Furlan vai processar bancos por prejuízos

Veículo: GAZETA MERCANTIL - SP
Seção: Agronegócio
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Toledo (PR), O presidente do Conselho de Administração da Sadia S.A., Luiz Fernando Furlan, inaugurou ontem no Oeste paranaense mais uma planta industrial do grupo com investimento de R$ 206 milhões dentro do cronograma de cinco inaugurações de unidades previstas para até março de 2009 e que vão agregar uma receita de R$ 4 bilhões à companhia, que deve faturar mais de R$ 12 bilhões em 2008. Furlan adiantou que, por conta da crise de crédito, a empresa está revendo todos os investimentos previstos para 2009 e que não contemplam estas unidades quase concluídas: "Certamente vamos fazer alguns investimentos, mas será algo muito menor do que o planejado. A fábrica de Dubai, no Oriente Médio, por exemplo, poderá ter sua construção revista", disse ele. A empresa também vai cancelar algumas aquisições de empresas que estavam em andamento e seriam concluídas no ano que vem.

 

O presidente do Conselho da Sadia, que voltou a empresa depois de seis anos fora das atividades empresariais, adiantou também que está para receber os resultados dos estudos que estão sendo conduzidos pela empresa auditoria KPMG sobre o que levou a Sadia a operar muito acima dos limites autorizados no mercado futuro do dólar e ter prejuízos de R$ 760 milhões em operações de derivativos. Estes resultados serão apresentados aos acionistas na Assembléia Geral Extraordinária já convocada para o próximo dia 3 de novembro. "Temos indícios de que alguns grandes bancos internacionais induziram a empresa a realizar estas operações e vamos ver se há brechas para que possamos entrar com ações judiciais contra eles", disse Furlan. Questionado sobre quais bancos induziram a empresa, Furlan respondeu: "Eles estão aí no jornais".

 

O especialista em contencioso cível, Eduardo Coluccini Cordeiro, da Azevedo Sette Advogados, vê com reserva a chance de êxito nas ações que têm como objeto a revisão de contratos de derivativos por causa de oscilações, no caso, cambiais. O Código Civil, ensina, prevê a revisão de contratos desde que, haja um evento imprevisível que cause vantagem excessiva para uma das partes. "Mas não é o caso de um contrato de derivativo que, por sua natureza, é firmado para evitar o risco das variações. Quem o faz demonstra conhecer a possibilidade de ocorrer essas oscilações. Assim, não há o que questionar sobre o 'imprevisível'", explica Cordeiro.

 

Com o prejuízo, a Sadia, que lucrou R$ 350 milhões no primeiro semestre, deve entrar no vermelho. "Nós estamos contando com as vendas do final de ano para reverter este resultado porque várias novas unidades vão entrar em operação. Estamos com toda a nossa produção vendida e se tivéssemos mais capacidade já estaríamos exportando de US$ 200 milhões a US$ 300 milhões a mais do que atualmente", revelou.

 

Hoje o grupo opera em 21 plantas industriais, sendo 15 próprias, quatro alugadas e duas fora do Brasil - na Rússia e Holanda. Além da unidade no Paraná, estão previstas inaugurações em Lucas do Rio Verde (MT) e em Vitória de Santo Antão (PE), a primeira fábrica da empresa no Nordeste, e ampliações em Brasília (DF), Várzea Grande (MT) e Uberlândia (MG). A empresa investiu R$ 1 bilhão até setembro, dos R$ 1,6 bilhão que pretende investir até o final do ano.

 

"Nosso caixa está com um fluxo normal porque a empresa não depende de financiamentos. Ontem fechamos com R$ 850 milhões e o normal para as nossas necessidades de giro é R$ 800 milhões", contou. "Vivemos um momento paradoxal porque a empresa vai muito bem em vendas e não há sinal de desaquecimento no nosso mercado", completou. Só a unidade inaugurada ontem em Toledo, vai acrescentar mais R$ 400 milhões ao faturamento da companhia.

 

Furlan também comentou a frase do presidente Lula quando disse que a Sadia especulou contra o Brasil ao ter prejuízos com o dólar futuro: "Já tive oportunidade de conversar com o presidente e disse que foi uma afirmação infeliz porque ele estava mal informado. Na verdade, a Sadia acreditou no País e no presidente Lula quando achou que o dólar iria ficar em níveis mais baixos", argumentou.

 

O diretor-presidente do grupo Sadia, Gilberto Tomazoni, por sua vez, disse que a empresa está numa situação confortável diante de uma possível recessão e queda de vendas: "Nós temos pelo menos quatro unidades alugadas e se houver queda de vendas - o que ele considera improvável - seria mais simples deixar de operá-las e manter em plena operação somente as unidades próprias", disse ele.