Governo estuda conceder ajuda a setor algodoeiro

Veículo: Valor Econômico
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Assis Moreira


O governo estuda medidas "inovadoras" para ajudar o setor de algodão, informou ontem o embaixador brasileiro na Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevedo, pouco depois de o país ter obtido o segundo maior valor de retaliação da história da entidade na briga com os Estados Unidos.

O setor gastou mais de US$ 3 milhões na disputa porque reclamava de prejuízos com a queda dos preços internacionais provocados pelos subsídios americanos e pelo deslocamento de suas exportações em terceiros mercados. Mas a questão ontem era o que o setor ganha com a autorização de retaliação?

Foi nesse contexto que o representante brasileiro explicou que o governo está "pensando" em ajudar o setor afetado, mas não há entendimento ainda dentro do próprio governo.

Segundo Azevedo, estão sendo examinadas medidas inovadoras que não foram digeridas ainda pelos setores que tomam decisões no Brasil. "Não sei se são factíveis, ainda é algo incipiente", disse depois de novas questões.

Para o embaixador, o setor do algodão, que já gastou mais de US$ 3 milhões em sete anos de disputa na OMC, ganha em todo caso mais poder de pressão se o Brasil vier a aplicar a retaliação. E isso é algo que em Genebra ninguém sabe se ocorrerá. Depende da Câmara de Comércio Exterior (Camex). Azevedo evitou mencionar inclusive retaliação na área de propriedade intelectual.

Outro ganho é político, na sua visão. "O simbolismo da retaliação é forte e esperamos que os EUA cumpram enfim uma decisão depois de terem sido condenados quatro vezes", afirmou.

Para a Oxfam, uma respeitada organização não governamentais (ONG), os EUA perderam a batalha. Ela acusou Washington de subsídios injustos que afetam países pobres. "A política agrícola americana está quebrada e inchada e agora outros setores da economia americana podem sofrer com a retaliação brasileira", diz em comunicado.

Pelos cálculos da ONG, a ajuda total para a produção americana de algodão passou de US$ 3 bilhões - menor que a cifra brasileira - em 2008-2009, ou equivalente a 50% da produção atual.

A Oxfam calcula que se os EUA removessem todas as subvenções ao algodão, o que parece um sonho no contexto atual, o preço mundial da commodity teria um aumento de 6% a 15%, resultando em renda adicional para milhares de produtores.