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''Medidas anticrise só olharam o curto prazo''

Veículo: Estadão
Seção: Economia & Negócios
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Para economista, Brasil sairá menos competitivo da crise porque elevou os gastos públicos para estimular o consumo

Márcia De Chiara

O economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados, diz que o Brasil vai sair menos competitivo da crise, apesar de ter se livrado da pior fase mais rapidamente do que outros países. "O governo só olhou o curto prazo", diz ele, fazendo referência às políticas anticíclicas, que aumentaram os gastos públicos para ampliar o consumo. A exemplo da China, que expandiu investimentos em infraestrutura, ele diz que o País deveria ter aproveitado a crise para dar um salto de competitividade. A seguir os principais trechos da entrevista.

A economia brasileira já superou a crise? O que se pode esperar daqui para a frente?

No sentido mais geral, de evolução negativa do PIB (Produto Interno Bruto), a economia superou a crise. Mas isso não significa que voltou tudo como antes no quartel de Abrantes.

Por quê?

Porque, se é verdade que o mercado interno segurou razoavelmente bem, é verdade também que as exportações de manufaturados caíram fortemente e continuam ruins. Isso significa que a indústria está melhorando, mas tem desempenho negativo, na média.

Quanto o sr. projeta de crescimento para este ano e o para 2010?

Este ano, zero. No último trimestre do ano em relação ao último trimestre de 2008, crescimento de quase 3%. Para 2010, algo entre 3,5% e 4%, que é um bom número.

O mercado interno é suficiente para garantir esse crescimento?

Acho que sim.Tem uma parte disso que é exportação de commodities, que está razoável. Mas, fundamentalmente, é o mercado interno. Sem a exportação, será difícil ter uma sustentabilidade nessa faixa de crescimento olhando para depois de 2010. A economia se recuperou da pior fase da crise, mas com menor capacidade de crescer sem gerar inflação.

Por quê?

Basicamente porque perdemos a perna do mercado externo e um número muito grande de investimentos no mercado interno foi postergado. Com menos investimentos, a capacidade de crescer no longo prazo é menor.

Quando os investimentos e as exportações voltarão?

É a pergunta que todos gostariam de saber a resposta. O mercado externo volta muito lentamente porque depende das economias do mundo desenvolvido, que retomarão o crescimento muito lentamente, só a partir de 2011.

Quando a economia volta ao nível pré-crise?

Acho que vai demorar, dependendo do que vai acontecer na parte fiscal e estrutural. O custo à vista da crise é menor por causa da expansão do gasto público e do crescimento do mercado doméstico. Quando você expande a folha de pagamento do setor público, isso, no curto prazo, é demanda: as pessoas gastam e ajudam a vender os produtos nos supermercados e tudo mais. Mas isso diminui a capacidade de investimento do Estado no médio e longo prazos. No curto prazo, nós tivemos só dois trimestres de crescimento negativo e esse custo foi menor que em outros países emergentes. Mas isso terá um custo na redução da capacidade de crescimento que será inequívoco.

Por essa análise, a visão de que o Brasil está saindo mais rápido da crise não é verdadeira?

Ela tem um que de verdade no sentido de que teremos apenas dois trimestres negativos, mas a um custo enorme. Esse custo nós vamos ver mais adiante, crescendo menos. A expansão fiscal da China está muito em cima de infraestrutura. Portanto, no sentido de tornar a economia mais competitiva. A nossa expansão fiscal está muito mais em cima de aumentar o gasto corrente em folha de pagamento. O que vai acontecer é que a capacidade de poupar do setor público vai, inequivocamente, se reduzir.

A bolsa já está dando sinais de entrada de capital equivalente ao nível pré-crise. Não é um bom sinal?

Isso é um bom sinal. A razão é que a Ásia e parte dos países petroleiros estão crescendo bastante. A demanda por nossos produtos aumentou e, com a incerteza internacional, os grandes investidores tentam diversificar suas aplicações. Mas essa entrada de capital vai trazer de volta uma velha discussão do dólar baratinho. A forma de conviver com isso é aumentar a nossa capacidade competitiva. E essa capacidade está se reduzindo.

O Brasil pós-crise será menos competitivo?

Sim. Temos a vantagem de sair rápido por causa de medidas temporárias, como redução de imposto, ou permanentes, aumento de gastos em folha de pagamento. Esse tipo de resposta na política fiscal olhou só o curto prazo, teve alguma eficiência, faz sair mais rápido da crise. O custo de médio prazo não será pequeno.

O Brasil passou no teste da crise?

Depende do que você está olhando. A estabilidade foi duramente testada. O Brasil passou no teste: não houve inflação, não tivemos problema bancário, o crédito voltou e o sistema continuou funcionando direito. Mas a retomada rápida, à custa do crescimento de médio prazo, terá um custo.

O que deveria ter sido feito?

Aproveitar a crise para dar um salto no médio prazo, no sentido de avançar nas reformas. Na Previdência, o governo passou anos dizendo que não tinha problema algum. Agora começa a descobrir que tem. No investimento de infraestrutura tem muito discurso e pouca realidade. Perdemos poder de competição.

O governo não deveria ter tomado medida anticíclicas, como a redução tributária, por exemplo?

Acho que deveria, mas não deveria ter aumentado o gasto corrente. Isso é expansão pura e simples do Estado, e de forma permanente. Vamos pagar um preço por isso. Perdemos a chance de usar esse bom fundamento para dar mais um salto para a frente, para sair mais fortes do que antes, como, aparentemente, está acontecendo com a China. O governo brasileiro só olhou o curto prazo.


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