Economistas listam principais problemas da economia para o próximo presidente

Veículo: O Estado de Minas
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A 26 dias das eleições que vão eleger o novo governante do país, o próximo presidente do Brasil pode começar a colocar as barbas de molho, pelo menos na visão de alguns economistas. Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) nacional caminha para fechar o ano em 7%, o crédito está farto e o consumo avança sem atrair inflação de demanda, analistas ouvidos pelo Estado de Minas afirmam que o Brasil tem ainda muito a avançar.
A pedido do EM, sete economistas brasileiros listaram os sete maiores problemas da economia nacional que o próximo presidente do país vai ter que encarar. Foram listados os mais selecionados por ordem de citação. O campeão foi falta de investimento em infraestrutura. De acordo com eles, é preciso investir em portos, aeroportos, rodovias e geração de fontes alternativas de energia. “Este ponto é crucial para um país que pretende iniciar uma trajetória de crescimento sustentado. Sem o início urgente de criação de infraestrutura adequada, aparecerão gargalos que imporão limites ao nosso tão sonhado crescimento sustentado”, diz o coordenador de Pesquisa e Desenvolvimento da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas Administrativas e Contábeis de Minas Gerais (Ipead/UFMG), Wanderley Ramalho.
Para o diretor-executivo da NGO Associados Corretora, Sidnei Moura Nehme, o investimento em infraestrutura deixou a desejar nos últimos governos. “É preciso portos novos e forte investimento na renovação dos existentes. Temos que criar estradas e sistemas ferroviários com malha disseminada por todo o país para escoamento da produção agrícola. O frete da soja de Rondônia a Paranaguá custa mais do que de Paranaguá a Hong Kong”, afirma o especialista em mercado de câmbio.
Os economistas também afirmam que o próximo governo deve avaliar a participação das Parcerias Público-Privado (PPP’s) para agilizar a implantação de infraestrutura que torne sustentável o crescimento. “É preciso dirigir os recursos governamentais para corrigir os grandes gaps nessas áreas. Estimular as PPP’s e utilizar dos instrumentos jurídicos já existentes, seja a cessão, a concessão ou a permissão”, afirma o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de S. Paulo (FEA-USP) e diretor residente do Instituto de Pesquisa Fractal, Celso Grisi.
Câmbio valorizado foi o vice-campeão na citação dos atuais problemas brasileiros. “O real apreciado diminui a competitividade dos produtos brasileiros, seja em relação aos importados, seja para as exportações”, diz professor da PUC-SP e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Antonio Corrêa de Lacerda. O professor do Instituto de Economia da Unicamp, Waldir Quadros, reforça o peso do “pecado”. “O câmbio totalmente desalinhado, com o real muito valorizado, desestimula nossas exportações industriais e torna a economia extremamente vulnerável a importações concorrentes com a produção nacional”, afirma.
Lacerda também cita o terceiro entrave mais listado pelos economistas: juros reais elevados. “Apreciam a taxa de câmbio, desestimulam os investimentos produtivos e encarecem a rolagem da dívida pública”, enumera. “Juros estratosféricos inibem o investimento produtivo, favorece o rentismo e sobrecarrega as finanças públicas, estreitando os limites para o investimento”, completa Quadros, da Unicamp.
Quando o assunto é gastos públicos, a unanimidade também reina. “O governo coloca em prática uma política equivocada de gastos públicos, que privilegia os pagamentos de juros e o custeio em detrimento dos investimentos em infraestrutura, educação e saúde”, explica o pesquisador do Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia da da Unicamp, Fernando Sarti. Para Grisi, da Fea-USP, os gastos governamentais precisam ser reduzidos. “Seja por meio da redução do tamanho do Estado, seja através de reforma administrativa ou do funcionalismo”, diz.
Outro problema que o próximo governante brasileiro vai ter que enfrentar é a elevada e complexa carga tributária. “É imprescindível e não pode ser mais protelada. O empreendedor não suporta mais”, explica Nehme, da NGO Corretora. Para Grisi, a reforma tributária deve insistir na distribuição da renda nacional. “Não se pode tributar tão fortemente a produção, pois isso prejudica os níveis de investimentos e compromete a oferta de empregos formais e o consumo”, afirma.
Falta de investimento em educação é outro problema que incomoda os analistas. “O problema permeia todas as faixas, de mão de obra técnica especializada até engenheiros e gestores. Esse é um gargalo social, com claras consequências para o desenvolvimento econômico”, define o sócio-diretora da Prospectiva Consultoria Internacional, Ricardo Sennes.
Ramalho, da UFMG, ressalta o último problema citado pelos economistas. “Falta planejamento estratégico ao país. É preciso ir além do mero crescimento econômico, em direção ao desenvolvimento econômico, o qual não pode ser creditado apenas ao livre jogo das forças de mercado. Um país que pretende tornar-se desenvolvido terá que enfrentar esse dilema”.
Os vilões
1º – Falta de investimentos em infraestrutura
Este ponto é crucial para possibilitar uma trajetória de crescimento do país e já compromete alguns setores
2º – Câmbio valorizado
O real apreciado diminui a competitividade dos produtos brasileiros, tanto em relação à importação quanto exportação
3º – Juros reais elevados
Juros elevados brecam investimentos produtivos e encarecem a rolagem da dívida pública
4º – Gastos públicos
Está em prática uma política equivocada de gastos públicos que privilegia os pagamentos de juros e o custeio em detrimento dos investimentos em infraestrutura, educação e saúde
5º – Carga tributária elevada e complexa
Onera investimentos produtivos e exportações, o que deixa a economia sem competitividade
6º – Falta de investimento em educação
O sucateamento do ensino público compromete as bases para o ensino profissional de qualidade e para o progresso do país
7º – Falta de planejamento estratégico
É preciso ir além do mero crescimento econômico. É preciso promover o desenvolvimento econômico que não pode ser de responsabilidade apenas do livre jogo de mercado. Fonte: O Estado de Minas