Custos no Brasil são inviáveis para competir lá fora

Veículo: Folha de S. Paulo
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DONO DA M.OFFICER QUER SER A GRANDE MARCA BRASILEIRA NO EXTERIOR E DIZ QUE GOVERNO DEVERIA REDUZIR IMPOSTO PARA DESIGN DE MODA

MARIANA BARBOSA
DE SÃO PAULO

Com presença em 27 países, incluindo lojas em Nova York e Paris, o estilista Carlos Miele, dono da M.Officer e da grife que leva seu nome, quer ser a grande marca brasileira no exterior. Para isso, ele tem uma receita: acabar com os impostos de exportação para o design de moda.
Leia os principais trechos da entrevista.

 

Folha - Grifes nacionais, como M.Officer, Colcci, Totem, estão começando a importar peças da China. Isso é uma tendência?
Carlos Miele
- Se fosse para ser uma coisa importante, as lojas de departamento estariam inundadas com roupas da Ásia. Mas, com o imposto de importação e mais as dificuldades logísticas, é inviável produzir na China. Até a Zara, que produz no mundo inteiro, tem dificuldade.

A importação de têxteis aumentou 189% no primeiro bimestre. Você importa produtos da China?
Pouca coisa, um tricô, um cashmere. A China hoje tem uma diversidade enorme de matérias-primas, de novas tecnologias. Todo mundo que quer ser global tem que saber comprar de fora. Mas ninguém importa mais de 3% de uma coleção, e digo que ninguém arriscaria produzir nem 30% na China. Se por algum motivo o produto ficar parado no porto, você perderá as vendas.

Quem compra da China hoje está em busca de inovação e qualidade, não só de preço?
Sim, a China conseguiu transferir para si o know-how de produção da Itália. Como produzem para o mundo inteiro, aprenderam a trabalhar no padrão exigido pelas marcas dos EUA e da Europa.

E por que a nossa indústria têxtil não consegue dar esse salto tecnológico?
Acho que podemos conseguir isso fechando ainda mais o mercado. Isso faria com que as marcas internacionais começassem a produzir aqui, e isso ajudaria a desenvolver fornecedores nacionais.

Muitas grifes brasileiras tentaram se internacionalizar, mas não tiveram sucesso. Por que isso acontece?
Esse ainda é um monopólio do primeiro mundo.

A profissionalização do setor, com entrada de fundos de "private equity", e a formação de grandes grupos, como InBrands, AMC Têxtil, Marisol, ajudam nesse processo?
Esses grupos têm muita marca e pouco faturamento. Tem que ter uma escala muito grande para competir internacionalmente.

O Brasil é pequeno para ocupar esse espaço no mundo?
Vai ter que vir alguém, primeiro, desenvolver isso. E esse alguém vai ser Carlos Miele. Não é fácil. Os custos hoje no Brasil são inviáveis para se competir internacionalmente. A não ser que o governo incentive realmente o design de moda, reduzindo os impostos de exportação.
Já somos reconhecidos pelo nosso design. Falta agora equacionar a questão do custo.