A ação do BC na crise, segundo o FMI

Veículo: Valor Econômico
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Cristiano Romero

O Banco Central (BC) atuou de forma inovadora durante a crise financeira internacional. Quando comparado a outros bancos centrais, o brasileiro ajudou a criar um padrão a ser seguido no enfrentamento de futuras turbulências. A afirmação não foi feita por nenhum ufanista do governo Lula - embora haja poucos em Brasília dispostos a elogiar o BC -, mas por três economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) que acabam de concluir um estudo detalhado sobre a forma como 19 países emergentes enfrentaram a crise.

Intitulado From Lombard Street to Avenida Paulista: Foreign Exchange Liquidity Easing in Brazil in Response to the Global Shock of 2008-2009, o trabalho, assinado por Mark R. Stone, W. Christopher Walker e Yosuke Yasui, avalia as medidas adotadas para enfrentar a escassez de liquidez dos mercados cambiais a partir da quebra do banco americano Lehman Brothers. O estudo já está disponível na internet (www.imf.org/external/pubs/ft/wp/2009/wp09259.pdf).

A referência à Lombard Street diz respeito à obra homônima publicada, em 1873, pelo economista e jornalista inglês Walter Bagehot. Durante 17 anos, ele foi o principal articulista da revista The Economist. No livro mencionado, desenvolveu o conceito moderno de banco central como emprestador de última instância. No texto do FMI, a alusão à Avenida Paulista se deve ao fato de ela ser o coração financeiro do Brasil.

Stone, Walker e Yosuke esmiúçam a ação do BC na fase mais aguda da crise e encontram um paralelo com os ensinamentos de Bagehot. Em linhas gerais, eles mostram que o BC, utilizando uma variedade de instrumentos, restaurou a liquidez do mercado de câmbio no Brasil sem queimar reservas de forma significativa. Mais: atuou de forma vigorosa sobre as expectativas, fazendo dos anúncios públicos armas poderosas. Para chegar a essas conclusões, os três autores fizeram uma análise empírica das medidas adotadas pelo BC, consideradas por eles um caso especialmente interessante.

O estudo destaca cinco linhas de ação adotadas pelo BC. A primeira, empreendida na primeira semana da crise, foi promover operações de swap para ajudar a compensar a falta de dólar nas linhas de crédito à exportação. Cada swap consistiu de duas pernas: na primeira, o BC trocou dólares por reais; na segunda, a transação era revertida, com a recompra dos dólares. O efeito da transação no mercado, dizem os autores do estudo, foi reduzir os juros de quem tinha dívida em dólar. Os swaps foram realizados de 19 de setembro de 2008 a 29 de janeiro de 2009 e totalizaram US$ 11 bilhões.

A segunda iniciativa foi a venda de dólares no mercado à vista a partir de outubro, quando o mercado já estava disfuncional - foram gastos cerca de US$ 10 bilhões, uma perda de reservas considerada limitada pelo FMI quando comparada às que ocorreram nas crises anteriores (em 1998-99 e em 2002, o país perdeu cerca de 30% das reservas). A terceira ação foi a atuação direta na BM&FBovespa, vendendo dólares para aliviar posições especulativas de empresas exportadoras. A ação foi significativa: a posição líquida do BC no mercado futuro passou de US$ 22 bilhões positivos para US$ 12 bilhões negativos entre 15 de setembro de 2008 até o fim daquele ano.

Enquanto as operações de swap foram uma resposta à escassez total de liquidez em dólar, a venda de dólar futuro foi, quase inteiramente, destinada a diminuir a pressão sobre as firmas exportadoras que tinham posições de curto prazo em derivativos cambiais e que elas precisavam desfazer, compara o texto do FMI.

A quarta iniciativa do BC foi vender dólares aos bancos, que poderiam emprestar os recursos a empresas exportadoras, desde que estas dessem em garantia papéis denominados em dólar e com boa classificação de risco ou contratos de exportação. Foram gastos US$ 11 bilhões entre 6 de outubro de 2008 e 14 de janeiro de 2009. A última iniciativa mencionada pelo FMI foi a decisão do BC de destinar até US$ 10 bilhões ao financiamento de empresas endividadas em dólar. Como os mercados se normalizaram nos meses seguintes, apenas US$ 2 bilhões foram usados.

As iniciativas, afirmam os especialistas do FMI, foram seguras (ao exigir contrapartidas e garantias) e adotadas no timing correto. Além disso, diminuíram o estresse e restauraram a confiança dos mercados. Os instrumentos foram inovadores (o BC atuou, inclusive, assinala o estudo, no mercado de derivativos). A magnitude foi a ideal porque se conseguiu atender a demanda do mercado por dólar, limitando a perda de reservas cambiais. O BC foi também, diz o FMI, claro no seu papel como provedor de liquidez, enquanto alguns outros BCs de mercados emergentes foram menos transparentes.

Os autores lembram que o BC só reduziu a taxa básica de juros em janeiro de 2009, uma decisão criticada no debate interno da crise. Sem entrar em detalhes, e é bom lembrar que o Fundo recomendou a redução generalizada dos juros em todo o mundo, o estudo cita que o BC também atuou para normalizar a liquidez no mercado de reais e faz uma ponderação: emprestar em moeda local para empresas que estavam desesperadas em busca de dólar teria tido efeito limitado - elas teriam que converter os reais em dólar com o câmbio depreciado ou fazer swaps por dólares usando o mercado futuro que, naquele momento, estava muito menos líquido.

É interessante notar que, pela primeira vez, em 27 anos de crises internas e externas, o Brasil não precisou pedir socorro ao FMI. Os comentários, portanto, não estão relacionados ao receituário que a entidade costuma impor a quem lhe implora ajuda, mas a medidas adotadas soberanamente pelo país. O enfrentamento bem-sucedido da crise não foi obra de uma pessoa só ou mesmo de um grupo de pessoas, ainda que o mérito de alguns personagens seja inegável, mas de uma instituição chamada Banco Central do Brasil. A vitória, portanto, é da sociedade, que forjou o BC que está aí e, por meio de seus dirigentes políticos, vem, há dois governos, apoiando sua autonomia.

Cristiano Romero é repórter especial e escreve às quartas-feiras.

E-mail cristiano.romero@valor.com.br