Alta do algodão pressiona fabricantes

Veículo: Valor Econômico
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    Júlia Pitthan
    24/05/2010
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Raphael Gunther/Valor
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Gabriela, da Lepper: uso de fibra sintética é tendência que equilibra custos

Nem o otimismo com o crescimento do mercado interno afasta a preocupação das indústrias têxteis com os altos preços do algodão. A matéria-prima - que responde em média por 40% do preço dos produtos de cama, mesa e banho -, já se valorizou cerca de 25% nos últimos seis meses. Com os aumentos, as fabricantes já foram pressionadas a reajustar as tabelas de preços entre 2% e 5%.

"Essa é a única nuvem negra que paira sobre o setor", diz Ulrich Kühn, presidente do Sindicato das Indústrias de Fiação, Tecelagem e Vestuário de Blumenau (Sintex). De acordo com ele, as têxteis catarinenses são grandes compradoras de fio, mesmo aquelas que detém fiação própria. O aumento da matéria-prima no mercado internacional, puxado por reaquecimento da demanda, encarece custos e achata as margens de lucro. Mas, na opinião de Ulrich, isso não deve afetar o ritmo de retomada do setor. "Preocupa na rentabilidade, mas no longo prazo não altera planos de investimentos", diz.

Para a Lepper, fabricante de Joinville, o fio do algodão tem impacto de 20% nos preços de venda e 40% no custo de produção. A matéria-prima corresponde a 80% da composição dos jogos de cama e 95% nos roupões e toalhas de banho. De acordo com Gabriela de Loyola, vice-presidente da empresa, o uso de fibras sintéticas ajuda a equilibrar os custos. "O uso do poliéster é uma tendência cada vez mais forte", diz.

A Lepper atende ao mercado popular com 50% da coleção composta por produtos licenciados, principalmente voltados para público infantil. Ao todo, são 17 linhas de licenças.

"A indústria não tem como absorver todo esse custo, mas há uma dificuldade para repassar ao consumidor", diz Gabriela. Segundo ela, as tabelas foram reajustadas em 5%, em média, mas não em todas as linhas. A empresa sente uma retomada nas vendas para o mercado interno neste trimestre, principalmente na região Nordeste. "Há muitas redes de varejo locais com força e estamos focados para atendê-los melhor", diz.

Para Marcello Stewers, diretor e vice-presidente da Teka, de Blumenau, o preço do algodão preocupa. "Ainda estamos nos orquestrando com os novos preços do insumo", afirma. Mas, na avaliação dele, o novo ciclo da crise europeia fará com que o mercado se ajuste e estabilize os preços nos próximos meses. A companhia fez um ajuste de cerca de 6% em sua tabela em março e deve aguardar o comportamento dos preços até definir um novo aumento. "Vamos segurar e observar o mercado", diz Stewers.

O primeiro trimestre foi de crescimento para a Teka, que está otimista com 2010. A receita bruta cresceu 20,36% em relação ao mesmo período de 2009, para R$ 100,8 milhões. No mercado interno, o faturamento ficou em R$ 90,2 milhões, 29,58% maior. As vendas para o Brasil representaram 90% das receitas no trimestre. O lucro bruto foi de R$ 24,3 milhões, uma alta de 109% em relação ao ano anterior.

Já a Karsten, também de Blumenau, se concentra na integração da recém-adquirida Trussardi. Segundo Alvin Rauh Neto, presidente da empresa, o foco é fortalecer a presença na classe A com os produtos de alto valor agregado. Sobre a possibilidade de estreitar os laços com o mercado, por canais de varejo, Alvin pondera. "É uma tendência e vamos estudar, mas nada ainda está definido", diz.

Sobre a alta do algodão, o presidente diz que os insumos tiveram um impacto de 50% nos custos nos últimos meses. Alvin aguarda uma recuada dos preços com a entrada da próxima safra para amenizar os impactos. Segundo ele, a Karsten fez um reajuste de 5% no início do ano e agora deve aguardar o posicionamento de mercado.