A crise está pior que há um ano

Veículo: O Estado de S. Paulo
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Jamil Chade

O Brasil precisa de mais 15 anos de estabilidade macroeconômica, como teve com os presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, para conseguir de fato um avanço profundo na luta contra a pobreza. Essa é a opinião do economista Jeffrey Sachs, uma das principais personalidades acadêmicas hoje no mundo e diretor do Earth Institut da Universidade Columbia, em Nova York. Após palestra, ontem, nas Nações Unidas, Sachs falou ao Estado sobre a crise mundial e a situação do Brasil. Para ele, ainda há dúvidas sobre o modelo de recuperação brasileira e aponta que o País será beneficiado pelo crescimento da Ásia. Sobre a economia mundial, ele disse: O pânico passou, mas não a crise; ela está pior que há um ano. A seguir, a entrevista.

O Brasil anunciou que saiu da recessão. Como o sr. avalia a situação do País?


Há 15 anos, o presidente Fernando Henrique Cardoso pôs, finalmente, o Brasil no caminho certo. Lula o manteve. E foi isso o que possibilitou que o Brasil enfrentasse a crise de forma madura e sólida. Mas os desafios ainda são grandes. O Brasil precisará de outros 15 anos no mesmo caminho para superar seu maior desafio: a pobreza e a desigualdade social. O Brasil se saiu relativamente bem nessa crise. Vemos crescimento na China, Índia e Brasil. Mas ainda existem dúvidas em relação à saída dessa crise, mesmo que os números hoje sejam positivos.

Quais são essas incertezas?

A realidade é que a parcela mais frágil da recuperação vem dos países ricos, onde a crise surgiu. Vai levar mais tempo para americanos e europeus superarem a crise. O problema é que essa situação terá impacto nos países emergentes. A questão financeira foi relativamente superada. Mas o contágio por meio do comércio continua. Na prática, Brasil, China e Índia vão perder em exportações para os mercados maduros nos próximos meses, ainda. O consumo caiu e não vai se recuperar tão cedo. Por isso, o Brasil não deve esperar que suas exportações para Europa e Estados Unidos retornem aos níveis anteriores à crise no curto prazo. A incerteza está exatamente nessa questão: até que ponto o crescimento interno desses países pode compensar a perda no mercado externo.

E como essa incerteza pode ser desfeita?

O Brasil terá de olhar cada vez mais para a Ásia, que onde o crescimento ocorre. O que vimos é que grandes emergentes, como a China, adotaram pacotes para relançar suas economias. Essas medidas tiveram sucesso e a estratégia foi substituir as perdas com as exportações por um mercado doméstico aquecido. A incerteza é que, se as exportações continuarem baixas para os maiores mercados, até que ponto os mercados domésticos darão conta? Há razões para pensar que esse crescimento pode continuar nas mesmas bases, mas há também dúvidas. Uma delas é que o excesso de crédito na China pode causar novas bolhas e até aumento da dívida. Temos de deixar claro que a recuperação dos Estados Unidos levará tempo. A China e a Ásia é quem darão o tom da recuperação. Nesse caso, o Brasil pode continuar a crescer, uma vez que suas exportações são cada vez mais voltadas para a Ásia. O Brasil, assim, consegue sair da situação do México, que tem uma crise profunda diante de sua relação com os americanos.

Quais serão os desafios do País nos próximos anos?

O País fez muito em educação e conseguiu uma estabilidade que não conhecíamos no Brasil. Mas há muito ainda por fazer. O foco agora terá de ser a garantia de tradução dessa estabilidade em ganhos sociais. Só assim o desenvolvimento virá, e não apenas com o crescimento da economia.

Os mais otimistas já falam no fim da crise. Qual sua avaliação?

O fase do pânico passou. Há pelo menos uma normalização ocorrendo. Existia a preocupação que o mundo pudesse ir para a depressão. Isso foi evitado. Mas a situação da economia mundial continua frágil. Em alguns lugares, a situação é muito ruim. O que existe é apenas bolsões de recuperação forte. Nos Estados Unidos e na Europa, o desemprego vai continuar. Nos países pobres, a situação é ainda mais dramática. Portanto, a recuperação é só uma miragem. A realidade é que a recuperação não é sustentável. Os riscos são enormes, entre eles os déficits fiscais. Enfim, a crise continua muito profunda e pior ainda que há um ano.

De quem é a responsabilidade por tudo o que ocorreu?

A crise foi financeira, causada por uma política monetária desastrosa, com fraudes e um mercado sem nenhuma regulação. Não pode ser que o mercado de derivativos tenha passado de zero a US$ 62 trilhões em sete anos. Onde estava Alan Greenspan (ex-presidente do Fed, o banco central dos EUA)? O pânico foi superado. Mas a irresponsabilidade de Wall Street passou impune. Não há hoje nenhuma garantia de que teremos uma nova estrutura de regulação.

Como o sr. vê a resposta do governo Barack Obama à crise?

Nos Estados Unidos, Wall Street teve muita influência no monitoramento do mercado e, curiosamente, a crise foi causada pela falta de regras. Wall Street é o maior lobby hoje nos EUA, gastou US$ 3,6 bilhões em dez anos para fazer com que seus interesses sejam atendidos. Compraram muita lei e levaram a economia mundial à beira do desastre. A relação entre a Casa Branca e Wall Street foi sempre muito forte e não está claro que esse lobby esteja controlado. É decepcionante ver que Obama não conseguiu controlar a distribuição de bônus de executivos, depois de tudo. Isso é no mínimo injusto. Mas isso ocorreu graças ao lobby e Obama fracassou em regular. A Europa quer controlar, mas os Estados Unidos resistem e isso será um grande erro.

O que, então, deve ser feito?

A questão é muito simples. Obama não tem mais espaço fiscal para ajudas. Já temos um déficit de US$ 1,5 trilhão. A Casa Branca sabe que não poderá manter os desequilíbrios.Precisamos abandonar a ideia de uma solução imediata para um acordo amplo para o médio prazo. Isso somente poderia ocorrer com o aumento de investimentos em infraestrutura e em tecnologias ambientais. É o que eu chamo de recuperação verde.