O apagão logístico já começou? Personalidades do setor se reúnem para responder à questão

Veículo: Brazil Modal
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29/08/10- 13:44


A NTC&Logística realizou o VI Seminário Brasileiro de Logística, que reuniu cerca de 300 convidados entre empresários, estudantes, operadores logísticos, embarcadores, fornecedores e interessados no transporte de cargas. O debate girou em torno de uma pergunta: 'O apagão logístico já começou?'.

Ao abrir o evento, o presidente da associação, Flávio Benatti, incentivou o debate e ressaltou que a ocasião seria própria para discutir o tema. "Estamos vivenciando um processo de economia estável, e acredito que, futuramente, alcançaremos um patamar melhor ainda", afirmou. "Daqui quatro anos, realizaremos um dos eventos de maior destaque no mundo, a Copa, isto é, temos que nos preparar para a demanda que virá junto a essa conquista".

O presidente também aproveitou o momento para responder à questão central do evento. "Sim, o apagão logístico já começou. Nosso setor vem sentindo isso há algum tempo com a falta de insumos e pneus para caminhão, por exemplo", explicou Benatti.

Expectativas do setor

A área técnica da NTC realizou recentemente uma pesquisa com as empresas associadas. Cerca de 400 participantes responderam 11 questões relacionadas às perspectivas para o TRC em 2010. O resultado desse estudo foi apresentado pelo coordenador técnico da NTC, Neuto Gonçalves do Reis, na palestra "O apagão na infraestrutura empresarial" durante o evento de ontem.

Segundo a pesquisa, 71,8% das transportadoras consultadas acreditam que o desempenho da empresa no primeiro semestre de 2010 foi melhor em relação ao último semestre de 2009. Destas empresas, 27,9% conquistaram um crescimento entre 1 e 5%, e 22,2%, um crescimento entre 5 e 10%.

Quanto à questão infraestrutura, 73,4% das empresas afirmam que faltaram subsídios em algum momento para atender os clientes neste primeiro semestre do ano. A meta para 46,7% das transportadoras é investir em caminhões neste período.

Mas para 29,2%, o crescimento da empresa pode ser limitado entre 2010 e 2011 pela falta de mão de obra. A pesquisa ainda aponta outros gargalos, como falta de veículos e equipamento, acesso ao capital (falta de linha de crédito, alta taxa de juros etc) e infraestrutura. O relatório revela que 54,3% deixaram de atender os clientes por falta de veículo ou motoristas. Além disso, 61,4% afirmaram ter dificuldade na aquisição de insumos.

Neuto ainda apresentou um comparativo entre os projetos de melhorias para o transporte, como o Programa de Aceleração do Crescimento 1 e 2 (PAC), Plano Nacional de Logística e Transportes (PNLT), apontando os valores investidos, metas e as deficiências de cada projeto.

Em pouco tempo essa luz se apagará...

Para falar sobre o apagão na infraestrutura, a NTC convidou o presidente da Vantine Solutions, José Geraldo Vantine, que, de forma visual e crítica, apresentou sua opinião sobre o tema. Os modais hidroviário, rodoviário, ferroviário e aquaviário foram representados por lanternas apagadas e deram um tom realista à palestra.

Vantine definiu a logística como parte integrante do processo da cadeia de abastecimento, que planeja, implementa e controla de forma eficaz e eficiente o fluxo e armazenamento de bens, serviços e informação relacionada, desde o ponto de origem ao ponto de consumo, de modo a atender aos requisitos dos clientes.

Para ele, a falta de infraestrutura torna o apagão logístico uma realidade. "Transporte é parte importante, mas não é logística. Infraestrutura não é nem transporte e nem logística, mas nada acontece sem ela", explicou.

Vantine apresentou os dados conflitantes dos planos como PAC e PNLT. Para ele, os projetos precisam sofrer uma integração para obter um resultado positivo. Além disso, apontou as falhas e possíveis soluções para os problemas de acesso enfrentados pelos transportadores.

Após apresentar a situação atual do setor, finalizou a palestra com uma afirmação polêmica. "Em pouco tempo, a logística terá o fatal infarto causado pelo apagão logístico da infraestrutura", refletiu.

O apagão logístico já começou?

O palco recebeu personalidades do setor para discutir o tema e responder as questões da plateia. Confira trechos dos depoimentos mais marcantes do debate.

" Para mudar a realidade atual do setor, dependemos de planejamento. A economia do país está crescendo de maneira sólida. Um exemplo é o mercado de caminhões - algumas empresas apontam um crescimento de até 100%. Temos que realizar um planejamento para obter um crescimento estruturado" - Antônio Cammarosano Filho, diretor de Vendas da MAN Latin American

"Hoje, tivemos a oportunidade de visualizar um raio-x do setor. O crescimento desordenado é um reflexo da falta de infraestrutura" - César Pisseti, diretor comercial e de Exportação da Randon S/A

"Após a crise econômica mundial, a economia brasileira alavancou de forma inesperada. O que causou um descompasso no prazo na entrega de pneus devido à crescente demanda. O nosso objetivo é ganhar mais estrutura para atender às necessidades do setor" - Frederico Kopittke, vice-presidente da Bridgestone Bandag para a América Latina

"O apagão logístico chegou ao Porto de Santos há muito tempo. Faltam mais autoridades portuárias, terminais 24h e uma programação regulamentada entre os caminhões e os navios" - Marcelo Marques da Rocha , presidente do SINDISAN(Sindicato das Empresas de Transporte Comercial de Carga do Litoral Paulista)

"Nesses últimos anos a Michelin sofisticou muito os seus modelos de pneus, oferecendo ao mercado um produto de alto nível e atendendo as mais variadas necessidades do setor. Essa é uma tendência permanente, melhorar sempre. Nosso objetivo é crescer 30,40% nos próximos anos. Para isso, precisamos nos planejar e acabar com as limitações encontradas pelo setor hoje" - Maria Luiza de Carvalho, diretora de Marketing de Pneus de Carga da Michelin

"Para mim, caminhão é a iluminação logística que nunca se apagará, pois o modal rodoviário é o principal meio de transporte logístico. Mas sabemos que o setor enfrenta dificuldades para expandir de forma correta, por isso, devemos aproveitar essa oportunidade para chamar a atenção dos nossos governantes para os gargalos do setor" - Oswaldo Jardim, diretor de operações de caminhões Ford do Brasil

"Não tenho gargalos hoje, o que tenho são custos excessivos oriundos, em grande parte da falta de infraestrutura. Para exportar uma geladeira para o nordeste, por exemplo, desembolsamos um frete de R$50 (média)" - Ricardo Cunha, diretor de logística da MABE Brasil

"Nós estamos desafiando a logística através da ferrovia"- Rodrigo Vilaça, Presidente da Aslog (Associação Brasileira de Logística) e diretor executivo da ANTF (Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários)

Para finalizar o evento, Benatti entregou uma placa de reconhecimento aos debatedores e palestrantes do VI Seminário Brasileiro de Logística. O evento, realizado na NTC&Logística, contou com o apoio do SETCESP (Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região) e da FETCESP (Federação das Empresas de Transporte de Cargas do Estado de São Paulo) e patrocínio do Cummins, Ford Caminhões, MAN, Michelin e Petrobras.

Fonte: NTC&Logística