A encruzilhada do setor t?xtil

Veículo: A Not?cia
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Guangzhou, China - A sombra do gigante chinês parece encurralar a indústria têxtil brasileira. "Pago R$ 1,00 para fechar (costurar) uma peça. Aqui, pagaria R$ 0,10", diz Patrícia Floriani, da RC Conti, de Brusque. "Vi calças jeans de boa qualidade que no Brasil não custariam menos de R$ 100,00 com preço equivalente a R$ 15,00", garante Nério Ceccon, da Bordados Vitória, de Modelo. "Vi bons clientes visitando os expositores chineses", afirma Rui Altenburg, da Altenburg, de Blumenau. Integrantes da missão empresarial organizada pela Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc) para visitar a 102ª edição da Canton Fair, em Guangzhou, estão vendo por que o setor têxtil nacional é ameaçado pelo crescimento da China. Diante de uma encruzilhada na qual não estão claros os sinais que apontam as direções da oportunidade e da ameaça, precisam decidir que caminho tomar. Patrícia e o irmão Jéferson, que fabricam artigos de moda íntima, visitam a China pela primeira vez e já têm um diagnóstico: os produtos têxteis são bonitos, mas mal-acabados; a matéria-prima é boa, a mão-de-obra, não. Dizem que poderiam ganhar dinheiro se trouxessem as peças para serem fechadas na China, mas que isto desempregaria quem mantém o mercado consumidor em SC. "O empresário deveria buscar soluções, como comprar máquinas e matérias-primas que permitam vender mais barato no Brasil", conclui.
Nério Ceccon, que fabrica e borda produtos para cama, mesa e banho, classifica os preços chineses como fantásticos. Mas está cauteloso. Ele diz que no Brasil um tecido bom, com 300 fios (um dos parâmetros de qualidade), custa mais de R$ 18,00 o metro linear e que na China, um superior, com 500 fios, fica em R$ 7,82. Ele avalia que - com impostos, frete e alfândega - este valor deve subir uns 80%. "Ainda sairia pelo menos 30% mais barato. Mas é preciso avaliar com cuidado para ver se a diferença compensa o risco", observa. No Vale do Itajaí, a Altenburg ainda não se conformou com o prejuízo sofrido com um contêiner carregado com mercadoria chinesa defeituosa. "O correto seria uma carta de crédito para 90 dias, para que houvesse tempo do transporte e da inspeção da carga", defende Rui Altenburg.

O jornalista viaja a convite da Fiesc.
"O Brasil deve fechar o ano com déficit de US$ 1 bilhão na balança comercial têxtil. Vai ter importado mais do que vendido ao exterior."
"O que ajudaria são as reformas tributária e trabalhista. Assim, as empresas poderiam competir com o mercado chinês." Renato Valim, diretor executivo do Sindicato das Indústrias de Fiação, Tecelagem e do Vestuário de Blumenau.
O setor em SC
- Gerou 1.748 empregos em setembro deste ano. Tem mais de três mil empresas dos setores têxtil e vestuário, com 83 mil trabalhadores.
- Exportou mais de US$ 205 milhões até agosto e US$ 216 milhões no mesmo período em 2006.
No Brasil
- Mais de 30 mil empresas.
- Gera 1,6 milhão de empregos na cadeia, que inclui fios, fibras, tecelagens e confecções.
- Está na lista dos dez principais mercados mundiais da indústria têxtil.
- É o segundo principal fornecedor de índigo e o terceiro de malha.
Empresário defende equilíbrio de realidades
"A China tem bem mais do que vocação para a manufatura. Tem condições para fazer bons produtos com preços baixos." A opinião é de Rui Altenburg, vice-presidente regional da Fiesc e dono de uma empresa que tem 85 anos, cerca de mil funcionários e figura entre as mais importantes do Brasil no segmento de cama, mesa e banho.
Altenburg destaca dois fatores que têm sido fundamentais para o avanço econômico chinês. Um é o perfil da população: o chinês pensa grande e procura fazer o melhor sempre. O outro é político. "Na China, não há barreiras para construção de obras que dêem condições para as empresas operarem com preços baixos", afirma, referindo-se às questões energética e de logística. O empresário defende um ponto de equilíbrio entre as realidades da China e do Brasil.