Amorim agora defende acordo do Mercosul com UE

Veículo: Estadão
Seção: Economia & Negócios
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Itamaraty investiu na Rodada Doha durante 6 anos, mas agora se convenceu de que retomada é inviável

Denise Chrispim Marin, BRASÍLIA

Depois de seis anos de insistência, o chanceler Celso Amorim rendeu-se ao fato de que não há chance de avanço na Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). Ao lado do ministro de Assuntos Exteriores da Espanha, Miguel Ángel Moratinos, Amorim defendeu a aposta do Brasil na retomada da negociação sobre livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE), "com pragmatismo e sem fundamentalismos", para a conclusão de um acordo até meados de 2010.

"As incertezas sobre o futuro da Rodada Doha, em especial a falta de engajamento de um dos principais atores, nos levam a mudar o foco e a trabalhar com empenho nas negociações do Mercosul com a União Europeia", afirmou Amorim, referindo-se aos Estados Unidos. "Os acordos de livre comércio são antídotos contra as crises."

Nos últimos seis anos, o Itamaraty manteve Doha no topo de sua agenda comercial, sob o argumento de que teria resultados mais efetivos na abertura do mercado agrícola dos países desenvolvidos. As negociações do Mercosul com outros parceiros não alcançariam tais objetivos. Teriam de se restringir a uma modesta abertura e só poderiam ser concluídas após um acordo na OMC para evitar o "pagamento em dobro" pelas concessões. Essa também foi a aposta da União Europeia.

Amorim insistiu na Rodada Doha até a última Cúpula do G-8, no início de julho, na Itália, quando ficou explícita a resistência do governo Barack Obama. Ontem, ele recebeu novo alento sobre a retomada da negociação Mercosul-UE. Moratinos deixou claro que, durante a presidência espanhola da UE, no primeiro semestre de 2010, Madri se empenhará pela negociação rápida e pela conclusão do acordo bilateral.

A expectativa da chancelaria espanhola é de reinício das conversas até o fim deste ano. "A União Europeia está pronta. O Mercosul também dirá que está pronto. Mas ainda falta o impulso político", advertiu Moratinos. "O Mercosul e a União Europeia têm interesses suficientes para fechar esse acordo."

Em um gesto ainda mais explícito em favor dessa via, Amorim afirmou que o Brasil pode aceitar a possibilidade de a UE fechar acordos diferenciados com cada membro do Mercosul. Essa seria a alternativa para contornar resistências que contribuíram com a suspensão das negociações, em outubro de 2005. Naquela ocasião, a Argentina rejeitou a abertura do seu mercado automotivo.

Amorim pregou ainda uma posição mais flexível e pragmática dos dois lados na negociação, que se afaste do objetivo "fundamentalista" de "obter tudo". "Não queremos uma negociação com geometria variável. Mas, se ajudar, essa pode ser uma saída importante", afirmou.

Moratinos sustentou que a negociação Mercosul-UE não deve se concentrar em demasia na pauta agrícola, outro motivo da paralisação das conversas em 2005. "Temos de desembarcar mais carne bovina para dizer que há um acordo estratégico entre Mercosul e União Europeia? Acho que não."