Roupa deve ficar mais cara no fim do ano

Veículo: Valor Econômico
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Moda: Aumento da cotação do algodão pressiona custos e grifes buscam alternativas para segurar preços



    Vanessa Barone, para o Valor, de São Paulo
    31/08/2010
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Régis Filho/Valor
Foto Destaque
Alexandre Iódice: corte em gastos com aviamentos e processo de lavanderia

Boa parte das grifes de moda não comenta, mas a forte alta do preço do algodão - que só este mês subiu 23% - deverá causar impacto sobre o varejo de vestuário a partir do fim do ano. "Não houve aumento na coleção de verão que já está nas lojas, mas haverá nas de alto verão, que chegam ao mercado no fim do ano", diz Janaina Machado, diretora comercial da Le Lis Blanc, grife que faz parte do grupo Artesia.

A executiva afirma que os preços das peças de algodão ficarão entre 5% e 8% mais altos. Isso se deve, diz Janaina, ao aumento no valor dos artigos de algodão principalmente no mercado internacional. A Le Lis Blanc importa da China e da Índia cerca de 15% de suas peças prontas. "Para o inverno acredito que o aumento será maior." A Le Lis Blanc possui 45 lojas e deverá fechar o ano com 49.

Alexandre Iódice, coordenador de estilo da Iódice Denim, confirma a tendência do mercado. "Nossa coleção já foi vendida para as multimarcas há três meses. Por enquanto, não houve aumento", afirma o executivo. A grife paulistana, focada em jeanswear, comercializa suas peças em 750 pontos de venda no Brasil e possui 12 lojas (sendo a metade franquia). O desafio agora, diz Iódice, é negociar com os fornecedores de denim para não precisar reajustar os preços da roupa pronta para o inverno. "Sabemos que o tecido vai subir. O que podemos fazer é economizar na engenharia de produto", diz. Ou seja, cortar custos com aviamentos e, sobretudo, no processo de lavanderia, etapa que pode encarecer o custo de uma calça jeans.

Outra que aguarda pelo reajuste nos preços dos tecidos é a grife de jeanswear Damyller, de Nova Veneza (SC), com 31 anos de mercado e confecção própria. "Temos estoque de tecido até dezembro. Para o ano que vem ainda não sabemos como ficarão os preços, mas nossos fornecedores estão comentando que haverá aumento", diz Damylla Damiani, consultora de moda e uma das proprietárias da grife. Com produção de 120 mil peças por mês, a Damyller está no varejo nacional com 76 lojas próprias. "Queremos chegar ao fim de 2010 com 80 lojas", diz a empresária. A grife não lança coleções por estação, preferindo colocar novos produtos nas lojas todos os dias.

Apenas no último ano, o preço do algodão, pela cotação da bolsa de Nova York, passou de 50 centavos de dólar por libra-peso para 85 centavos de dólar, segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). "Houve diminuição da plantação de algodão, que foi substituída pelo cultivo de alimentos na China", diz Ivan Bezerra Filho, vice-presidente da Abit.

Segundo a Abit, o Brasil não é autossuficiente em algodão: produz 1,2 milhão de toneladas por ano, consome 1 milhão e exporta 400 mil. A partir de dezembro, vai começar a faltar algodão no mercado interno, que precisará ser importado.

Para o presidente da Associação Brasileira do Vestuário (Abravest), Roberto Chadad, a saída seria o governo abaixar a alíquota de importação de 200 mil toneladas de algodão em pluma para equilibrar o mercado. "Do contrário, vai haver aumento e os grandes magazines vão deixar de produzir no Brasil para comprar peças de algodão de fornecedores estrangeiros", diz Chadad. Dessa forma, as duas pontas perdem: a indústria têxtil, que venderá menos tecido, e a de confecção, que produzirá menos. Segundo o empresário, o verão é a grande temporada de consumo de vestuário no Brasil. "Enquanto no inverno se produz 80 milhões de peças por ano, no verão esse volume chega a 6,6 bilhões."

A chegada do verão vai trazer jeans mais leves e superdesbotados para a Iódice Denim. "Além disso, teremos peças de sarja tinturadas de branco", diz Alexandre Iódice. A coleção Nice da Santana Textiles traz tecidos com 6 onças - sendo que o jeans normal costuma ter cerca de 10 onças - e tingimento próprio para fazer peças com efeito "délavé", processo de lavanderia que dá um aspecto desbotado ao jeans. A empresa também investiu em tecidos com 2% de elastano, para fazer as calças no estilo "fuseau", bem justas.