"Retaliar os EUA é como dar tiro no pé"

Veículo: O Estado de S. Paulo
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Marcelo Rehder


A decisão da Organização Mundial de Comércio (OMC), ao autorizar o Brasil a retaliar os Estados Unidos no contencioso do algodão, foi uma grande vitória, porém difícil de ser exercida. A avaliação é do embaixador e ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, que participou ontem, em São Paulo, de seminário sobre política externa do Brasil

"Discriminar contra produtos americanos é como dar um tiro no próprio pé, porque vai afetar as exportações brasileiras para lá", explicou Recupero.

Segundo ele, é muito difícil retaliar contra um país como os EUA, porque normalmente há interesse em manter comércio com esse país. "Os Estados Unidos são o mercado para o qual nós exportamos mais produtos sofisticados e de alta tecnologia, como aviões da Embraer, automóveis entre outros industrializados", disse Ricupero, "Boa parte desses produtos é produzida aqui por empresas americanas, como a Ford e General Motors."

Também presente ao evento, o embaixador Luís Felipe Lampreia, ex-ministro das Relações Exteriores, disse que uma retaliação cruzada, como a quebra de patentes, talvez não seja o melhor caminho. "A quebra de patente é um fenômeno negativo, não é aconselhável nem desejável, porque cada vez mais o Brasil tem marcas, e patentes e não deve, portanto, estimular a violação desses direitos de propriedade intelectual."

Para Ricupero, a vitória do País na OMC serve mais para marcar posição nas negociações. do que utilizá-la propriamente na retaliação. "Não é apenas o caso em si, mas mostrar pela condenação que isso deve ser aplicado nas negociações que ainda não terminaram da Rodada Doha", explicou.

Segundo o embaixador Sérgio Amaral, que era ministro da Indústria e Comércio na época em que o País entrou com a reclamação contra os EUA na OMC, disse que o princípio é mais importante que o valor e a dor que o governo brasileiro possa infligir aos exportadores americanos, O princípio é de uma luta contra os subsídios e essas questões de comércio têm que ser vistas de um ponto de vista técnico", disse. "O Brasil deve retaliar os Estados Unidos, mas eu acho que nessas questões, não pode haver dois pesos e duas medidas. Nesse ponto nós temos sido muito benevolentes com a Argentina em relação a tomar medidas de defesa comercial."

Para o embaixador Marcos Azambuja, ex-secretário geral das Relações Exteriores,"as vitórias na OMC não são decisivas, mas o acúmulo delas vai induzir os outros países a nos tratarem com mais respeito e cuidado."