Brasil lidera embate com EUA em reunião ministerial da OMC

Veículo: Valor Econômico
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Assis Moreira

Um embate protagonizado pelo Brasil e os Estados Unidos marcou a abertura da conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), ontem, mostrando que o impasse da Rodada Doha tende a persistir por um bom tempo. Ron Kirk, principal negociador americano, condicionou um acordo de Doha a concessões adicionais para suas exportações agrícolas, industriais e de servicos, o que levou o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, a qualificar a demanda de irracional, deixando claro que os emergentes chegaram ao limite.

China, Índia e mesmo países desenvolvidos persistiram na pressão sobre os EUA, com alguns qualificando informalmente de ideia absurda a demanda da administração Barack Obama de obter mais concessões para seus exportadores, reabrindo um pacote já duramente negociado, em querer pagar o preço por isso.

Isolado e sob pressão da grande maioria para voltar à mesa de negociações, os EUA ignoraram esse cenário e partiram para o ataque. Ron Kirk não só rejeitou as pressões como apontou diretamente os países dos quais espera concessão adicional de abertura de seus mercados, a começar por Brasil, China e Índia. Ele argumentou que as principais economias desenvolvidas têm um papel cada vez mais importante na economia mundial e citou dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), de que 58% do crescimento econômico internacional entre agora e 2014 virá da China, Índia, Brasil, Argentina, África do Sul e países do Sudeste Asiático.

A criação de um novo fluxo de comércio e ampla abertura do mercado, em particular nesses países, é necessária para que seja cumprida promessa de desenvolvimento da Rodada Doha, cobrou. Kirk foi além, deixando claro que não adianta pressão, que não é um país ou um pequeno grupo de membros que pode ditar ou levar ao sucesso, porque Washington está mais preocupado com substância do que com prazo.

Também rejeitou a conclamação generalizada por nova reunião de ministros ano que vem para examinar problemas na negociação global. Advertiu que a barganha tem de vir mesmo é de negociação bilateral, ou seja, onde os EUA sentam de um lado da mesa como a nação mais poderosa.

Enquanto Kirk falava, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, inseria à mão no discurso a resposta que daria nove minutos depois no pódio. É irracional esperar que a conclusão de Doha possa envolver concessões adicionais unilaterais dos países em desenvolvimento, retrucou Amorim. Disse que a contribuição dos países em desenvolvimento já vai ser maior do que a dada por países ricos em qualquer outra negociação global anterior.

O ministro insistiu que que a crise de paralisia na negociação global, quanto mais durar, mais pode ajudar na estagnação econômica, perda de empregos e perda de milhares de vidas em países pobres. Para Amorim, a alternativa a Doha será mais protecionismo, mais fragmentação do comércio internacional, mais desigualdade, mais instabilidade social e política.

Na saída, disse: A resposta foi na bucha, comentando que preparou no ato a réplica. Ele (Kirk) me cumprimentou pelo discurso, acho que ele não entendeu..., disse, com humor. Mais tarde, ao ser indagado pelo Valor, Kirk saiu pela tangente. Ah, pergunte ao ministro Amorim, e partiu.

O Brasil e os EUA estão se chocando em várias áreas, como na questão de Honduras. Na área comercial, a decepção brasileira é enorme. Como o Valor revelou, os americanos recentemente apareceram com uma lista de 3 mil produtos, 30% do universo tarifário brasileiro, entre os quais esperam concessão adicional para a entrada de suas exportações com alíquota mais baixa.

A Índia advertiu que demandas americanas são contraprodutivas, deixando claro que isso só aumenta a tensão. Aproveitou para criticar o protecionismo verde, baseado em questões ambientais.

Num caso raro, a China enviou seu ministro de Comércio, Chen Deming, que também atacou os EUA na área cambial e cobrou a conclusão de Doha com base nos esboços já negociados. A pressão tem sido geral para os EUA voltarem à mesa de negociação com base no que já foi acertado na OMC.

A União Europeia se juntou ao coro, atraves da até ontem comissária europeia de Comércio, Catherine Ashton. Até o G-10, grupo de países desenvolvidos mais protecionistas e que nunca escondeu o temor com abertura comercial, incluindo o Japão, Suíça e Noruega, pediu a conclusão de Doha.

A ministra suíça, Doris Leuthard, exemplificou que nem tem como fazer mais concessões, diante da pressão dos agricultores. Recentemente, ela foi alvejada por botas jogadas por pecuaristas, num debate.

Enquanto isso, os grupos de países em desenvolvimento, representando dois terços dos membros da OMC, fizeram uma grande reunião depois de uma ciumeira nos bastidores em relacao ao Brasil, segundo fontes.

O país tem papel preponderante na negociação, mas alguns, como Costa Rica, não engolem isso e teriam articulado para evitar que o ministro Celso Amorim sentasse no pódio, durante a reunião dos grupos. Mas diplomatas brasileiros insistiram que já há duas semanas tinha ficado acertado o formato do pódio, sem os chefes de grupos.

Ontem, em todo caso, Amorim, se sentou no auditório na reunião do chamado grupo informal de países em desenvolvimento e o mais próximo possível da porta de saída. O que não diminuiu a procura de outros ministros para ter encontros com ele.

Na abertura da conferência ministerial, o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, confirmou que a queda no comércio global é superior a 10% este ano, mas que o protecionismo até agora só atingiu 1% desse fluxo. Mas avisou que o desemprego está em progressão e as pressões protecionistas tendem a aumentar.