A economia às escuras

Veículo: Portal Exame
Seção: Economia
Página: www.exame.com.br

A crise financeira global torna-se mais séria a cada semana — e a indefinição do que virá pela frente paralisa os mercados mundiais

Por Eduardo Salgado e Melina Costa

EXAME Estou tremendamente confiante de que estamos indo na direção certa porque temos a força necessária para seguir progredindo. Não vejo nada que nos impeça de ser otimistas em relação ao nosso negócio no longo prazo.” A frase acima foi dita por Robert K. Steel, presidente do banco americano Wachovia, na terça-feira 9 de setembro, no Hotel Hilton de Nova York, numa palestra na Conferência Lehman Brothers de Finanças Globais. Seis dias depois, o Lehman Brothers, quarto maior banco de investimento do mundo, deixava de existir. Passaram-se outras duas semanas e o Wachovia, quarto maior banco de varejo dos Estados Unidos, era vendido ao Citi. O episódio é quase uma caricatura do momento atual da economia mundial — em que previsões caem no ridículo logo após serem professadas, várias das mais tradicionais instituições financeiras soçobram em série e os mercados oscilam do céu ao inferno ao sabor de ventos tão intensos quanto imprevisíveis. O pânico, companheiro freqüente dos investidores nas últimas semanas, voltou a dar as caras nos últimos dias do Setembro Negro. Após a negativa dos congressistas americanos em aprovar um pacote de 700 bilhões de dólares proposto pelo governo Bush para socorrer bancos — até o fechamento desta edição as negociações em torno de um novo pacote prosseguiam —, o mundo financeiro ruiu: só nos Estados Unidos, o equivalente a 1 trilhão de dólares em valor de mercado de empresas listadas na bolsa de Nova York virou pó em um único dia. Por aqui, a Bovespa teve a maior queda da década. Já se sabia que o sol não brilharia para sempre no mundo econômico e que cedo ou tarde os anos dourados da economia global teriam de acabar. Impressiona a velocidade com que a escuridão domina a cena internacional.

Numa economia às escuras, a primeira vítima é a confiança. E a falta de confiança é um veneno para o mercado. Como disse o ex-presidente Franklin Delano Roosevelt, responsável por tirar os Estados Unidos da Grande Depressão dos anos 30, é preciso temer o próprio medo. Tomados pelo pavor de fazer transações com instituições abarrotadas de títulos podres — e, portanto, à beira da falência —, bancos tratam diferentes como iguais e deixam de emprestar entre si. Isso coloca em perigo não só instituições que tomaram riscos desmedidos durante a bolha do subprime mas também as saudáveis. “Qualquer solução da crise terá necessariamente de passar pela capitalização dos bancos”, diz o economista Raghuram Rajan, professor de finanças da Universidade de Chicago e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional. “Sem isso, a normalidade não vai voltar.” De fato, o quadro atual é apavorante. O dinheiro que deveria fluir para o setor produtivo secou e, pior, essa cegueira generalizada hoje coloca em perigo o próprio sistema bancário — é sintomático que na terça-feira 30 a Libor de três meses, taxa de juro cobrada nos empréstimos interbancários, tenha

atingido sua alta histórica. Também chama a atenção o fato de a crise ter chegado com força à Europa, que vinha se mantendo razoavelmente à margem dos problemas. Para não fechar, o banco Dexia, com sede em Bruxelas, recebeu uma injeção de 9 bilhões de dólares de dinheiro público. O mesmo acontecera antes com o Fortis, o maior banco belga, socorrido às pressas com 16 bilhões de dólares pelos governos de Bélgica, Holanda e Luxemburgo. O tesouro britânico nacionalizou o Bradford & Bingley e, na Alemanha, um consórcio de bancos e o governo salvaram da masmorra o Hypo Real Estate Group, voltado para a concessão de crédito imobiliário. Eles se juntam à longa lista em que estão Fannie Mae e Freddie Mac, as maiores empresas do mercado de hipotecas americano; o AIG, maior seguradora do mundo; dois dos cinco maiores bancos de investimento, Lehman Brothers e Merrill Lynch; Washington Mutual, dono da maior parcela dos depósitos de poupança dos Estados Unidos; além, claro, do Wachovia, do falastrão Robert K. Steel. Na escala Richter usada para medir terremotos financeiros, os estragos registrados até agora não têm precedentes em quase 100 anos. “A magnitude do colapso só é comparável ao que se seguiu à crise de 1929”, diz Roger Farmer, professor de economia da Universidade da Califórnia.

