FMI apoia medidas para reduzir entrada de recursos estrangeiros nos países

Veículo: Correio Braziliense Online
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Da Redação

Tradicional defensor de instrumentos ortodoxos de política econômica, o Fundo Monetário Internacional (FMI) admitiu ontem o uso de controles de capital para combater a formação de bolhas financeiras e o fluxo exagerado de investimentos estrangeiros, que valorizam excessivamente as moedas nacionais em relação ao dólar. Após reunião com representantes de bancos centrais em Xangai, na China, o diretor-gerente do organismo multilateral de crédito, o francês Dominique Strauss-Kahn, listou nominalmente o mecanismo como uma das possibilidades no cardápio dos governos. Outras foram a redução das taxas de juros, a acumulação de reservas internacionais e aperto no ajuste fiscal.

"Para lidar com uma bolha imobiliária alimentada pelo crédito, instrumentos de prudência devem ser o caminho a seguir. Mas, se o problema forem fluxos de dívida alimentando um boom nos empréstimos com moeda estrangeira, a solução pode incluir controles de capital", reconheceu. Strauss-Kahn evitou detalhar quais modalidades de controle seriam mais apropriadas para o momento. Entre as opções, está a tributação do ingresso de recursos, caminho escolhido pelo Brasil, que elevou ontem de 4% para 6% a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) nas aplicações em renda fixa e de 0,38% para 6% a incidente na garantia que os investidores apresentam para operar no mercado futuro de moedas.

Outra possibilidade é a proibição de retirada do dinheiro por um período determinado, como já fez o Chile. Por enquanto, a equipe econômica brasileira resiste em adotar esse passo. Strauss-Kahn elogiou o papel da Ásia na recuperação global, mas alertou para efeitos negativos dos investimentos na região. "Alguns fluxos podem claramente ser desestabilizadores. Eles podem levar a um forte aumento da taxa de câmbio, à explosão do crédito, a bolhas em preços de ativos e à instabilidade financeira", disse. A política do governo chinês de manter o iuan artificialmente desvalorizado para ganhar terreno no comércio internacional detonou a guerra cambial mundial.

Circunstâncias
Número dois do Fundo, o norte-americano John Lipsky reiterou a recomendação. Para ele, o reforço no balanço orçamentário e ações de caráter mais estrutural são, muitas vezes, as respostas adequadas para o aumento dos fluxos. "Mas pode haver circunstâncias em que os controles cambiais sejam úteis, numa medida temporária para lidar com esse crescimento de capital", afirmou. Na reunião do G-20 (grupo que reúne as 20 maiores economias do planeta), em Seul, na Coreia do Sul, no mês que vem, os líderes dos países vão tentar encontrar uma saída coordenada para a crise cambial, que já descamba para a adoção de medidas escancaradamente protecionistas por alguns governos.

Na visão de Strauss-Kahn, a recuperação mundial entrará em risco se os países abandonarem a estratégia de adotar iniciativas em comum acordo, vitoriosa no combate ao período mais duro da recessão global. "O espírito de cooperação deve ser mantido. Hoje, existe o risco de que o núcleo daqueles que conseguiram domar a crise financeira se dissolva em uma cacofonia de vozes discordantes, já que cada vez mais países atuam de forma individual. Esse tipo de atitude vai prejudicar todo mundo", advertiu.

Formação de bolhas
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, voltou a alertar para o risco de formação de uma bolha financeira no país. Mais uma vez, ele reiterou que a equipe econômica não ficará inerte diante dos perigos representados pelo ingresso de recursos estrangeiros, que prejudica principalmente a competitividade das exportações brasileiras. “Estamos atentos. Em qualquer momento, a possibilidade de formação de bolhas é preocupante”, disse ontem, antes de o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciar as novas medidas para tentar conter a enxurrada de dólares.

Meirelles chegou a dizer que o governo estava num momento de avaliação das medidas já tomadas. "Portanto, a melhor postura neste momento é aguardarmos. Qualquer decisão a respeito será anunciada no devido tempo, se existir", afirmou. Na avaliação do presidente do BC, as ações do presidente Barack Obama para impulsionar a economia norte-americana estão produzindo reflexos negativos no Brasil. "Não há dúvidas de que a situação dos Estados Unidos é complexa, difícil", disse. Para ele, políticas monetárias frouxas são "um remédio que tem efeitos colaterais intensos, que são sentidos nas regiões do mundo, no Brasil particularmente, mas não apenas nele".

O governo norte-americano, que enfrenta um deficit fiscal crescente, não tem espaço no orçamento para incentivar a recuperação. Por isso, vai optar por instrumentos monetários. Segundo Meirelles, os países estão encarando o aumento da quantidade de dinheiro em circulação de duas formas: adotando medidas para proteger a economia e negociando no plano internacional.



Efeito negativo
O Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) sinalizou recentemente que pode vir a injetar mais recursos na economia norte-americana. Isso pode afetar os mercados emergentes, já que os investidores usam dólares captados a baixos custos para aplicar em investimentos de mais risco e maior rentabilidade. "O processo de fluxo é preocupante", disse o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. A iniciativa do Fed, chefiado pelo economista Ben Bernanke, tem o objetivo de estimular a recuperação econômica, mas pode gerar inflação.