Barreira mental

Veículo: O Globo
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George Vidor

O comportamento da economia mundial está mexendo com a cabeça dos analistas financeiros no Brasil. Muitos deles, que meses atrás achavam inevitável um aperto monetário vigoroso para desaquecer a economia por aqui, jogando assim água fria na inflação, agora admitem que as taxas de juros de equilíbrio possivelmente seriam agora mais baixas do que as imaginadas anteriormente.

É crescente o número de renomados analistas que considera prudente o Comitê de Política Monetária (Copom) manter os juros básicos esta semana em 10,75% ao ano, pois estaríamos diante de uma situação nova no cenário mundial, para a qual a economia brasileira acabará se ajustando sem que o freio de mão do Banco Central se faça necessário. Se o aperto monetário for além da conta, em vez do crescimento esperado acima de 4% no ano que vem poderíamos caminhar para uma estagnação em 2011, hipótese que estava completamente fora de cogitação há pouco tempo.

Desse modo, como o ambiente é de “reversão de expectativas”, as taxas de juros pegaram uma carona na discussão, o que deve poupar a economia brasileira de fechar o ano na casa dos 11% ou mais.

Existem fatores concretos que levam o Brasil a ter juros ainda elevados. Mas passo a passo vão também surgindo condições para que o país conviva com taxas básicas ligeiramente mais baixas (embora sem chegar a se nivelar aos padrões internacionais, por enquanto). Um dos obstáculos crônicos à redução dos juros é a resistência à idéia pelos economistas especializados na avaliação de conjuntura. O comportamento da inflação realmente mostra que os índices deixam de recuar quando se aproximam da casa dos 4%. Os juros têm baixado então mais por tentativa e erro do Banco Central do que pelo humor dos analistas, porém é verdade que a resistência à idéia de que poderemos conviver com taxas menores vem diminuindo e, numa situação como a de agora, não deixa de ser animador que vários desses conceituados economistas estejam publicamente expressando a mudança de suas opiniões.

A Eletrobras avalia, no momento, 41 projetos de construção de hidrelétricas no exterior, a maior parte na América Latina. Com o Peru, as negociações têm prosperado e, por incrível que pareça, também vão bem com a Bolívia.

Uma usina nuclear como Angra 2 (1.360 megawatts de capacidade instalada) daria para atender a todo o consumo atual de eletricidade da Bolívia. Por isso, quase todo o investimento que o país vier a fazer na geração de energia elétrica será para vender o excedente a terceiros (no caso, Brasil, Argentina ou Chile).

Já que o Brasil precisa expandir anualmente a potência do seu parque gerador em cerca de 6 mil megawatts, o que os vizinhos quiserem nos oferecer será bem-vindo, diz o professor Nilvaldo de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O Gesel tem se dedicado ultimamente à avaliação dessa integração energética e até está promovendo um curso de pós-graduação em torno do tema (entre os alunos, a maioria este ano é de colombianos).

Há 175 anos o regente Francisco Lima e Silva (pai do futuro Duque de Caxias) assinou, em nome do imperador D. Pedro II, e por proposta do então ministro Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho, o decreto que criava o MontePio Geral de Economia para os Servidores do Estado. Esse embrião de previdência privada para funcionários públicos hoje é o Mongeral Aegon, companhia de seguros e previdência, com sede no Rio.

A Mongeral tem em seus arquivos as atas originais que relatam os vários momentos da empresa, o que a inspirou a produzir um livro que mescla sua história com a do próprio país nesses 175 anos. O agradável texto de Oswaldo Miranda faz com que o livro entre no rol daqueles que retratam muito bem o nosso passado.

Sitawi no idioma suahili, falado na África, quer dizer florescer ou desenvolver. A palavra acabou então batizando uma experiência ainda inédita no Brasil, a de um fundo sem fins lucrativos que empresta recursos para associações, cooperativas ou até pequenas empresas com motivação social. “O Brasil movimenta mais de R$ 5 bilhões a R$ 10 bilhões em doações, dispersados por programas de uma série de organizações não governamentais. Mas não tinha nada capaz de aproximar o crédito de iniciativas com motivação social que se apoiam na atividade econômica”, explica Leonardo Letelier, idealizador do projeto.

A proposta do Sitawi não é a mesma do microcrédito, pois não se destina a pessoas físicas, mas sim a iniciativas formais. Em um ano e meio foram concedidos oito empréstimos, com valores médios de R$ 120 mil e prazos variando de três a 18 meses.

Serviram para financiar desde uma associação de Curitiba, que forneceu 30 mil sacolas feitas a partir de reciclagem de garrafas PET, para uma grande rede de supermercados, até a abertura de novas lojas de roupas de uma entidade que ampara, temporariamente, crianças convalescentes muito pobres. Ou a grife Daspu, criada pela organização que leva cidadania a prostitutas.

“O fundo não tem fins lucrativos e gere recursos de doações. O retorno de um empréstimo serve para concessão de um outro. Não se trata de caridade, pois cobra juros mensais de 1% a 1,5%”.

“Não houve até agora qualquer inadimplência ou necessidade de reestruturação das dívidas nos oito empréstimos”, garante Letelier. A experiência piloto deve se estender para um portfólio de US$ 1,5 milhão. “O importante será difundir a metodologia e abrir as portas do crédito para um trabalho com motivação social que não tem acesso hoje ao mercado financeiro.

Na Inglaterra, existe até um banco comercial com essa finalidade.

Nos EUA uma instituição opera com essas características”, diz Letelier.