Discurso caprichado em que cabe de tudo um pouco

Veículo: Valor Econômico
Seção: Home
Página: www.valor.com.br

Desfilar no São Paulo Fashion Week é motivo para noites insones, trabalho árduo e atenção a cada detalhe. Ninguém quer "pagar o mico" de ser chamado de amador ou démodé. Mas antes de mostrar a que vieram os estilistas capricham no discurso, revelando suas inspirações e ousadias - para dar seu toque ao verão 2008/09. E a convicção, do momento, parece ser diversidade. 


"Não existe mais apenas uma modelagem, precisamos ter de tudo na loja", afirma David Azulay, dono da Blue Man, grife que retorna ao SPFW depois de algumas temporadas desfilando no Fashion Rio. "Na Blue Man a consumidora pode montar o seu biquíni: se quer valorizar o bumbum, pode optar por uma tanga; se quiser mostrar mais os seios, escolhe um sutiã estilo cortina". O desfile da grife contará com trilha sonora ao vivo, feita por músicos da Orquestra Imperial. O tema da coleção da grife é a etnia digital. "O tropicalismo vai estar bombando", diz Azulay, em bom "carioquês".  


O tema, aliás, entra em sintonia com as tendências das passarelas internacionais, que elegeram os anos 1970 como a " década do momento " para a moda. O recente falecimento do estilista francês Yves Saint-Laurent deverá reforçar essa vertente, com um revival do que de melhor se criou naquela década. 


Outra representante da moda praia nacional, a estilista Paola Robba, da Poko Pano, buscou suas referências na Bossa Nova, que está comemorando 50 anos. "Não consigo enxergar a moda dissociada da arte ou da música", justifica Paola, que também terá modelagens diversas. O desfile começa bem "cinquentinha", mais careta, e vai ganhando ousadia, até o final. "As últimas peças a entrar na passarela já trazem um design bem contemporâneo, com recortes geométricos." 


De maneira geral, a moda praia vai estar mais comportada - pelo menos no litoral sul do país. "Os biquínis estão maiores e os maiôs continuam em alta", acredita Paola, que vai mostrar um trabalho precioso nas estampas. Entre os destaques, há um padrão que imita madeira, feito pelo processo digital, e outro de cobra, com tonalidade degradê. "Vou mostrar uma estampa de risca-de-giz desenhada com silicone." 


Saindo da areia e chegando ao asfalto, no que diz respeito à moda feminina, a aposta é pela delicadeza. Estreante no evento, a grife paulistana Maria Garcia (que pertence aos mesmos donos da Huis Clos) vai apresentar muita transparência, tecidos brilhantes e formas elaboradas. A estréia da marca no evento era esperada há muito tempo, graças à promessa de desfile consistente como costumam ser os da grife-mãe, a Huis Clos. A moda feita pela estilista Clô Orozco, da Huis Clos, é sinônimo de bom gosto e de investimento em design. A aposta da Maria Garcia se conecta com outra tendência forte, vista no exterior: o uso da lingerie como roupa - aposta de gente de peso na moda internacional, como Marc Jacobs, John Galliano e Stella McCartney. 


"Teremos vestidos de todos os jeitos", confirma Camila Cutolo, estilista da grife, que mira um estilo de mulher mais sutil na maneira de passar sensualidade. "Essa mulher que veste a grife quer se diferenciar e exige qualidade de tecidos e acabamentos". E para agradar a um número maior de consumidoras, a Maria Garcia terá calças com várias alturas de cintura. "Só não teremos as cinturas muito altas, porque isso já foi muito explorado por aí." 


Representando a moda masculina - e no meio termo entre o calçadão e o shopping - a Reserva, do Rio de Janeiro, também não quer saber de regras muito rígidas para os modismos da estação. "Dessa vez, vamos colocar realmente tudo o que gostamos, na passarela", diz Rony Meisler, estilista e um dos sócios da grife, que desfilou por quatro temporadas no Fashion Rio. A mudança para São Paulo - como declararam todas as outras grifes que migraram de uma cidade para a outra - é uma decisão estratégica. "Não adiantava ter loja na rua Maria Quitéria, no Rio, e colocar um outdoor na rua Oscar Freire, em São Paulo", diz Meisler. Segundo o estilista, que é também responsável pela área comercial da grife, a Reserva é comercializada em 300 multimarcas - sendo que 67% estão no estado de São Paulo. "Até o final do ano, deveremos abrir uma loja própria na capital". 


Em termos de estilo, a Reserva promete fazer uma homenagem "aos brasileiros que são cidadãos do mundo". E isso se traduz em roupas largas, confortáveis e funcionais - às vezes dupla-face para poderem ser usadas dos dois lados. A matéria-prima foi escolhida para ser prática, porém gostosa de usar. "A coleção terá várias peças de náilon, camisas de voile (tecido que lembra uma gaze) e malharia feita de algodão peruano Pina, um dos melhores que existe", diz Meisler. Tudo para trazer ao paulistano engravatado as melhores coisas do estilo de vida carioca.