A volatilidade está de volta

Veículo: Portal Exame
Seção: Economia
Página: www.exame.com.br

A rápida desvalorização do real fez ressurgir um aspecto do câmbio que andava esquecido: a imprevisibilidade, que dificulta o planejamento das empresas

 

Andre Penner/AP Photo

Operadores na BM&F: nova fase de emoção

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Por Fabiane Stefano

EXAME A forte turbulência no mercado financeiro nas últimas semanas trouxe de volta um dos velhos fantasmas da economia brasileira: a instabilidade do câmbio. Quem havia se acostumado com a trajetória declinante do dólar frente ao real foi surpreendido por uma reviravolta — a moeda americana se valorizou 16% num prazo de seis semanas. No dia 1o de agosto, o preço do dólar era de 1,56 real. Na segunda-feira 15 de setembro, a moeda americana já era cotada a 1,81 real. A disparada relembrou os velhos tempos em que adivinhar o rumo do dólar era tarefa mais para astrólogos do que para economistas e mostrou uma nova realidade para as empresas do país. E, pelo jeito, a incerteza voltou para ficar por um bom tempo. No mesmo dia em que o dólar era negociado a pouco mais de 1,80 real, o relatório semanal de estimativas do mercado financeiro, divulgado pelo Banco Central, apontava que a moeda americana fecharia 2008 a 1,65 real. “A vida vai ficar mais complicada”, diz Geraldo Biasoto Júnior, diretor da Fundação do Desenvolvimento Administrativo, órgão ligado ao governo do Estado de São Paulo que acaba de concluir um estudo sobre o impacto do câmbio no setor produtivo. “Num cenário de volatilidade, fica mais difícil para as empresas avaliar corretamente quais são os custos de produção e o valor dos estoques, além de complicar a renegociação de contratos.”

Por que o dólar voltou a subir se as notícias vindas dos Estados Unidos continuam de mal a pior? O movimento é visto pelos analistas como uma reação ao enfraquecimento das economias européia e japonesa — que até então gozavam de uma percepção do mercado melhor que a americana em meio à crise. Resultado: o euro e o iene entraram em queda. “Quando os mercados se convenceram de que o mundo todo vai sofrer mais com a crise, houve uma correção de preços nas moedas, fortalecendo o dólar”, diz Cristiano Souza, economista do banco Real. Os sinais de desaceleração global também jogaram para baixo os preços das commodities, porque a redução de crescimento deve significar menos consumo. Isso está estimulando os investidores a redirecionar seus recursos para a moeda americana. Além disso, é fato que os novos abalos da economia dos países desenvolvidos têm motivado o retorno às matrizes do dinheiro aplicado nos mercados emergentes — em geral para cobrir os prejuízos nos quartéis-generais.

O Brasil não ficou de fora desse movimento. Dentro do país, claro, há ganhadores e perdedores no novo cenário cambial. Para os exportadores, um dólar mais forte significa mais receitas em reais no caixa por produto embarcado. E isso é um alívio para quem passou os últimos dois anos perdendo rentabilidade e competitividade frente aos concorrentes internacionais devido à desvalorização da moeda local. Nesse período, boa parte das empresas brasileiras que exportam foi obrigada a se estruturar para viver num ambiente de real forte. Agora, têm oportunidade de colher os frutos do esforço para ganhar eficiência. É o caso da Nokia. A empresa conseguiu ampliar em 180% as receitas com as exportações no primeiro semestre de 2008 em comparação com o mesmo período do ano passado. “Nossa operação está estruturada para um dólar de 1,60 real e temos de ser competitivos nesse patamar”, afirma Mauro Correia, diretor da fábrica da Nokia em Manaus. “O que vier acima disso é lucro.”

Na outra ponta estão empresas com alto índice de componentes importados, que naturalmente sofrem com o novo patamar do câmbio. A Romi, uma das maiores fabricantes brasileiras de máquinas, tem metade de seus custos atrelada a moedas estrangeiras. A empresa vem trabalhando com uma rede de fornecedores que operam com contratos de longo prazo. Mesmo assim, fica sujeita à instabilidade dos mercados de câmbio. “O problema é que, com a alta do dólar, o fornecedor acaba incorporando uma margem de risco cambial no seu preço”, diz Livaldo Aguiar dos Santos, presidente da Romi. “Isso se traduz em produtos mais caros.” A empresa avalia que, conforme os contratos forem vencendo, as correções de preços dos fornecedores vão começar a se materializar.

Desce e sobe

O fato é que a maioria dos economistas já vinha trabalhando com a hipótese de certo enfraquecimento do real. Na visão de muitos, a moeda brasileira estava exageradamente fortalecida — o que se traduziu em crescente redução no saldo da balança comercial. No primeiro semestre, as importações subiram 51%. Como as exportações não acompanharam, o saldo da balança comercial vem caindo rapidamente. Aliada a um forte fluxo de remessas para o exterior, essa diminuição deve resultar num déficit de 28 bilhões de dólares no saldo de transações correntes neste ano. É claro que a desvalorização das últimas semanas não reverte imediatamente o rombo das contas externas. Ela marca, no entanto, um novo momento. “Acabou a trajetória monotônica de valorização do real que imperou nos últimos cinco anos”, diz Luis Fernando Lopes, economista-chefe do banco Pátria. Ele calcula que, a partir de 2010, o dólar esteja cotado na faixa dos 2 reais. Outros economistas lembram que a situação atual talvez seja mais normal do que o período de quase estabilidade dos últimos tempos. “Num sistema de câmbio flutuante, é natural que haja oscilações. Faz parte da vida”, afirma Cláudio Haddad, diretor do Ibmec São Paulo. Seja bem-vindo, então, a uma nova fase de emoções.