85% da indústria opera acima da média dos últimos dois anos

Veículo: Valor Econômico
Seção: Brasil
Página: A3

 

Em agosto, metade dos 24 setores industriais pesquisados mensalmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou recorde de produção e atingiu o maior nível mensal dos últimos cinco anos, quando começou a atual série industrial do instituto. Além destes recordes históricos, outra pesquisa, a sondagem industrial da Fundação Getúlio Vargas (FGV), tem mostrado índices elevados de utilização da capacidade instalada. Em julho (último dado trimestral disponível), 12 de 14 setores - mais de 85% do total - estavam com o menor nível de ociosidade dos últimos oito trimestres (dois anos). A capacidade instalada na indústria (Nuci) e o ritmo médio de produção da maioria dos setores está, de fato, em níveis elevados, reconhecem diferentes economistas que acompanham o nível de atividade. Mesmo assim, a situação atual ainda não sugere que a economia brasileira vá enfrentar, no curto prazo, pressões inflacionárias preocupantes. A evolução da inflação de preços industriais - 3% nos últimos 12 meses - ajuda a compor esse quadro de tranqüilidade. Mas principal razão está na maturação dos investimentos feitos nos últimos dois anos e a perspectiva de que eles continuem a maturar nos próximos meses deve ser suficiente para que a capacidade produtiva das empresas se amplie e evite pressões de demanda. Na indústria de transformação, a capacidade instalada em julho atingiu 85%, de acordo com a série livre de influências sazonais da FGV. É um número 1,5 ponto acima da média de 83,5% dos últimos oito trimestres - e que se manteve no mesmo patamar de abril. Hoje a FGV divulga os dados de outubro. Para Juan Jensen, da Tendências Consultoria, é inegável que a economia opera com níveis de utilização de capacidade elevados para os padrões recentes. No entanto, eles têm se mantido em patamares relativamente estáveis nos últimos meses, mesmo com a continuidade da expansão da produção, e este é um sinal de que investimentos feitos nos últimos meses estão maturando. Em 2006, a formação bruta de capital fixo (FBCF, que mede o que se investe na construção civil e em máquinas e equipamentos) cresceu 8,7% e nesse ano ela deve superar esse ritmo. "Os patamares são preocupantes, mas a indústria tem crescido sem acelerar demais os níveis de ocupação na indústria", afirma ele. Jensen espera a capacidade "andando de lado" no curto prazo, com pequenas elevações num mês, e pequenas quedas no outro, mas sem saltos. No médio prazo (seis ou nove meses), ele crê em pequenas reduções do Nuci, devido à maturação de investimentos feitos nos últimos meses. Jensen lembra que alguns setores mostram um forte nível de ocupação. A indústria metalúrgica, por exemplo, mostrava em julho um Nuci de 94,3%, acima dos 92,5% da média dos últimos oito trimestres, na série com ajuste sazonal. Para material de transporte, o número de julho estava em 86%, bem acima dos 82,7% da média dos últimos dois anos. Estes dois setores também alcançaram, em agosto, recordes de produção. O economista Bráulio Borges, da LCA Consultores, também reconhece que a capacidade instalada na indústria está em níveis elevados, mas também não vê pressões inflacionárias relevantes pela frente. Ele compara a média do Nuci por categorias de uso de 2004 - último ano com forte crescimento da produção industrial e do Produto Interno Bruto (PIB) - com a média de 2007 e diz que não há motivos para grande alarme, ainda que todos tenham crescido. A indústria de bens de capital, por exemplo, tem um nível médio de ocupação de 85,2% em 2007, bem acima dos 79,3% de 2004, ano em que a economia cresceu 5,7% e o Banco Central (BC) elevou os juros porque considerou que havia risco de uma alta forte da inflação. No caso do setor de material de construção, houve aumento de 82,3% em 2004 para 83,4% neste ano. Ele diz que esses números refletem um movimento saudável, uma vez que bens de capital e construção civil são os setores relacionados ao investimento. "Isso vai gerar capacidade instalada mais à frente, dando sustentabilidade ao crescimento", afirma Borges. Ele nota ainda que os preços de máquinas e equipamentos no Índice de Preços no Atacado - Disponibilidade Interna (IPA-DI) subiram apenas 0,8% nos 12 meses até setembro, abaixo dos 3% dos preços do IPA da indústria de transformação. "O setor de bens de capital é altamente tradable", diz ele, se referindo aos bens cujo comércio internacional é possível, e que portanto são mais sujeitos às variações do câmbio e à concorrência do produto importado. O dólar em queda ajuda a controlar os preços mesmo com capacidade instalada elevada, assim como o significativo peso das importações no consumo aparente do setor, que ficam entre 40% a 45% diz Borges. A indústria de máquinas e equipamentos é uma das 12 que bateu recorde de produção em agosto, na série do IBGE. No caso dos bens de consumo, o Nuci médio deste ano está em 81,8%, acima dos 78,3% de 2004. No caso de bens intermediários, o nível de ocupação está em 87,7%, próximo dos 87,3% de 2004. Segundo Borges, por ser intensivo em capital, o segmento de intermediários costuma operar com capacidade instalada elevada, para manter a viabilidade econômica. É o caso de metalurgia básica e outros produtos químicos, cuja produção também se encontra nos níveis mais altos desde 2002. Borges também acha que os investimentos em curso devem maturar nos próximos meses, levando a uma queda do Nuci. A economista Thaís Marzola Zara, da Rosenberg & Associados, também não vê risco iminente de pressões inflacionárias generalizadas. Segundo seus cálculos, 73% dos setores mostram Nuci acima do que seria usual, medido pelos números da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Em 2004, esse número chegou a 95%. Ela também vê maturação de investimentos nos próximos meses, mas diz que o BC fez bem em interromper a trajetória de queda dos juros, para avaliar o ritmo de atividade econômica e de ocupação. Para a economista, a decisão do BC não decorre da preocupação com pressões inflacionárias no curto prazo. A autoridade monetária, diz ela, olha para o que pode ocorrer no médio prazo. "Os meus modelos mostram estabilidade do nível de utilização da capacidade até meados do ano que vem", diz Thaís.