"Abram caminho para a empresa"

Veículo: Revista Época
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Leopoldo Mateus

Acompanhar as mudanças nas regras dos impostos no Brasil é uma tarefa impossível – calcula-se que surja uma novidade dessas a cada 24 minutos, em média. Os governos federal, estaduais e municipais bem que poderiam ser menos inventivos, ao menos nessa área. “O Banco Mundial avaliou recentemente a facilidade de fazer negócios em 183 países, e fomos mal – ficamos em 129º lugar”, diz o economista carioca Robert Binder, de 64 anos. Ele administra o fundo Criatec, que tem dinheiro investido em 25 jovens empresas inovadoras. Há alguns dias, participou do 8º Congresso Brasil Competitivo, em São Paulo, a fim de discutir esse ambiente ruim para os negócios e explicar a urgência de mudá-lo.

QUEM É
Economista formado pela Universidade do Tennessee, nos EUA, e ex-executivo do banco Chase Manhattan


O QUE FAZ
Desde 2007, gere o fundo Criatec, que aplica capital do BNDES em empresas inovadoras


O QUE FEZ
Teve negócio próprio e fundou a Associação Brasileira de Capital de Risco (ABVCap)



ÉPOCA - O que um país e uma sociedade ganham com inovação?
Robert Binder -
Quem inova faz a vida das pessoas melhor. Invenção só se transforma em inovação quando é adotada pelo mercado. A inovação pode ser de ruptura, aquela que revoluciona, ou pode ser incremental, a que melhora um serviço ou produto já existente. Não é necessário fazer uma revolução. O cara inteligente inova e entra em outra faixa de mercado, dribla a concorrência. Você pode criar uma padaria com um pão diferente e fazer um enorme sucesso.

ÉPOCA - O Brasil inova pouco?
Binder -
Para começar, em nossos centros de ciência e pesquisa não se pensava, até há pouco tempo, em desenvolver algo para ganhar dinheiro. Isso não era considerado legítimo. Agora, essa prática já começa a ser bastante difundida. Até pouco antes da Lei de Inovação (proposta inicialmente em 2000 e sancionada em 2004), nenhum pesquisador brasileiro podia trabalhar na iniciativa privada. Você barrava a possibilidade de o centro do conhecimento entrar no mercado. Falta ainda às empresas privadas entenderem esse processo e irem aos centros de tecnologia aprender e incorporar o que está se fazendo de novo. A situação histórica brasileira dificultava a inovação. As grandes empresas nasciam voltadas para interesses internacionais. Não havia interesse de desenvolver algo inovador aqui. O brasileiro é um empreendedor nato, mas não sabe usar a inovação para chegar ao mercado. Ainda não achou a fórmula.

ÉPOCA - Os entraves aos negócios atrapalham nessa área também?
Binder -
Uma empresa com investimento do Criatec, a Magnamed, espera há 12 meses a aprovação pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) de um equipamento de respiração artificial. Ele já tem a marcação da União Europeia, a autorização para exportar para lá, mas a aprovação aqui não saiu. O empreendedor no Brasil tem de ter uma perseverança dez vezes maior. O ambiente para a pequena e média empresa aqui é um dos mais hostis do mundo. São 120 dias para você abrir uma empresa. Nos Estados Unidos, você abre em seis minutos, pela internet. O Banco Mundial avaliou recentemente a facilidade de fazer negócios em 183 países, e fomos mal – ficamos em 129º lugar (em 2009, o Brasil havia ficado em 127º. Neste ano, caiu duas posições) . A cada 24 minutos, em média, aparece uma alteração tributária. É impossível acompanhar.

ÉPOCA - Em um cenário assim, como estimular a inovação?
Binder -
Investir em inovação é a medida estratégica mais importante que o Brasil pode adotar. Temos uma base privada industrial forte, mas não inovamos. É totalmente diferente do que ocorre nos Estados Unidos, no Japão. O governo tem a obrigação de entrar nessa área estimulando, do ponto de vista fiscal e de outras maneiras: pode mexer no Imposto de Renda, dar subvenções para o desenvolvimento científico, doar dinheiro a setores estratégicos, colocar dinheiro nas universidades. É importante que o governo pense em inovação em todos os setores, da resolução de problemas na favela à pesquisa espacial, como menciona o Ary Plonsky (presidente da Anprotec, associação de entidades que fomentam empresas inovadoras) . Para levar a inovação ao mercado e à sociedade, precisamos das empresas. O caminho para elas precisa estar aberto.

“Temos de ensinar às crianças que é válido fazer algo novo e ganhar dinheiro, que o empresário é o cara que cria emprego”

ÉPOCA - Que outras políticas o país pode adotar?
Binder -
Começa pela educação. Poucas escolas brasileiras têm o empreendedorismo no currículo. Já na escola primária americana, os alunos fazem vários exercícios voltados para o capitalismo e como ganhar dinheiro. Nós temos de fazer o mesmo e ensinar às crianças que é válido desenvolver algo novo, é legal ganhar dinheiro e que não é exploração do capital humano. Você precisa criar um conceito para que a sociedade aceite que é legítimo. Hoje, empresário parece sinônimo de exploração. Pelo contrário, é o cara que cria emprego, oportunidades e riqueza.

ÉPOCA - O que os países mais inovadores do mundo fazem?
Binder -
Um bom exemplo é a Finlândia. Até dez, 15 anos atrás, era uma economia praticamente inexpressiva. De repente, a Nokia desenvolveu o celular e começou um novo mundo para a Finlândia. Surgiu um produto inovador, e eles investiram de forma pesada nisso. Hoje, a Nokia é a maior empresa do mundo nessa área e existem centenas de filhotes em torno da empresa. Tudo isso surgiu com uma ideia inovadora de transmitir dados em alta velocidade.

ÉPOCA - E na administração pública, temos bons exemplos?
Binder
- A Embrapa foi uma das coisas mais importantes que apareceram no Brasil. A pesquisa da empresa e sua aplicação em nossa agricultura fizeram uma completa revolução. Hoje, somos uma das maiores potências da agricultura do mundo e seremos a maior.

ÉPOCA - A criação de fundos de investimento em inovação, como o Criatec, tem resultados a mostrar. Podemos melhorar esse modelo?
Binder -
Melhorar esse modelo passa por tornar o processo inteiro mais eficiente. Qual é nosso objetivo? Investir em uma empresa, alavancá-la, levá-la ao mercado e fazê-la lucrar. Nesse caminho, muito tem de ser melhorado. Nosso processo é muito virtuoso, pois não existe subvenção. Ele tem de dar retorno para os investidores, não é um fundo social. Ele tem dinheiro público, mas eu sou o administrador privado. Eu tenho de dar retorno para que o BNDES se interesse em fazer outro fundo. Como eu lucro? Se eu consigo fazer com que alguém compre essa empresa ou invista nela. Eu não posso ser eterno sócio porque esse fundo só vai durar dez anos. Quando o risco é muito grande, o dinheiro privado não vai sozinho. O setor público tem de mostrar o caminho. Três entre dez empresas não vão passar do terceiro ano. Mas uma vai “bombar” e pagar tudo.