A repercussão da crise no Vale...

Veículo: Jornal de Santa Catarina
Seção: Economia
Página: www.clicrbs.com.br/jornais/jsc

 
 

 
 

Para o diretor de Exportações da Hering e presidente do Sindicato das Indústrias de Fiação, Tecelagem e do Vestuário de Blumenau (Sintex), Ulrich Kuhn, o Brasil sentirá, sim, os efeitos da crise. Com a indústria têxtil, avalia, não será diferente.

- Imaginar que o Brasil não sairá machucado é ingenuidade. Em que medida se dará o trauma não sabemos, mas ele com certeza existirá - pondera Kuhn.

O setor de cama, mesa e banho, cujo percentual de exportação é o maior da cadeia têxtil e tem nos EUA o terceiro maior mercado, é o que poderá enfrentar maior dificuldade entre as têxteis nacionais.

Para Kuhn, a crise atual tem proporção maior do que as crises russa e asiática, que nos anos 90 quase levaram o Brasil à lona. De passagem pela Europa - onde teve as férias interrompidas para tratar das conseqüências do maremoto financeiro - ele diz que hoje, no entanto, a percepção da comunidade européia é de que a economia brasileira tem maior solidez e pode suportar os abalos do sistema financeiro por mais tempo.

O presidente da Buettner S.A., João Merchewsky, teme que o enxugamento da liquidez internacional aumente o custo do crédito no Brasil, afetando o consumo no mercado interno e, por conseqüência, o ritmo de produção da indústria.

- As taxas de captação de crédito no mercado externo já subiram de 7% para 17% - diz o executivo.

Na avaliação de Merchewsky, a valorização do dólar, que fortalece as exportações, deverá ser contrabalançada pelo esfriamento do consumo no mercado internacional.

Para o presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e do Material Elétrico de Blumenau (Simmmeb), Alcantaro Corrêa, ainda é cedo para se medir os efeitos da crise nas empresas.

- A oscilação ainda é muito grande, não dá pra fazer nenhum prognóstico nesse momento - raciocina.

Porém se a volatilidade persistir por muito tempo, avalia, o mundo, o Brasil e o Vale do Itajaí enfrentarão dificuldades. Para deixar o país menos vulnerável, destaca Corrêa, o governo brasileiro deve reduzir os juros, os gastos públicos e a carga tributária, além de implementar reformas estruturais.

O presidente da Associação Empresarial de Blumenau (Acib), Ricardo Stodieck, pensa que há dois cenários envolvendo a crise: um com a ajuda do governo americano aos bancos e outro sem.

- No segundo caso as coisas ficariam muito ruins, por isso a aprovação do pacote, mesmo que com adaptações, é imprescindível - conclui Stodieck.

Ele observa, porém, que os EUA já perderam espaço para a Ásia e a Europa na pauta de exportações do Brasil, o que diminui os efeitos nocivos da crise sobre o país.

O gerente comercial da Cooperativa Regional Agropecuária Vale do Itajaí (Cravil) Marcelino de Abreu espera que a crise mundial das bolsas não atrapalhe o volume de negócios internacionais da cooperativa. Segundo ele, apesar da porcentagem baixa de exportação da Cravil, cerca de 0,3% do total da produção mensal, os importadores tendem a diminuir a procura.

- Nós iremos mirar mo mercado nacional, que já é o nosso forte e ainda não sofreu grandes mudanças.

( rodrigo.pereira@santa.com.br raffael.prado@santa.com.br )

... e as dúvidas dos investidores
Viagens ficarão mais caras?
Vai ficar mais caro viajar para os Estados Unidos e Europa porque a cotação do dólar não deve voltar aos patamares de antes da crise e o euro também deve se valorizar. As viagens para a América Latina também devem ser afetadas pois os turistas normalmente fazem transações em dólar. Ganham pontos os destinos tradicionais dentro do Brasil, como as praias nordestinas.
Qual a melhor opção para investir?
Para quem quer proteger seu capital, as melhores opções são os investimentos com baixo nível de risco como a caderneta de poupança ou fundos de renda fixa lastreados em títulos do governo e com taxas de administração inferiores a 3%. Quem prioriza o ganho em vez de segurança, não precisa do dinheiro no curto prazo e pode esperar pela recuperação, a crise é oportunidade para adquirir com preço baixo papéis de empresas consideradas rentáveis. Outra dica é fugir do dólar como alternativa de aplicação.
Quem comprou ações da Petrobras com o FGTS deve rever a aplicação?
Não. Quem comprou ações da estatal no ano 2000 hoje tem cerca de R$ 16 para cada R$ 1 investido, já considerando as desvalorizações dos últimos dias. O ganho é superior a 1000%, quando, no FGTS, cada real depositado não teria rendido nem um décimo disso.
Como o investidor doméstico (homebroker) deve conduzir seus papéis?
Vale para o homebroker o que vale para o grande investidor. É preciso paciência para lidar com ações porque só vale a pena vender um papel quando este tem valor bem superior ao do momento da compra.
A crise pode mudar a tendência de expansão da oferta de emprego?
Sim. A instabilidade do mercado deve restringir o crédito nos grandes bancos internacionais - fontes de empréstimos a juros baixos para operações de bancos brasileiros e para grandes investimentos no país.
Há motivo para preocupação para os correntistas sobre o futuro dos bancos brasileiros?
Não, porque aqui, os bancos atuam dentro de regras mais rígidas do que nos Estados Unidos, e, por isso, não podem se arriscar tanto. Nos EUA, as instituições emprestavam dinheiro para pessoas com histórico negativo de crédito. Foi esse tipo de operação que provocou a quebradeira.
Vale a pena utilizar o cartão de crédito no Exterior?
Não. Quem for viajar nas próximas semanas corre o risco de pagar mais pelas compras se o dólar subir, já que é considerada a cotação da moeda norte-americana na data do pagamento da fatura.
Obter reajustes em negociações coletivas e individuais tendem a ficar mais difíceis para os trabalhadores?
Provavelmente haverá um aperto nas folhas salariais. Em épocas de crise os empresários ficam reticentes em conceder reajustes generosos.
Compra financiada: é melhor esperar ou financiar agora?
Com a perspectiva de uma menor facilidade para a obtenção de crédito, vale mais a pena contratar o financiamento agora do que esperar por condições melhores no curto prazo. Para produtos eletroeletrônicos a alta do dólar ainda deve trazer um aumento dos preços e deve repercutir nos valores dos financiamentos. Quem encontrar boas condições agora, deve preferir fazer aquisições do que esperar.

     
   

O setor de cama, mesa e banho, que é o maior exportador têxtil, poderá sofrer dificuldades

Foto(s): GILBERTO VIEGAS - 21/3/2006