Até onde a Bovespa pode cair com a crise?

Veículo: Portal Exame
Seção: Capa
Página: www.exame.com.br

 

| 14.10.2008 | 08h31

EXAME ouviu oito analistas sobre a turbulência mundial e nenhum arriscou dizer que a bolsa paulista já atingiu o fundo do poço

Por Denise Brito e Márcio Juliboni

 

 

Portal EXAME   

Até onde a Bovespa pode afundar com a crise financeira mundial é uma pergunta na cabeça de todos os investidores. Para uns, a resposta indica o limite do sofrimento de ver seu dinheiro encolher na renda variável. Para outros, significa o momento certo de voltar às compras e lucrar com a reversão do mau humor do mercado. Entre 20 de maio, quando o Ibovespa - principal indicador da bolsa paulista - registrou seu recorde de 73.516 pontos, e a última sexta (10/10), o pregão paulista encolheu 52%.

Para saber onde está o fundo do poço, EXAME consultou oito analistas do mercado. Veja as respostas: 


Ricardo Tadeus Martins – gerente de pesquisa da corretora Planner
Limite: 33.200 pontos 
"Estou muito propenso a achar que os níveis atingidos pela bolsa na semana passada já são plenamente aceitáveis como correção do Ibovespa. Para reverter a tendência de queda da bolsa brasileira, o Banco Central precisa continuar monitorando os níveis de liquidez do sistema. Também precisa de uma atuação mais firme em relação ao câmbio. Há vastas reservas para enfrentar a alta desenfreada do dólar. Por fim, seria bem-vindo se o Copom mantivesse a taxa de juros na próxima reunião. Em termos mundiais, os bancos centrais devem fazer o que já estão fazendo: montar pacotes de auxílio ao sistema financeiro, monitorar se as medidas estão surtindo efeitos e promover os ajustes necessários."

José Góes – economista da Alpes Corretora
Limite: entre 34.000 e 30.000 pontos
"É difícil definir um limite preciso, mas acredito que já estamos praticamente nele, ou muito perto. Independente da crise, as empresas já estão muito baratas. O ponto de reversão seria a efetiva implantação do pacote americano de socorro aos bancos. Quando os 700 bilhões de dólares começarem a ser liberados, será o primeiro sinal de otimismo. O mercado voltará a ter liquidez e os bancos retomarão os empréstimos. Aparentemente, o que falta é os governos comprarem fatias dos bancos em geral, como uma garantia ao mercado de que as instituições não vão quebrar. Outra medida para os países mais afetados seria a emissão de moeda para bancar os prejuízos do sistema."

Clodoir Vieira – economista-chefe da Corretora Souza Barros
Limite: 28.000 pontos
"Sempre que o Ibovespa cai, a gente pensa que já atingiu o limite. Depois, acaba tendo de rever essa idéia. Acredito que a bolsa só reverterá a tendência quando houver uma ação coordenada dos bancos centrais dos principais mercados, a fim de garantir a carteira dos bancos comerciais. Só assim, a credibilidade voltará ao sistema financeiro. Isso romperá a desconfiança generalizada que impede que os bancos emprestem uns para os outros."

Alex Agostini – economista-chefe da corretora Austin Rating
Limite: 25.000 pontos

"Não existe piso quando a situação saiu da racionalidade e passou para o emocional, como agora. Se tivermos, por exemplo, mais uma semana de queda diária de 5%, chegaremos aos 25.000 pontos. A única forma de reverter isso é o resgate da confiança no sistema financeiro, e isso é um processo complexo. No Brasil, o BC não pode agir de forma agressiva para não provocar comoção no mercado. Ele pode estabilizar os juros, como já vem sinalizando. Depois, como medida adicional, reduzir a taxa, pois as commodities estão em queda, o que deverá trazer um recuo da inflação em 2009. O governo também pode reduzir a carga tributária para dar fôlego às empresas."

Lance Reinhardt – diretor da asset austríaca Superfund na América Latina
Limite: 25.000 pontos
"É difícil dizer qual é o piso. Se o Banco Central não injetar liquidez no mercado, é possível que vejamos o Ibovespa ao redor de 25.000 pontos. Não acho que haverá uma recuperação significativa nos próximos seis a 12 meses, porque continuará havendo pressão de queda nos ativos, conforme mais defaults de crédito ocorrerem. Entretanto, é possível que vejamos um rali de compra no curto prazo, antes de uma nova grande queda nos preços das ações. A única coisa que pode reverter a queda da Bovespa é o sentimento e a recuperação dos mercados internacionais, sobretudo os Estados Unidos e a Europa. As organizações governamentais não podem controlar a crise; podem apenas estabilizar os mercado. O fator mais importante para isso é abrir linhas de crédito (públicas ou privadas)."

Kelly Trentin – analista-chefe da corretora SLW
Limite: sem previsão
"Não dá para prever o piso do Ibovespa. O mercado está sem parâmetro, diante da forte volatilidade. A confiança dos investidores voltará quando os governos da Europa e dos Estados Unidos mostrarem que podem conter a crise. Os americanos precisam provar a eficácia do pacote, detalhando as medidas. Com isso, a aversão ao risco cairá e os estrangeiros voltarão a comprar os papéis. No Brasil, o governo está agindo muito bem para enfrentar a crise."

Álvaro Bandeira – economista-chefe da Ágora Corretora
Limite: sem previsão
"O piso da Bovespa dependerá de quanto tempo essa crise vai durar. Precisamos de um tratamento de choque, e rápido. Nesse momento, no auge da crise, não existe ponto de retorno. Os mercados simplesmente não reagem aos estímulos. Será preciso atacar quatro vertentes: recapitalizar as instituições financeiras, com eventuais estatizações temporárias; ampliar a confiança dos investidores; reduzir os riscos de contaminação sistêmica; e ampliar a liquidez. Vale destacar ainda a necessidade de rápida absorção dos títulos tóxicos."

Marcelo Faro – economista-chefe da Intra Corretora
Limite: sem previsão
"Não faço parte da corrente que precifica o limite máximo e o mínimo para bolsa, pois há um fator psicológico que rege as decisões em momentos como este, em que há uma necessidade ímpar de liquidez. Não há um número mágico e eu não acho que a bolsa está barata diante desse contexto. O barato e o caro são relativos. Para recuperar a confiança do mercado, são necessários dois fatores: os Estados Unidos conseguirem efetivar o socorro aos bancos. O outro é restabelecer a capacidade de empréstimo dos bancos."