Saldo comercial começa a minguar

Veículo: Estado de São Paulo
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Previsão é de um superávit de US$ 40 bilhões para o fechamento do ano e de apenas US$ 30 bilhões em 2008

As quedas sucessivas no saldo comercial desde junho passado alertam para um cenário pouco tranqüilo para as contas externas do Brasil a partir de 2008. Se no ano passado o superávit alcançou US$ 46,5 bilhões, em 2007 deverá encolher para cerca de US$ 40 bilhões e, no ano que vem, deve minguar para algo em torno de US$ 30 bilhões.

Na avaliação do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), essa perspectiva desfavorável para as contas externas brasileiras de 2008 poderá ser neutralizada com a confirmação das novas jazidas de petróleo e gás recém-descobertas na Bacia de Santos.Mas, se o saldo recuar ainda mais em 2009, os mercados responderão a esse péssimo sinal. Ontem, os dados divulgados pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex) sobre a balança comercial das quatro primeiras semanas de novembro chegaram a provocar alvoroço no mercado financeiro. Mas pelo motivo equivocado. Os mercados mostraram-se nervosos com o recuo de 73,77% no superávit da quarta semana de novembro, em relação a igual período de 2006, que somou somente US$ 139 milhões. Sobre esse pequeno período, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) ainda destacou o recorde semanal histórico de US$ 3,361 bilhões de importações. Para José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), esses números são apenas eventuais. Podem se repetir em outros períodos semanais, mas dificilmente em todo um mês.

Júlio Sérgio Gomes de Almeida, consultor do Iedi e ex-secretário de Política Econômica, percebeu nesse resultado da quarta semana o reflexo de um "Natal mais gordo que nos anos anteriores". Ou seja, não passou da formação de estoques do comércio para o final de ano. Nos dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), mais relevante é a constatação de que, entre junho e outubro, o superávit comercial brasileiro encolheu em US$ 5,132 bilhões, em comparação com igual período de 2006. Todos esses meses tiveram saldos menores que os seus correspondentes em 2006. Em novembro, esse comportamente se repetiu.Nas quatro primeiras semanas do mês, o saldo médio diário, de US$ 104,5 milhões, foi 35,5% menor que o de igual período de 2006. Além disso, a média diária de importações cresceu 36,3% enquanto a de exportações avançou apenas 16,8%. Nas projeções da AEB, 2007 deverá encerrar com um superávit de US$ 40 bilhões, cifra resultante de um total de US$ 159 bilhões de exportações (aumento de 15,4% em relação ao ano passado) e de US$ 119 bilhões de importações (aumento de 30,3%). Para o ano que vem, a estimativa da AEB é de saldo positivo de US$ 30 bilhões - US$ 168 bilhões em embarques e US$ 138 bilhões em compras externas. Em exercícios preliminares, que estendem para 2008 o comportamento do comércio exterior brasileiro nos últimos três meses, o Iedi constatou que o superávit deverá flutuar entre US$ 25 bilhões e US$ 37,5 bilhões no próximo ano. Em 2009, tenderá a ser menor. "Com um saldo de US$ 37,5 bilhões, o superávit em conta corrente deverá ser próximo a zero. Com um saldo de US$ 25 bilhões, reviveríamos aquela época de déficit em conta corrente que eu preferiria esquecer para sempre", afirmou Almeida. "Para 2008, esse cenário não deve colocar em risco a perspectiva de o Brasil alcançar o grau de investimento, especialmente se for comprovada a reserva gigante de petróleo. Mas, para 2009, deve trazer dificuldades. Essas análises têm como pilar a perspectiva de que a valorização do real em relação ao dólar tenha continuidade, o que favorecerá ainda mais a aceleração das importações. Mas ambas desconsideram a possível retração da economia americana, por causa da crise do subprime. Se confirmada, a débâcle americana provocará o inevitável tombo nos preços das commodities - fator que eliminaria o principal elemento de competitividade de fortes produtos de exportação brasileiros.