Para estancar a sangria, a equipe econômica americana está empenhada em descongelar o dinheiro que parou de fluir. Uma vez que os bancos não mais conseguem capital com seus pares para fechar suas contas diárias (a diferença entre as captações e as saídas), o Federal Reserve (Fed), banco central americano, aumentou drasticamente a oferta de dinheiro à disposição do sistema. O valor, que antes do começo da crise era de menos de 100 milhões de dólares, pulou para 440 bilhões e pode passar disso se necessário. Para tentar debelar o fogo que começou a se espalhar do outro lado do Atlântico, o Fed também fortaleceu as linhas de liquidez oferecidas a bancos estrangeiros, especialmente europeus. Na última semana de setembro, a quantia total dobrou e chegou a 620 bilhões de dólares. “Além do pacote de socorro ao sistema financeiro, acho que logo veremos agressivas reduções nos juros”, diz Stephen Roach, presidente do banco Morgan Stanley na Ásia.

Uma nova preocupação que já desponta no radar da equipe econômica americana são os fundos de hedge, gestores de recursos famosos pelos altos riscos que tomam. Esses fundos movimentam 2 trilhões de dólares e estão tendo os resultados mais baixos das últimas duas décadas, com aumento crescente dos saques. Pior — para fazer frente aos resgates, estão sendo obrigados a vender papéis em seu poder e assim conseguir recursos para pagar investidores em fuga. Como o momento é péssimo para quem vende o que quer que seja nos mercados financeiros, esse movimento só aumenta o tamanho dos prejuízos na carteira dos fundos e ainda força as cotações em geral para baixo. Ante tais problemas, os fundos de hedge passaram a ser monitorados de perto pelas agências de risco — duramente criticadas pela complacência com que deram carimbos de qualidade a títulos que se provaram tão confiáveis quanto uma nota de 3 dólares na crise do subprime. Disposta agora a não incorrer no mesmo erro, a Fitch Ratings deixou claro que vai dar uma atenção redobrada aos fundos de hedge. Muitos apostam que esses fundos serão personagens centrais no próximo capítulo da crise.

Na economia real, os sinais do aperto já são claros. Na Europa, as 15 nações que adotam o euro como moeda se mantiveram estagnadas no terceiro trimestre — e podem se contrair daqui para a frente. A tendência também é de perda de fôlego econômico nos Estados Unidos, epicentro dos problemas globais. No segundo trimestre, os empréstimos tomados por empresas americanas caíram 60% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Esse número é conseqüência de dois fenômenos. O primeiro é o fato de que os financiamentos estão cada vez menos atrativos do ponto de vista das empresas — de acordo com o Fed, 80% dos bancos americanos aumentaram suas taxas de juro. E o segundo é a modificação dos critérios para a concessão de financiamentos, cada vez mais rígidos. Com o agravamento da crise, oito em cada dez bancos americanos aumentaram as exigências para emprestar. Diante do quadro atual de restrição de crédito, o mercado mundial de fusões e aquisições entrou em baixa. Neste ano, o volume das transações caiu 24% — e a queda só não foi maior porque a quebradeira acabou incentivando a compra de bancos.

 

O Setembro Negro

No olho do furacão, todas as atenções agora se voltam para Henry Paulson, secretário do Tesouro americano. Sua lista de prioridades parece não ter fim. Debelar uma crise bancária, descongelar o crédito, trazer tranqüilidade às bolsas de valores, evitar que os sintomas dos fundos de hedge não se desenvolvam, e por aí vai. Encontrar uma saída para a atual crise é o maior teste de sua carreira. Paulson trabalhou mais de 30 anos no banco Goldman Sachs, um dos ambientes mais competitivos de Wall Street, e saiu de lá como presidente. Quando assumiu o cargo no governo, há dois anos, seu principal objetivo era aproximar os investidores americanos da China e reduzir o déficit fiscal americano. Em retrospectiva, são metas singelas. Atualmente, Paulson tem à sua frente um desafio de outra natureza e escopo: enfrentar a maior turbulência financeira desde a Grande Depressão. Nas últimas semanas, o secretário e o presidente do Fed, Ben Bernanke, fizeram mais intervenções no mercado do que qualquer um de seus antecessores. Ao longo do Setembro Negro, nada disso funcionou. Instituições financeiras caíram feito peças de dominó. Nas próximas semanas, os dois vão precisar sacar mais coelhos da cartola para tirar a economia das trevas em que se meteu.