Crédito a empresas ainda não se recupera

Veículo: Folha de S. Paulo
Seção: Dinheiro
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Cenário é melhor para pessoas físicas, com recuo da inadimplência e das taxas de juros e aumento no volume de empréstimos

Para o BC, inadimplência maior de empresas se deve à dificuldade na rolagem das dívidas que venceram desde setembro do ano passado
EDUARDO CUCOLO
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Acompanhando a retomada do nível de atividade econômica e do emprego formal, dados do Banco Central mostram que, em agosto, a situação do crédito melhorou para as pessoas físicas, mas ainda não se recuperou para as empresas.
Enquanto a taxa de inadimplência para pessoas físicas recuou pelo segundo mês seguido, o indicador das empresas apresentou alta pelo nono mês. Também houve recuo da taxa média de juros ao consumidor, que caiu para 44,1% anuais -menor nível desde dezembro de 2008-, e aumento dos empréstimos para pessoas físicas.
A queda na inadimplência das pessoas físicas fez com que a taxa geral, que inclui empresas, ficasse estável no mês passado, após subir por oito meses consecutivos. São considerados inadimplentes os clientes com empréstimos vencidos há mais de 90 dias. No mês passado, 5,9% do volume de crédito no país estava nessa situação.
De acordo com o BC, o aumento da inadimplência se deve à dificuldade na rolagem das dívidas que venceram desde setembro do ano passado, quando a crise internacional de crédito provocou uma paralisação desse mercado no Brasil. Como o crédito para as famílias se normalizou de forma mais rápida do que para as empresas, são essas últimas que ainda sentem os efeitos da crise.
Essa diferença pode ser vista na alta das concessões de novos empréstimos a pessoas físicas. O valor de agosto já está 6% acima da média mensal registrada nos nove primeiros meses de 2008, segundo cálculos da Consultoria Tendências, baseados nos números do BC. Nesse caso, o número exclui efeitos sazonais e inflação do período.
No caso das empresas, as novas operações de crédito liberadas pelos bancos ainda estão 10% abaixo dessa média. Apesar de o dado ainda estar negativo, o economista Bruno Rocha, responsável pelo estudo, destaca que o percentual de queda estava em 13% até julho.
"O que está faltando para o mercado de crédito sair de fato desse período de crise é melhorar de vez esses indicadores de crédito para pessoas jurídicas", afirmou. Outro fator que ajudou as empresas foi a queda, nos últimos três meses, do "spread" bancário -parcela dos juros que embute custos, riscos e lucro dos bancos
A queda do "spread" tem sido um dos principais fatores que ajudaram a reduzir os juros bancários neste ano, ao lado da redução de cinco pontos percentuais promovida pelo BC na taxa básica de juros.
As taxas para o crédito pessoal e financiamento de veículos, que em julho chegaram ao patamar mais baixo da série do BC, voltaram a cair em agosto, para 44,3% anuais e 26,2% ao ano, respectivamente. O juro do cheque especial também teve forte queda no mês passado e está hoje em 161% ao ano, menor taxa em 14 meses.
Paras as empresas, a taxa média está em 26,4% anuais, a menor em um ano e meio. Em agosto, houve recuo no juro da conta garantida e capital de giro, duas das principais linhas.