado, com 1.029.475 contratos, equivalentes a R$ 102,12 bilhões (US$ 60,36 bilhões). (Eduardo Campos | Valor)