Indústria não pode esperar

Veículo: O Globo
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Armando Monteiro Neto


Depois das fortes oscilações registradas entre setembro e dezembro de 2008, no auge da crise global, o real voltou a se valorizar diante do dólar. Em meio à forte retração da demanda externa, a reação da moeda brasileira representa mais um obstáculo ao aumento da competitividade e da participação de nossos produtos no mercado internacional.

O Brasil precisa adotar medidas cujos efeitos sobre o câmbio favoreçam a produção nacional. Tais ações são urgentes, porque não conseguimos superar entraves estruturais que nos penalizam, como a elevada carga tributária, o alto custo de capital, os encargos sobre os salários e as deficiências na infraestrutura, entre outros componentes do Custo Brasil.

O fortalecimento do real é resultado da melhoria dos fundamentos econômicos, o que reduziu a vulnerabilidade do país às crises externas e estimulou a entrada de capital estrangeiro. O movimento do câmbio reflete, ainda, a desvalorização do dólar em relação às demais moedas e o aumento do superávit comercial. No entanto, diante das limitações do País em outras áreas, a atual tendência do câmbio desestimula as exportações, principalmente de produtos industrializados.

As vendas externas do Brasil acumularam queda de 23% de janeiro a junho deste ano na comparação com igual período de 2008. Dados da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex) mostram que a queda reflete o recuo de 11% nos preços internacionais e de 13% no volume exportado.

Os resultados só não foram piores porque o volume exportado de produtos básicos aumentou 7%. No mesmo período, o volume exportado de manufaturados recuou 28%. Com o cenário externo desfavorável associado à valorização do real, as exportações brasileiras devem encerrar 2009 com queda superior a 23%.

O dólar fraco também estimula as importações de bens de consumo, que acabam concorrendo com os produtos nacionais no mercado doméstico, prejudicando segmentos importantes da indústria. Isso impacta negativamente os projetos de investimentos, o nível de emprego e expansão da produtividade da indústria.

A redução substancial nos juros básicos da economia é uma das medidas esperadas. Atualmente, os juros dos títulos públicos brasileiros são cerca de 4% superiores aos americanos. A queda da taxa diminuiria a atratividade externa dos títulos públicos do país e, consequentemente, conteria o ingresso de moeda estrangeira e a valorização do real.

Outra medida importante é o incremento das compras do excesso de dólares pelo Banco Central e a acumulação das reservas internacionais. A atuação do BC no mercado tem sido decisiva para evitar fortes oscilações no câmbio. No auge da crise, o banco vendeu parte das reservas internacionais para conter a excessiva valorização do dólar. A partir de março, voltou a comprar a moeda americana para equilibrar o câmbio. A intensificação do movimento de compra neste momento evitará o excesso de volatilidade da moeda, facilitará a formação de preços e a previsão de fluxo de caixa das empresas, principalmente das que têm receitas e despesas atreladas ao dólar.

A redução dos juros e o aumento da compra de dólares são medidas que necessitam implementação conjunta.

Isso porque uma política ativa de acúmulo de reservas internacionais implica elevação de custos fiscais. Afinal, para evitar o excesso de monetização da economia, o governo terá de retirar moeda de circulação por meio da emissão de títulos públicos. A redução simultânea dos juros reduzirá os custos fiscais desses títulos.

O estímulo às vendas externas também exige uma solução definitiva para o ressarcimento dos créditos tributários e a desoneração das exportações.

Complementar as medidas de incentivo à produção e ao consumo interno com ações que promovam as vendas externas é imprescindível para a retomada do crescimento econômico e a inserção das empresas brasileiras no mercado global. A indústria brasileira não pode mais esperar.

ARMANDO MONTEIRO NETO é presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).