Mercado de algodão causa perplexidade

Veículo: Valor Econômico
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Ann Davis, The Wall Street Journal


A preocupação com o preço do petróleo gerou uma polêmica sobre o papel dos "especuladores". Mas foi uma alta danosa e inusitada de uma commodity muito diferente, o algodão, que deixou os envolvidos no mercado sem entender nada.


Ao acordar em 3 de março, o trader de algodão Alan Underwood, de Lubbock, no Texas, ligou o computador e tomou um susto: o algodão tinha subido na calada da noite para uma cotação bem acima da que ele tinha fechado para venda.


Ele ligou freneticamente para seus contatos no mercado. "Eu não consegui encontrar nada, nenhuma notícia que mudasse os fundamentos do mercado de algodão", afirma. Mas até o fim do dia a cotação desse mercado normalmente monótono já tinha subido 15% e, no dia seguinte, mais 16%, antes de finalmente recuar. Só restaram duas escolhas difíceis para os investidores: colocar mais dinheiro para manter suas apostas, que estavam perdendo dinheiro, na esperança de uma reviravolta, ou cancelá-las e arcar com um amargo prejuízo.


 
O súbito salto do algodão teve efeitos duradouros. Ao prejudicar os tradicionais compradores de futuros do algodão e forçá-los a limitar suas operações, a alta continua a tumultuar um mercado do qual produtores rurais, mercadores e processadores dependem para compensar seus riscos. Essa oscilação está alimentando discussões sobre o que causou a alta e também sobre a criação de um sistema de supervisão para o mercado de futuros, como são chamados os contratos para comprar ou vender algo a um preço pré-determinado numa data certa.


Muitos veteranos atribuem a culpa pela distorção no preço aos bilhões de dólares em novos aportes de investidores institucionais; alguns deles denunciam manipulação do mercado. A Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos EUA (CFTC, na sigla em inglês) está investigando se a cotação do algodão foi "inflada artificialmente".


A investigação ainda não foi concluída. Mas uma apuração do Wall Street Journal sobre os acontecimentos de março revela como vários fatores incomuns se reuniram para criar um tumulto prejudicial.


Primeiramente, depois que vários novos investidores entraram no mercado, alguns mercadores começaram a comprar e vender mais agressivamente. E, num fator que aumentou a vulnerabilidade deles, ocorreu naquele mesmo dia a abolição de sua fonte usual de informações sobre o mercado: os corretores do pregão.


Outro ponto cego nessa história foi a negociação crescente fora do pregão por parte de fundos de hedge e de pensão, um fator que a CFTC não tem como acompanhar totalmente.


O salto na cotação foi extraordinário porque os estoques de algodão dos EUA estavam no maior nível dos últimos 40 anos e a crise imobiliária derrubou as vendas de toalhas e outros tecidos. A oferta mundial também estava farta, impulsionada pela modernização de técnicas agrícolas na Índia.


O algodão é um dos menores mercados de commodities, com US$ 16 bilhões em futuros e opções, contra US$ 440 bilhões do petróleo, segundo uma estimativa de junho da Barclays Capital. Mas alguns grandes investidores consideravam que já estava na hora de o algodão subir. Um exemplo é Art Samberg, do fundo de hedge Pequot Capital Management, que recomendou o algodão em janeiro de 2007 num artigo no semanário "Barron's", publicado pela Dow Jones, editora do Wall Street Journal.


Alguns investidores concluíram que os produtores rurais trocariam seus hectares de algodão por lavouras comestíveis como o milho, por causa da alta dos alimentos. Outros acharam que o encarecimento do petróleo impulsionaria a cotação do concorrente sintético do algodão, o poliéster, produzido a partir de petróleo.


Mercadores e corretores do algodão dizem que um trader da Pequot, Lewis Johnson, começou a participar de convenções do setor algodoeiro em todo o mundo, exibindo um conhecimento profundo dos dados sobre estoques, produção agrícola e mercado de têxteis. O pessoal passou a chamá-lo de "Jet Boy" depois que, dizem eles, o trader começou a se gabar em mesas de bar que suas apostas no algodão o tornariam rico o suficiente para só viajar de jato particular. Johnson, que saiu da Pequot em novembro, não retornou ligações com pedidos de entrevista. A aposta da Pequot no algodão "deu muito certo", disse o diretor de estratégia de investimento do fundo, Byron Wien.


Há muito tempo que o mercado é dominado por integrantes como os mercadores de algodão, que compram a produção dos agricultores e vendem contratos futuros para tirar seu lucro. Mas este ano os mercadores aumentaram o volume de operações, em parte porque havia uma safra recorde para negociar. Até o fim de fevereiro, eles tinham mais do que o dobro dos contratos de venda da mesma época de 2007 e 2006, diz Jeffrey Korzenik, administrador de fortunas que analisou os dados da CFTC sobre o mercado de algodão.


Ao mesmo tempo em que os mercadores estavam vendendo, os investidores institucionais estavam comprando. O otimismo deles aumentou depois que um relatório em fevereiro afirmou que os produtores americanos plantariam a menor safra de algodão dos últimos 25 anos. Os investidores despejaram dinheiro em investimentos atrelados a índices de cestas de commoditites. Um fundo agrícola da Schroders PLC captou mais de US$ 2 bilhões de janeiro a fevereiro.


A CFTC não pode acompanhar todas as operações com commodities. Boa parte delas é realizada fora do pregão, quando firmas de Wall Street executam contratos confidenciais de investidores institucionais chamados swaps, permitindo que os mesmos possam apostar em futuros sem negociá-los diretamente. A firma então compra ou vende ela mesma os futuros ou opções, para compensar o risco que assumiu.


O sistema permite que os fundos de hedge e semelhantes evitem as atuais limitações do pregão para o tamanho de seus investimentos. As firmas de Wall Street podem investir em grandes quantidades porque a CFTC as considera como dealers de commodities.


O sistema também permite que parte das compras realizadas pelos fundos de hedge e de pensão seja reunida numa categoria de operações feitas por "traders comerciais". Assim, a presença de firmas financeiras, às vezes chamadas de "especulativas", fica parcialmente oculta.


Numa carta a um comitê da Câmara dos Deputados dos EUA, a IntercontinentalExchange, ou ICE, que opera a bolsa de algodão, informou que uma análise dos dados confidenciais sobre transações com algodão não encontrou "nenhuma atividade significativa ou incomum de compra" da parte de investidores financeiros, e assim os dados não comprovam as afirmações "de que esses traders agiram individualmente ou coletivamente para manipular o preço dos futuros do algodão no período de 29 de fevereiro a 4 de março".


A ICE só analisou esse período. Na carta não havia nenhuma menção ao fim de fevereiro, quando dados da CFTC mostram um volume maior do que o normal de venda de futuros da parte de mercadores, e um volume de compra muito maior da parte de investidores financeiros.


A ICE também enviou a carta sem consultar a CFTC. A comissão informou que a sua própria investigação do salto de dois dias na cotação do algodão ainda está em curso.