Dólar volta a cair e governo admite novas medidas

Veículo: O Globo
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Felipe Frisch, Martha Beck e Geralda Doca

O dólar voltou a se desvalorizar ontem, no Brasil e no mundo, confirmando a avaliação de economistas de que a taxação de investimentos estrangeiros em Bolsa e em renda fixa — com a elevação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para 2%, anunciada na segunda-feira — seria inócua.

No Brasil, a divisa chegou a subir 1,37% e bater R$ 1,769 pela manhã, ainda refletindo as medidas anunciadas pelo governo, mas encerrou o dia em queda de 1,20%, a R$ 1,724. Já o euro avançou 0,79% frente à moeda americana, a US$ 1,5046. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, admitiu ontem que novas medidas para conter a excessiva valorização do real frente ao dólar podem ser adotadas.

— Temos que observar a repercussão dessa medida (cobrança do IOF). Mas isso não impede que a gente pense em medidas adicionais e complementares — afirmou Mantega.

Um dos motivos para a queda global do dólar é o juro zero dos EUA, o que leva os investidores a buscarem no mundo um retorno melhor. O Brasil oferece uma boa rentabilidade, com juros básicos (Selic) em 8,75% ao ano, o quarto maior juro real (descontada a inflação) do mundo, segundo a UpTrend Consultoria.

Além disso, o país atrai recursos por ser exportador de matériasprimas e estar se recuperando rapidamente da crise global.

— É difícil dizer até onde o dólar vai, mas a liquidez no mundo ainda está abundante, os juros nos EUA ainda vão ser zero por um tempo e podemos ter uma valorização do real por mais alguns meses. Só ao longo de 2010 deveremos ter alguma desvalorização do real — avaliou o economista José Alfredo Lamy, sócio da Cenário Investimentos.

A equipe econômica está sob pressão do mercado. Hoje à tarde, Mantega receberá o diretorgeral da BM&F Bovespa, Edemir Pinto, para ouvir as queixas do setor. Representantes dos agentes financeiros já procuraram o ministro para pedir uma mudança, como taxação na saída do capital. Uma das alternativas seria taxar o capital externo pelo tempo de permanência no país.

O governo também teme que o imposto prejudique operações positivas para a economia, como a abertura de capital das empresas (IPOs). O senador Aloizio Mercadante (PT-SP), do grupo de economistas conselheiros do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, prometeu defender a isenção dos IPOs junto a Mantega, para preservar as médias e pequenas empresas, que não têm condição de emitir papéis fora do país.

Governo já se prepara para chuva de dólar com pré-sal

Mantega disse que o governo já se prepara para enxugar os dólares que devem entrar no país na esteira do pré-sal. A primeira ofensiva será na capitalização da Petrobras, prevista para 2010, que pode atrair US$ 30 bilhões de uma só vez, se os acionistas minoritários — boa parte estrangeiros — exercerem o direito de manter sua participação inalterada.

Segundo Mantega, se isso ocorrer, o governo comprará esses dólares para compor as reservas internacionais ou o Fundo Soberano. Ele estima que as atividades do pré-sal atraiam capital estrangeiro suficiente para elevar as reservas cambiais do país dos atuais US$ 233 bilhões para US$ 500 bilhões.

A primeira metade de outubro já registra o maior superávit financeiro (diferença entre entrada e saída de investimentos estrangeiros em ações, títulos e aplicações de renda fixa) dos últimos 11 anos e meio, informou ontem o Banco Central.

Sob o impacto da oferta de ações do Santander, até o dia 16 a conta tem saldo positivo de US$ 9,910 bilhões, dos quais US$ 5,642 bilhões só na semana passada.

Em março de 1998 (mês fechado), o movimento ficara positivo em US$ 11,191 bilhões.

Na conta comercial, o saldo ficou em US$ 579 milhões, com exportações de US$ 6,469 bilhões e importações de US$ 5,890 bilhões. O fluxo cambial geral fechou o período com superávit de US$ 10,489 bilhões

COLABORARAM: Patricia Duarte e Cristiane Jungblut