Às vésperas do Natal, Argentina adota barreira contra brinquedos brasileiros

Veículo: O Globo
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Janaína Figueiredo

Cinco dias após o encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Cristina Kirchner, em Brasília, e no início da temporada de vendas de Natal, a Casa Rosada adotou ontem medidas protecionistas contra as importações de brinquedos brasileiros. Segundo resolução formalizada ontem, foram suspensas as disposições 300 e 506, implementadas em 2000, que simplificavam a validação de certificados de garantia dos brinquedos para entrar no mercado argentino. Com isso, os exportadores brasileiros perderam uma vantagem que tinham em relação aos rivais estrangeiros. Até ontem à noite, o governo brasileiro ainda não tinha conhecimento da medida.

A resolução foi autorizada pela Secretaria de Comércio Interior, comandada pelo polêmico secretário Guillermo Moreno (famoso por pressionar e até mesmo ameaçar empresários locais), um dos homens de confiança do casal presidencial argentino.

Segundo a secretaria argentina, a nova barreira contra o Brasil foi aplicada “porque perdeu-se o equilíbrio entre os interesses de ambas as partes (Brasil e Argentina)”.

Na mesma resolução, a secretaria de Moreno argumentou que as assimetrias que existem hoje no comércio bilateral exigem a aplicação de medidas como essas. Segundo o governo argentino, em 2007 as autoridades brasileiras modificaram de forma unilateral as normas vigentes para as importações de brinquedos e só aceitaram realizar uma modificação parcial em outubro deste ano.

Os conflitos comerciais entre Brasil e Argentina se acentuaram há um ano, quando o governo Kirchner reforçou a implementação de medidas protecionistas (pelas licenças não automáticas).

A decisão do governo Lula de revidar com a mesma medida a alguns produtos argentinos, adotada recentemente, aprofundou as diferenças entre os dois sócios do Mercosul.

Encontro entre Cristina e Lula não resolveu problema Hoje, as barreiras prejudicam cerca de 17% das vendas brasileiras para o mercado argentino.

No primeiro semestre deste ano, as importações brasileiras na Argentina despencaram 43%.

Entre janeiro e setembro de 2009, o intercâmbio comercial entre os dois países alcançou US$ 16,1 bilhões, o que representa uma redução de quase 32% ante o ano passado.

Segundo a empresa de consultoria Abeceb.com, a importação de brinquedos brasileiros pela Argentina somou US$ 2,8 milhões em 2008. No mesmo período, a China exportou o equivalente a US$ 116 milhões para o país vizinho. Nos primeiros oito meses de 2009, o Brasil vendeu US$ 1,3 milhão contra US$ 48,7 milhões da China.

No encontro de semana passada, os presidentes Lula e Cristina não conseguiram encontrar uma saída para a crise comercial.

O governo brasileiro assegurou que o protecionismo não resolve os problemas de um país e a Argentina se manteve firme em sua decisão. Embora a imprensa argentina tenha considerado um fracasso a reunião presidencial, Cristina mostrou-se otimista.

— O ministro da Economia (Amado Boudou) me disse que não pode acreditar que, após a conversa que tivemos com o presidente Lula, alguns meios de comunicação digam as coisas que disseram — disse ela.

Porém, a medida adotada ontem mostrou que a crise continua.