Crescimento precário da indústria

Veículo: O Estado de S. Paulo
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Da Redação

O  crescimento de 2,2% da produção industrial em outubro foi recebido com euforia e interpretado como resposta ao aumento da demanda doméstica. Pode-se encarar com satisfação esse resultado, sem exagerar sua dimensão, sabendo que ele tem um preço alto e que o setor continua muito frágil.

É animador saber que o maior crescimento, de 5,9%, tenha sido na produção dos bens de capital, refletindo a confiança da indústria numa retomada - aumento só igualado ao da produção dos bens de consumo duráveis, puxado pelas desonerações fiscais da linha branca e dos carros de passeio.

No entanto, é preciso dar maior atenção ao resultado acumulado no ano e cruzar esses dados com os de importações no mesmo período.

Ora, aí verifica-se que a produção de bens de capital, nos dez primeiros meses do ano, apresentou queda de 22%, enquanto a importação desses bens, no mesmo período, diminuiu 10,3%. A partir desses dados pode-se chegar à conclusão de que a capacidade de produção, em especial se levada em conta a demora para que esses equipamentos sejam ativados, será insuficiente para sustentar um rápido aumento da demanda.

No entanto pode-se argumentar que a importação de bens de consumo atenderá ao aumento da demanda, e de fato é o que se verifica, pois a produção de bens de consumo duráveis caiu 12,7% no período, mas a importação cresceu 6,2%.

Já na produção de bens de consumo não-duráveis se verifica uma redução de apenas 2,7%, enquanto a queda na importação foi de 11,7%. São bens que o País ainda produz.

A produção de matérias-primas e de bens intermediários registrou queda de 12,7%, enquanto a importação desses bens caiu 32,6%. Isso nos leva a crer que a nossa indústria está se transformando em montadora de produtos importados.

No momento, isso é certamente efeito da taxa cambial valorizada, que permite adquirir produtos semiacabados por preço muito inferior ao dos oferecidos pela indústria nacional. Mas também tem raízes na fragilidade da nossa indústria, que muito depende da importação.

Paul Krugman, economista norte-americano que recebeu o Prêmio Nobel, na sua palestra em São Paulo, alertou para o fato de que a atual taxa cambial é uma bolha que pode vir a explodir. Ela se formou a partir da desvalorização do dólar, que poderá ser interrompida, e de uma ilusão dos investidores estrangeiros quanto ao futuro da economia brasileira.