Brasil costura com os EUA acordo inédito já para 2010

Veículo: Folha de S. Paulo
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Luciana Coelho

Em meio a tensão diplomática, o chanceler Celso Amorim diz que a negociação visa cooperação comercial ampla e investimentos.Na véspera de reunião da OMC, emergentes pedem outro encontro para discutir Doha e querem colocar americanos na berlinda.

O Brasil costura um acordo inédito com os EUA ao mesmo tempo em que os culpa por travarem a Rodada Doha de liberalização do comércio global. O chanceler Celso Amorim reuniu-se ontem em Genebra com Ron Kirk, titular americano de comércio exterior, com quem disse esperar fechar um acordo de cooperação em comércio e investimento já em 2010.
Segundo Amorim, o Brasil propôs aos americanos um modelo semelhante ao adotado com a Suíça: um tratado mais amplo em que cabem discussões sobre investimentos e tarifas e que visa ampliar as vendas brasileiras. Um foco, afirma, é o setor de tecnologia.
Os dois países devem manter nova reunião já em dezembro, quando os EUA devem sugerir mudanças e adendos ao plano.
Devemos incluir investimentos, não necessariamente do tipo mais convencional. É mais para promoção. E vamos continuar trabalhando fortemente em acordos de bitributação, tem muita empresa brasileira interessada, disse.
O chanceler -o primeiro na lista de reuniões informais de Kirk em Genebra- exemplificou que até questões de propriedade intelectual (patentes) e tarifas sobre etanol cabem nesse contexto. Os temas são dos mais caros ao Brasil em sua agenda com os EUA.
Os dois já haviam debatido no Brasil, em julho, a necessidade de estender o chamado mecanismo bilateral de consultas que mantêm. A ideia americana era pôr essa agenda de discussão de pouco efeito comercial prático no arcabouço mais formal de um acordo de cooperação.
Fechado, o acordo será o primeiro do tipo entre os países.

Berlinda
As conversas vêm num momento em que a multiplicação de tratados bilaterais e plurilaterais, mais restritos, marca o ocaso da Rodada Doha -cada dia mais um defunto insepulto.
Ontem, os países do chamado G-20 agrícola (Brasil à frente), apoiados pelo mais amplo G-33 de países emergentes, emitiram um comunicado em que pedem uma reunião no início de 2010 no âmbito da OMC para avaliar o progresso alcançado, identificar obstáculos e explorar modos de concluir de forma bem-sucedida a rodada até o fim de 2010.
É uma forma pouco sutil de colocar os EUA na berlinda -o Brasil e praticamente todos os países emergentes, bem como alguns europeus, culpam Washington por parar Doha.
A Casa Branca, sem margem de manobra em um Congresso no qual pesa o forte lobby agrícola independentemente de qual seja o governo de turno, hesita em reduzir os subsídios e insiste em mais acesso aos mercados emergentes -estes, por sua vez, já têm cedido.
Antagonistas no tema, Kirk e Amorim trataram superficialmente de formas de fazer Doha andar. Ele Kirk falou que o presidente americano, Barack Obama está engajado e que 2010 continua sendo um horizonte. Com isso todos concordamos, mas, como chegar lá eu não sei, ironizou Amorim.
O comunicado do G-20, sintomático, veio na véspera da esvaziada reunião ministerial da OMC, de hoje até quarta, de cuja pauta Doha foi excluída.
O resultado é o encontro de alto nível mais sem estofo do organismo, pela primeira vez sem agenda concreta. Embora mantenham a rodada viva nos plenários e comunicados, até seus maiores entusiastas já a velam pelos corredores.
Amorim, após dizer que o fim de Doha ameaça até o esforço para coibir a mudança climática (e os eventuais resultados da conferência do clima em Copenhague, em dezembro) e de chamar os bilaterais de teatro de sombras que adia a conclusão da rodada, respondeu assim ao ser indagado se esperava uma ministerial esvaziada: A reunião do G-20 foi ótima. Não me importa se o encontro desta semana for vazio ou não.