Varejo fortalece marca própria e preço cai

Veículo: Valor Econômico
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Combinar a cortina com a colcha é coisa do passado. Mas, as varejistas de cama, mesa e banho não têm do que reclamar. Depois de passar vários anos com pouca diversidade de produtos, uma vez que a indústria têxtil tinha como prioridade o mercado internacional, os lojistas estão hoje deitados em berço esplêndido. Conseguiram fortalecer suas marcas próprias e têm à disposição mais produtos da indústria, que não consegue exportar com o dólar barato. 


A indústria pena para reconquistar o terreno perdido, abastecendo mais do que nunca os lojistas com lançamentos e novas marcas para atender diversos públicos. Oferece produtos de qualidade superior e , em alguns casos, chega a reduzir preços em até 20%. Essa queda nos preços pode ser comprovada pela inflação oficial. O IPCA aponta deflação de 1,4% no segmento de cama, mesa e banho no último mês de novembro. 


 
Os fabricantes, ao voltarem para o mercado interno, se depararam com uma concorrência extremamente acirrada. No começo dos anos 2000 havia 30 marcas de cama, mesa e banho no Brasil. Hoje, são mais de 220, segundo o Instituto de Estudos e Marketing Industrial (Iemi). Quem avançou nesse período foram as empresas menores do setor, com destaque para as varejistas que criaram marcas próprias. Entre elas está a Zêlo, que no inverno chega a produzir por dia 10 mil edredons com sua marca. A M. Martan só vende produtos com a sua etiqueta e tem uma rede com 56 lojas distribuídas no país. 


Com esse cenário de oferta de produtos e preços acessíveis, as varejistas ouvidas pelo Valor, estão prevendo crescimento entre 15% e 20% no faturamento deste ano. 


Na Trousseau, com 17 lojas em São Paulo, Rio e Belo Horizonte, a receita será 20% maior em relação a 2006. A empresa possui uma carteira de 60 mil clientes, cujo ticket médio é de R$ 500. "A nossa melhor loja no Brasil vende o dobro do que a melhor loja da Yves Delorme, na França", diz Romeu Trussardi, presidente da Trousseau. 


Entre as lojas voltadas para o público de alto de padrão, a centenária Casa Almeida também cresce. Desde 2002, quando foi comprada pela Buddemeyer, abre uma loja por ano. Hoje, são cinco unidades e a idéia é inaugurar mais uma ou duas em 2008. "Diferentemente do que acontecia no passado, hoje os jovens compram mais roupas de cama", diz Sergio Laporta, diretor da Casa Almeida. Laporta foi dono da Casa Moysés, vendida à M. Martan há cerca de seis anos e que, desde então, passou a focar no público das classe A/B. Atualmente, a receita da M. Martan cresce a uma taxa de 15%. Quando atendia também a classe C, esse índice era de 10%, segundo Armando Casulli, gerente de marketing. 


Não é só a M. Martan que está de olho no público mais abonado. Criada há 18 anos no bairro do Tatuapé, na Zona Leste de São Paulo, a Marlene Enxovais acaba de abrir uma loja na rua Oscar Freire, reduto de grifes chiques em São Paulo. "Queremos nos posicionar como uma marca de luxo", diz Wilma Tavares, diretora da empresa, que este ano encerrará com receita 15% maior. 


Conhecida pelos edredons baratos, a Zêlo também coloca um pé no mercado mais sofisticado. "Apesar de todos falarem que o crescimento está acontecendo no segmento popular, o que vemos aqui é um aumento homogêneo entre os os públicos A/C e C", diz Mauro Razuk, diretor da Zêlo, que também comemora expansão entre 15% e 18%. Para atender o público mais exigente, a Zêlo tem a arceria com o estilista Alexandre Herchcovitch que criou uma linha de roupas de cama feita com tecidos de melhor qualidade e design moderno. Hoje, essa linha já representa 10% do faturamento da Zêlo. Outra aposta da rede, que possui 28 lojas próprias e pretende abrir mais três até abril de 2008, são os licenciamentos. "Nosso próximo licenciamento são os jogos de cama do Corinthians. Os torcedores são fiéis mesmo com o time na segundona ", ironiza Razuk, um são-paulino roxo. 


Entre as fabricantes, o resultado oscila de uma empresa para outra. Algumas estão crescendo e outras ainda sentem os reflexos do dólar barato. A Buddemeyer prevê encerrar o ano com um faturamento de R$ 130 milhões, com alta de 30%. A empresa catarinense foi um das que optaram por reduzir seus preços para competir no mercado interno. "Nos últimos três anos, houve uma queda real no nossos preços entre 15% e 20%", diz Carlos Alberto Soares, superintendente de marketing da Buddemeyer. Desde 2006, as exportações representam apenas 20% das vendas líquidas e em 2008 essa fatia deve ser menor. 


Desde setembro de 2006, quando profissionalizou a gestão, o mercado nacional passou a ser prioritário para a Karsten. Em 2004, a empresa exportava 55% da produção - hoje esse percentual é de 20%. A fabricante encerrou o terceiro trimestre com lucro líquido de R$ 2,6 milhões, bem acima dos R$ 300 mil em igual período de 2006. A Teka e a Buettner vão encerrar o ano com queda de 10% e 5% no faturamento, respectivamente. "Reduzimos nossa produção e fomos obrigados a demitir por causa da queda no volume de exportação. O mercado interno não conseguiu compensar as perdas das exportações", diz Felipe Cavalcanti, diretor financeiro da Teka, que agora está apostando na criação de produtos com maior valor agregado. Para consolidar sua marca entre os consumidores brasileiros, a Buettner investiu mais em marketing neste ano, contou João Henrique Marchewsky, presidente da Buettner.